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Por que o Bitcoin despencou ao menor nível desde a primeira gestão de Trump?

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Por que o Bitcoin despencou ao menor nível desde a primeira gestão de Trump?

Quando eu ouvi que o Bitcoin havia caído para US$ 65 mil – o preço mais baixo em 15 meses – a primeira coisa que pensei foi: será que tudo o que o presidente Donald Trump fez pela criptomoeda acabou sendo em vão?



Para quem acompanha o mercado há algum tempo, essa queda não é surpresa completa. O ativo digital já havia perdido cerca de 24% desde o início de 2025 e, apesar de um salto histórico para US$ 122 mil em outubro, a volatilidade parece ter voltado a dominar. Mas o que realmente está por trás desse recuo? Vamos destrinchar os principais fatores, entender o que isso significa para quem tem Bitcoin no bolso e analisar se ainda vale a pena investir.

O apoio de Trump: mito ou realidade?

Logo que Trump assumiu a Casa Branca em janeiro de 2025, ele lançou uma ordem executiva que prometia transformar os EUA na “capital mundial das criptomoedas”. Entre as promessas estavam a criação de uma moeda própria, que acabou se tornando a TrumpCoin, e a facilitação de regulamentações para o setor. No papel, tudo parecia ótimo para quem investe em cripto: menos burocracia, mais incentivos fiscais e, principalmente, um presidente que não tem medo de falar sobre Bitcoin nas entrevistas.

Entretanto, a prática mostrou outra cara. O governo de Trump acabou por consolidar interesses pessoais – com mais de US$ 11 bilhões em participações em criptomoedas e US$ 800 milhões de renda gerada por transações – o que gerou críticas intensas do Congresso, principalmente dos democratas. Quando o apoio político se mistura com ganhos pessoais, o mercado tende a ficar mais cauteloso.

Nomeação de Kevin Warsh ao Fed: o gatilho da queda

O ponto de virada, segundo analistas do Deutsche Bank, foi a nomeação de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve. Warsh tem reputação de ser mais “hawkish”, ou seja, defensor de juros mais altos para conter a inflação. Juros elevados costumam tornar ativos de risco, como o Bitcoin, menos atraentes, já que investidores preferem a segurança de títulos e a rentabilidade garantida.

Essa mudança de postura do Fed fez o dólar se fortalecer, e o Bitcoin, que tem forte correlação inversa ao dólar, acabou perdendo força. Não é só o Fed; o sentimento geral sobre cripto está mais negativo, com investidores tradicionais retirando capital e buscando refúgio em ativos mais estáveis.



O que os números realmente dizem?

  • Queda de 32% nos últimos 12 meses: o Bitcoin está próximo dos níveis de início de 2024 e de 2021.
  • Outras criptos também sentem o efeito: Ethereum e Solana registraram quedas de cerca de 37% em 2026.
  • Mercado total perdeu US$ 2 trilhões desde o pico de outubro de 2024, segundo a CoinGecko.
  • Previsões de baixa: a Stifel alerta que o Bitcoin pode chegar a US$ 38 mil se seguir a tendência de alinhamento com o dólar.

Esses números deixam claro que não é apenas uma questão de “boom e bust” pontual; estamos vendo uma maturação do mercado, onde os investidores começam a exigir fundamentos mais sólidos.

Visões de especialistas: pessimismo ou oportunidade?

William Barhydt, da Abra Capital Management, acredita que o Bitcoin está passando de um ativo puramente especulativo para algo que precisa encontrar um papel específico no portfólio de investidores. Ele não vê o fim da criptomoeda, mas admite que o caminho de volta aos preços recorde será longo e dependerá de fatores macroeconômicos, como a estabilidade do dólar e a política monetária dos EUA.

Já o Deutsche Bank, apesar de reconhecer a importância das criptos, não espera um retorno imediato ao patamar de US$ 120 mil. A instituição aponta que o Bitcoin está se tornando um ativo “mais realista”, mas ainda carece de um uso claro que justifique seu preço atual.



O que isso significa para você, investidor brasileiro?

Se você tem Bitcoin ou pensa em comprar, alguns pontos são essenciais:

  1. Entenda o seu horizonte: se seu objetivo é curto prazo, a volatilidade pode ser um problema. Para quem pensa em longo prazo, a tendência de maturação pode ser favorável.
  2. Diversifique: não coloque todo o seu capital em um único ativo. Combine cripto com renda fixa, ações e, se possível, fundos de investimento que ofereçam exposição controlada.
  3. Acompanhe a política dos EUA: decisões do Fed e movimentos políticos de Trump (ou de quem vier a sucedê-lo) afetam diretamente o preço do Bitcoin.
  4. Use plataformas seguras: trocas brasileiras ainda são vulneráveis; prefira carteiras de hardware ou serviços com boa reputação internacional.

Além disso, fique de olho nas notícias sobre regulação. Recentes mudanças na SEC, que abandonou investigações sobre cripto, podem indicar uma postura mais branda, mas isso não garante estabilidade de preço.

Olhar para o futuro: o que esperar nos próximos anos?

Alguns cenários possíveis:

  • Estabilização em torno de US$ 40‑50 mil: se o dólar permanecer forte e o Fed mantiver juros altos, o Bitcoin pode encontrar um “vale” de preço mais estável.
  • Recuperação gradual: caso haja uma nova onda de inovação (por exemplo, adoção institucional ou desenvolvimento de soluções de camada 2), o preço pode subir gradualmente, mas sem picos explosivos.
  • Choque externo: uma crise geopolítica ou uma grande falha de segurança em alguma exchange pode provocar quedas ainda mais acentuadas.

Em resumo, o Bitcoin está em um momento de transição. Não é mais apenas um jogo de apostas de day‑trade; está sendo avaliado como um ativo que precisa justificar seu valor com uso real e estabilidade.

Se você está pensando em entrar agora, a mensagem é clara: faça sua lição de casa, não invista mais do que pode perder e mantenha a calma diante das oscilações. O mercado cripto tem um histórico de altos e baixos, e quem consegue navegar por essas ondas costuma ser quem tem paciência e estratégia.