Radar Fiscal

Por que cidades de SP e RJ perderam participação no PIB em 2023 e o que isso significa para você

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Por que cidades de SP e RJ perderam participação no PIB em 2023 e o que isso significa para você

Um panorama rápido

Na última sexta-feira o IBGE divulgou o estudo PIB dos Municípios 2022‑2023. O resultado surpreendeu: municípios de São Paulo e Rio de Janeiro lideraram a lista de perdas de participação no Produto Interno Bruto nacional. Enquanto isso, capitais como São Paulo, Brasília e Porto Alegre ganharam terreno. Parece um número frio, mas tem implicações bem reais no nosso dia a dia – no emprego, nos preços e até na qualidade dos serviços que recebemos.

Quem ficou para trás?

Os três primeiros colocados na lista de perdas são todas do Rio de Janeiro: Maricá, Niterói e Saquarema, com recuos entre 0,2 e 0,3 ponto percentual. Ilhabela (SP) e Campos dos Goytacazes (RJ) completam o grupo, cada um com queda de 0,1 p.p. Não é só questão de números; esses municípios têm economias muito dependentes de um único setor.

  • Maricá – forte presença da indústria de petróleo e gás.
  • Niterói – mistura de serviços e indústria, mas vulnerável à variação de preços de commodities.
  • Saquarema – turismo, porém com grande parcela de investimentos ligados à energia.
  • Ilhabela – turismo de alto padrão, mas com pouca diversificação produtiva.
  • Campos dos Goytacazes – centro histórico da produção de açúcar e, mais recentemente, da extração de petróleo.

O ponto comum? Dependência da indústria extrativa, sobretudo petróleo e gás. Em 2023 os preços internacionais dessas commodities caíram cerca de 22,7 %, mesmo com um aumento de 9,2 % no volume produzido. O resultado foi menos Valor Adicionado Bruto (VAB) – a medida que mostra a riqueza efetiva gerada antes de impostos.

O que é Valor Adicionado Bruto (VAB) e por que importa?

VAB pode soar técnico, mas a ideia é simples: é a diferença entre o que a empresa produz e o que ela gasta em insumos (matérias‑primas, energia, serviços). Quando o VAB de um município cai, significa que a atividade econômica local está gerando menos riqueza real. Isso se traduz em menos empregos, menos arrecadação de impostos e, muitas vezes, menos investimento em infraestrutura.

Capitais em alta: quem ganhou?

Do outro lado da moeda, as capitais e grandes centros urbanos registraram ganhos. São Paulo liderou com avanço de 0,36 ponto percentual, subindo de 9,4 % para 9,7 % do PIB nacional. Brasília (+0,08 p.p.), Porto Alegre (+0,06 p.p.), Rio de Janeiro (+0,05 p.p.), Belo Horizonte (+0,05 p.p.) e Manaus (+0,04 p.p.) também subiram.

O motor desse crescimento foi a recuperação do setor de serviços, que concentra a maior parte das atividades econômicas nas capitais. Em São Paulo, por exemplo, o destaque ficou para finanças, seguros e serviços relacionados, que voltaram a ganhar força depois de um 2022 difícil.

Desconcentração ou concentração?

Um dos indicadores que o IBGE destacou foi a mudança na participação dos municípios que não são capitais: a fatia caiu de 72,5 % para 71,7 % entre 2022 e 2023. Em outras palavras, a economia do país está se concentrando um pouco mais nas capitais. Isso pode parecer bom para quem vive nas grandes cidades, mas traz riscos: se tudo ficar muito centralizado, regiões menores ficam ainda mais vulneráveis a crises setoriais.

Como isso afeta a sua vida?

Mesmo que você não trabalhe diretamente nesses municípios, a dinâmica tem reflexos no seu bolso:

  • Mercado de trabalho: menos VAB costuma gerar menos vagas. Se a sua família tem alguém empregado em áreas de petróleo ou em indústrias de transformação, a queda pode significar risco de demissão ou redução de salários.
  • Preços de bens e serviços: a diminuição da produção local pode elevar custos de transporte e, consequentemente, os preços de produtos que chegam ao seu carrinho.
  • Investimentos públicos: menos arrecadação municipal significa menos recursos para saúde, educação e infraestrutura.
  • Oportunidades de negócio: para empreendedores, a concentração de serviços nas capitais abre portas para novos negócios de tecnologia, consultoria e logística.

O que pode ser feito?

Não é tarefa só do governo federal. Municípios, empresas e cidadãos podem atuar:

  1. Diversificar a economia local: incentivar setores como tecnologia, turismo sustentável e agroindústria para reduzir a dependência de um único segmento.
  2. Investir em capacitação: cursos de qualificação que preparem a força de trabalho para transitar entre setores.
  3. Fomentar parcerias público‑privadas: projetos de energia renovável ou de inovação que atraiam investimento sem depender exclusivamente do petróleo.
  4. Participar da política local: cobrar dos gestores transparência na aplicação dos recursos e planejamento de longo prazo.

Um olhar para o futuro

Se a tendência de concentração continuar, podemos esperar um Brasil ainda mais dividido entre regiões prósperas e áreas que lutam para se manter. Por outro lado, a crise nas indústrias extrativas pode ser um convite para acelerar a transição energética, investindo em fontes renováveis e em tecnologias verdes. Isso criaria novos polos de desenvolvimento, talvez em cidades que hoje não aparecem nos rankings de PIB.

Para quem acompanha o mercado de trabalho, vale ficar de olho nas áreas que estão crescendo – serviços digitais, fintechs, saúde e educação online. Para quem pensa em investir, a diversificação geográfica pode ser uma estratégia inteligente: buscar oportunidades em cidades que ainda não perderam participação, mas que têm potencial de crescimento.

Conclusão

Os números do IBGE mostram mais do que estatísticas: revelam como a dependência de um único setor pode tornar municípios vulneráveis a choques externos, enquanto a diversificação e a força dos serviços nas capitais trazem resiliência. Seja você morador de São Paulo, do Rio de Janeiro, de uma cidade do interior ou de uma capital, entender essas dinâmicas ajuda a tomar decisões mais informadas sobre carreira, investimentos e até sobre onde viver.

Fique atento às próximas divulgações do IBGE e, se puder, participe das discussões locais. Afinal, a economia de um país é feita pelos pequenos e grandes municípios juntos – e cada um tem seu papel na história que estamos escrevendo.