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Por que as tradings de soja estão pensando em abandonar a Moratória da Amazônia?

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Por que as tradings de soja estão pensando em abandonar a Moratória da Amazônia?

Nos últimos dias, o assunto que tem ocupado mesas de reunião, grupos de ambientalistas e até o Twitter são as tradings de soja que estão cogitando abandonar a chamada Moratória da Soja. Se você ainda não ouviu falar desse pacto, ou está se perguntando o que isso tem a ver com a sua vida, fica comigo que eu explico tudo de forma simples e sem rodeios.



O que é a Moratória da Soja?

A Moratória da Soja foi criada em 2006, como um acordo entre o governo federal, organizações não‑governamentais e as maiores tradings do mundo que compram grãos no Brasil. O objetivo? impedir que soja fosse comprada de produtores que desmatassem áreas da Amazônia depois de julho de 2008.

Em quase duas décadas, esse mecanismo ajudou a salvar milhões de hectares de floresta. Pesquisas apontam que, sem a moratória, uma área do tamanho da Irlanda poderia ter sido convertida em lavoura de soja.



Por que as empresas querem sair agora?

A resposta está nos incentivos fiscais. O Estado de Mato Grosso, que produz cerca de 51 milhões de toneladas métricas de soja por ano, decidiu que a partir de janeiro de 2025 vai retirar esses benefícios das empresas que mantêm o pacto.

Entre 2019 e 2024, as tradings arrecadaram cerca de R$ 4,7 bilhões em incentivos. Os maiores beneficiados foram a ADM e a Bunge, cada uma com aproximadamente R$ 1,5 bilhão.

Com a nova lei, muitas empresas avaliam que perder esses recursos pode ser mais caro do que abrir mão da moratória.



Quem são os principais atores?

  • ADM (Estados Unidos)
  • Bunge (Estados Unidos)
  • Cargill (Estados Unidos)
  • Cofco (China)
  • Amaggi (Brasil)

Todas essas companhias têm unidades em Mato Grosso e, portanto, sentem o peso da decisão estadual. Até o momento, nenhuma respondeu oficialmente aos pedidos de comentário.

O que isso significa para o meio ambiente?

Se as tradings deixarem a moratória, o monitoramento de áreas desmatadas pode enfraquecer. O controle que impede a compra de soja de áreas recém‑desmatadas seria menos rigoroso, abrindo espaço para novos avanços da fronteira agrícola.

Além disso, o fim da moratória pode desencadear um efeito dominó: outras salvaguardas, como partes do Código Florestal que limitam o desmatamento em 80 % das propriedades amazônicas, podem ser ameaçadas.

Impactos econômicos para o produtor local

Os críticos da moratória argumentam que ela restringe o mercado e diminui a renda dos produtores rurais. Para quem depende da soja como principal fonte de receita, perder incentivos fiscais pode significar menos investimento em tecnologia e infraestrutura.

Por outro lado, ambientalistas apontam que a manutenção da moratória traz benefícios de longo prazo: preservação de recursos hídricos, manutenção da biodiversidade e até a possibilidade de acessar mercados internacionais que exigem cadeias de produção sustentáveis.

O que o governo federal está fazendo?

O Ministério do Meio Ambiente, por meio do secretário extraordinário André Lima, já entrou com ação na Justiça para contestar a lei estadual que retira os incentivos. A ideia é garantir que as empresas não abandonem o compromisso ambiental por questões fiscais.

Entretanto, o próprio governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem enfrentado pressões internas de um lobby ruralista cada vez mais forte no Congresso.

Como isso afeta o consumidor?

Você pode estar se perguntando: “E eu, que compro alimentos no supermercado, como isso me impacta?” A resposta está na cadeia de valor. Se a produção de soja se expandir para áreas desmatadas, isso pode gerar:

  • Preços mais baixos no curto prazo, devido ao aumento da oferta.
  • Pressão internacional que pode levar a boicotes ou tarifas sobre produtos brasileiros.
  • Maior risco de eventos climáticos extremos, que afetam a produção de alimentos em geral.

Em resumo, a escolha das tradings tem reflexos que vão muito além das fazendas de Mato Grosso.

O que podemos fazer?

Não somos apenas espectadores. Existem maneiras de influenciar o debate:

  1. Exigir transparência: cobrar das empresas relatórios claros sobre suas práticas de desmatamento.
  2. Consumir com consciência: buscar produtos certificados por selos de sustentabilidade.
  3. Pressionar políticos: apoiar candidatos que defendam políticas de preservação ambiental.

Pequenas ações individuais, quando somadas, podem mudar a lógica de mercado que favorece o desmatamento.

O futuro da Moratória da Soja

O que está em jogo é um equilíbrio delicado entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Se a moratória for abandonada, podemos ver um aumento no desmatamento, mas também uma reação de mercados internacionais que cada vez mais exigem cadeias de produção livres de desmatamento.

O cenário ainda está se desenhando, e o papel do STF, do CADE e das organizações da sociedade civil será decisivo nos próximos meses.

Fique de olho nas notícias, participe de discussões e, principalmente, faça escolhas informadas. O futuro da Amazônia e da nossa própria mesa pode depender de decisões que parecem distantes, mas que, na prática, afetam a todos nós.