Nos últimos dias, a imprensa tem falado bastante sobre a reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Malásia. O que poucos perceberam é que, por trás da foto dos dois líderes apertando as mãos, há uma estratégia diplomática bem mais profunda: o Brasil sendo apontado como elemento essencial nos planos dos EUA para estabilizar a Venezuela.
O que está acontecendo na Venezuela?
A Venezuela vive uma crise que já dura mais de uma década. A economia está em frangalhos, a inflação disparou, há escassez de alimentos e medicamentos, e a população está cada vez mais desiludida com o regime de Nicolás Maduro. Em outubro de 2023, um grupo de militares apoiado pelos Estados Unidos tentou um golpe que resultou na captura de Maduro. O episódio gerou um vácuo de poder e aumentou a incerteza sobre quem vai assumir o comando do país.
Para os EUA, a situação venezuelana representa tanto um risco quanto uma oportunidade. Por um lado, a instabilidade pode gerar fluxos migratórios que afetam a região. Por outro, a Venezuela ainda possui as maiores reservas de petróleo do mundo, e a retomada da produção poderia ser um grande impulso para a economia americana.
Por que o Brasil entra nessa jogada?
O governo Lula tem um histórico de buscar uma política externa mais independente, mas também de manter canais de diálogo com todas as grandes potências. Nesse sentido, o Brasil aparece como um “mediador natural” por alguns motivos:
- Geografia e proximidade: o Brasil faz fronteira com a Venezuela e tem uma presença logística importante na região amazônica.
- Capacidade de produção: o Brasil tem uma indústria de petróleo consolidada (a Petrobras) e pode oferecer know‑how técnico para a reativação dos campos venezuelanos.
- Peso político: Lula tem boa relação com países da América Latina e pode ser visto como um interlocutor menos polarizador que os EUA.
- Interesses comerciais: o Brasil espera redução de tarifas de importação dos EUA, algo que pode ser negociado em troca de apoio à estabilização venezuelana.
Esses pontos fazem com que os assessores de Lula vejam a manutenção de um relacionamento próximo com Trump como estratégia não só diplomática, mas também econômica.
Como a relação Lula‑Trump pode influenciar a Venezuela?
O encontro bilateral em Kuala Lumpur foi marcado por um tom amistoso, apesar das diferenças ideológicas. Trump, que ainda tem influência sobre setores do governo americano, fez um convite a Lula para visitar os EUA no primeiro semestre de 2024. Esse convite, segundo fontes próximas ao Planalto, não é apenas uma cortesia diplomática; ele pode ser a porta de entrada para discussões sobre investimentos em infraestrutura venezuelana.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro tem que equilibrar duas narrativas: por um lado, apoiar a estabilização da Venezuela – que pode significar abrir espaço para empresas americanas entrarem no mercado de petróleo – e, por outro, condenar a “interferência” dos EUA na captura de Maduro, algo que o Brasil tradicionalmente critica como violação da soberania latino‑americana.
Esse jogo de cintura pode ser decisivo nas próximas eleições brasileiras. Se Lula conseguir demonstrar que está trazendo benefícios concretos – como a redução de tarifas ou investimentos em energia – ele ganha pontos com o eleitorado empresarial e com setores que ainda se sentem inseguros com a política externa mais alinhada à esquerda.
O que isso significa para o cidadão brasileiro?
Para a maioria das pessoas, a questão parece distante: “O que a crise venezuelana tem a ver com o meu bolso?” A resposta está nos impactos indiretos:
- Preços de combustíveis: se o Brasil ajudar a reativar a produção de petróleo na Venezuela, pode haver aumento da oferta global, o que tende a baixar os preços da gasolina e do diesel aqui.
- Exportações brasileiras: a redução de tarifas de importação dos EUA pode abrir novos mercados para produtos agrícolas e manufaturados brasileiros.
- Segurança regional: uma Venezuela mais estável reduz o fluxo de migrantes que chegam ao Brasil, aliviando pressões em serviços públicos nas fronteiras.
Além disso, a postura do Brasil como mediador pode reforçar sua imagem internacional, o que costuma trazer benefícios indiretos, como maior confiança de investidores estrangeiros.
Riscos e desafios
Nem tudo são flores. A estratégia tem alguns pontos críticos que podem virar contra o Brasil:
- Dependência dos EUA: ao se alinhar muito próximo de Trump, o Brasil pode ficar vulnerável a mudanças de postura americana, especialmente se houver uma nova administração nos EUA.
- Reação interna: setores da sociedade brasileira que veem a Venezuela como um regime autoritário podem criticar qualquer apoio, mesmo que seja mediado.
- Incerteza política venezuelana: o novo comando do regime ainda não está definido, e acordos podem ser revogados rapidamente.
Esses riscos exigem que o governo brasileiro mantenha um canal de comunicação aberto não só com Washington, mas também com Caracas, para garantir que os acordos sejam sustentáveis a longo prazo.
O futuro da diplomacia latino‑americana
Se o Brasil conseguir equilibrar esses interesses, pode abrir caminho para um novo modelo de diplomacia na América Latina, onde países emergentes atuam como pontes entre grandes potências. Isso poderia inspirar iniciativas semelhantes com a China, a União Europeia ou até mesmo com a Rússia, criando um cenário de maior multipolaridade.
Porém, tudo depende da capacidade de Lula e de sua equipe de transformar promessas em resultados concretos. Enquanto isso, nós, leitores, podemos acompanhar de perto as negociações, observar os efeitos nos preços dos combustíveis e ficar de olho nas próximas visitas diplomáticas.
Em resumo, a aposta do governo Lula de que o Brasil será necessário nos planos de estabilização da Venezuela não é apenas uma jogada de política externa; é uma estratégia que pode trazer benefícios econômicos, reforçar a segurança regional e, ao mesmo tempo, colocar o país em uma posição de destaque nas negociações internacionais. Resta saber se a diplomacia brasileira terá o peso suficiente para transformar essa aposta em realidade.



