Na manhã de 28 de janeiro de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil se reúne para decidir o futuro da taxa básica de juros, a Selic. A expectativa dos economistas é clara: a taxa deve permanecer em 15% ao ano, o nível mais alto que o país vê há quase duas décadas. Mas, antes de aceitar esse número como um mero fato, vale a pena entender o que está por trás dessa decisão, como ela afeta a vida de quem ganha salário, quem tem dívidas ou investimentos, e o que podemos esperar nos próximos meses.
O papel da Selic na economia brasileira
A Selic funciona como o termômetro da política monetária. Quando o Banco Central quer frear a inflação, ele eleva a taxa; quando quer estimular o consumo e o investimento, ele a reduz. Essa ferramenta não age instantaneamente – os efeitos podem levar de seis a dezoito meses para se manifestar plenamente. Por isso, o Copom costuma olhar para o futuro, analisando projeções de inflação e o que espera acontecer no mercado nos próximos anos.
Por que a taxa está tão alta?
Desde o início de 2025, o Brasil adotou o sistema de meta contínua, que estabelece a inflação alvo entre 1,5% e 4,5%, com meta central em 3%. No entanto, a inflação tem ficado acima desse intervalo por seis meses consecutivos, o que obrigou o BC a manter a Selic em patamares elevados para conter a alta dos preços.
Os aumentos anteriores – que levaram a Selic a 15% – foram necessários para evitar que a inflação se descontrolasse, especialmente nos setores de alimentos, energia e serviços. Quando a inflação está alta, o poder de compra das famílias diminui, e os mais vulneráveis sentem o impacto de forma mais aguda.
O que dizem os economistas
Sérgio Samuel dos Santos, do Sistema Ailos, destaca que o Copom tem sido “muito técnico” e que a manutenção da taxa está alinhada com dados de atividade econômica que superaram as expectativas. Ele ressalta que o mercado de trabalho ainda está aquecido, com desemprego em níveis mínimos. Já Gustavo Sung, da Suno Research, acredita que o BC vai aguardar sinais mais claros dos indicadores antes de iniciar a fase de cortes. Ambos concordam que a decisão de manter a Selic em 15% reflete cautela diante de uma inflação que ainda não se firmou dentro da meta.
Como a Selic alta afeta o cidadão comum
Empréstimos e financiamentos: Quando a taxa de juros está alta, o custo do crédito sobe. Isso significa parcelas maiores em empréstimos pessoais, financiamentos de carro e, principalmente, no crédito imobiliário. Se você está planejando comprar a casa própria, pode sentir o peso de juros que chegam a 12% ao ano, além da Selic.
Cartão de crédito: O rotativo do cartão costuma ter juros que acompanham a Selic, multiplicados por um fator de risco. Uma Selic de 15% pode traduzir-se em juros rotativos acima de 30% ao ano. Por isso, pagar o total da fatura ainda é a melhor estratégia.
Poupança: A caderneta de poupança tem sua remuneração atrelada à Taxa Referencial (TR) mais 0,5% ao mês, mas só rende o que a Selic está acima de 8,5% ao ano. Quando a Selic está em 15%, a poupança fica mais atraente, mas ainda fica atrás de investimentos de renda fixa mais sofisticados.
Investimentos: Títulos do Tesouro Direto (Tesouro Selic) e CDBs de bancos que acompanham a taxa básica oferecem retornos próximos a 15% ao ano, descontados de impostos. Para quem busca segurança, esses produtos se tornam mais interessantes que a poupança. Por outro lado, quem investe em ações pode ver um cenário de menor volatilidade, já que juros altos tendem a frear o consumo e, consequentemente, o crescimento das empresas.
Desaceleração planejada: por que o BC quer um ritmo menor de crescimento?
O Comitê tem deixado claro que uma desaceleração moderada faz parte da estratégia para conter a inflação. Quando a economia cresce muito rápido, a demanda supera a oferta, pressionando os preços para cima. Ao reduzir o ritmo de crescimento, o BC busca equilibrar a demanda e a oferta, especialmente no setor de serviços, que costuma ser mais sensível a variações de demanda.
Na ata da última reunião, divulgada em dezembro de 2025, o BC destacou que o “hiato do produto” – a diferença entre o crescimento potencial e o real – ainda está positivo. Isso indica que a economia está operando acima do seu potencial sem gerar pressões inflacionárias excessivas, mas o Comitê prefere cautela para não criar um cenário de superaquecimento.
Quando podemos esperar o primeiro corte?
As projeções dos analistas apontam que a primeira redução da Selic pode acontecer apenas em março de 2026, quando a taxa cairia para 14,5% ao ano. Essa expectativa depende de dois fatores críticos:
- Consolidação da queda da inflação: Se a inflação conseguir se manter dentro da meta de 3% (entre 1,5% e 4,5%) nos próximos meses, o BC terá mais confiança para reduzir os juros.
- Estabilidade das expectativas: O mercado precisa acreditar que a política monetária será eficaz a longo prazo. Se os agentes econômicos (empresas, consumidores, investidores) estiverem ancorados nas metas, o BC pode agir com mais tranquilidade.
É importante lembrar que, mesmo que a taxa seja reduzida, o efeito nos empréstimos e nos investimentos só será sentido depois de alguns meses, devido ao atraso natural da política monetária.
O que fazer agora?
Se você está pensando em renegociar dívidas, pode ser um bom momento para buscar condições melhores, mas sem contar que os juros vão cair imediatamente. Avalie se o custo da dívida supera o benefício de esperar por uma possível redução da Selic.
Para quem tem dinheiro guardado, diversificar pode ser a estratégia mais inteligente. Uma parte em Tesouro Selic garante liquidez e segurança, enquanto outra fatia em CDBs ou fundos de renda fixa de prazo mais longo pode capturar a taxa alta antes que ela comece a cair.
Já os investidores de longo prazo em ações devem observar setores que tendem a se beneficiar de juros altos, como utilities (energia, saneamento) e bancos, que podem ver margens de lucro maiores com a diferença entre a taxa de captação e a taxa de empréstimo.
Perspectivas para 2027 e além
O Copom já está olhando para o terceiro trimestre de 2027 ao definir a política atual. Isso demonstra a visão de longo prazo que o Banco Central tenta adotar, considerando que os efeitos de uma mudança de juros podem demorar até 18 meses para se consolidar.
Se a inflação permanecer dentro da meta, podemos esperar uma trajetória de cortes graduais, talvez chegando a 10% ao ano até o final de 2027. Porém, qualquer choque externo – como variações no preço do petróleo, crises políticas ou mudanças nas políticas comerciais globais – pode alterar esse caminho.
Resumo prático
- A Selic deve ficar em 15% ao ano na reunião de janeiro de 2026.
- Essa taxa alta visa conter a inflação que tem ficado acima da meta nos últimos meses.
- Empréstimos, cartões de crédito e financiamentos ficam mais caros, enquanto investimentos de renda fixa oferecem retornos atraentes.
- O primeiro corte da Selic pode acontecer em março de 2026, para 14,5% ao ano, se a inflação se estabilizar.
- Planeje suas finanças: renegocie dívidas, diversifique investimentos e fique atento aos indicadores econômicos.
Em resumo, a decisão do Copom de manter a Selic em 15% não é apenas um número técnico. Ela reflete a tentativa do Banco Central de equilibrar inflação, crescimento e estabilidade. Para quem acompanha de perto as finanças pessoais, entender esse cenário ajuda a tomar decisões mais conscientes, seja na hora de pagar um empréstimo, escolher um investimento ou simplesmente planejar o orçamento familiar nos próximos meses.



