Nos últimos dias, os jornais têm falado muito sobre o súbito aumento das exportações de petróleo da Venezuela para os Estados Unidos. Se você acompanha o mercado de energia, já deve ter percebido que a situação não está tão simples assim. As refinarias da Costa do Golfo, que deveriam ser as principais compradoras, estão encontrando dificuldades para absorver todo esse volume recém‑chegado.
O que motivou esse influxo?
Em janeiro, Caracas e Washington fecharam um acordo de US$ 2 bilhões para que a Venezuela começasse a vender mais petróleo ao mercado americano. O movimento foi impulsionado por duas coisas: a flexibilização do controle estatal sobre o petróleo venezuelano aprovada pelo Legislativo da Venezuela e a vontade da administração Trump de reduzir a dependência de energia russa e chinesa.
Por que as refinarias não conseguem comprar tudo?
O principal obstáculo está na diferença de qualidade e preço. O petróleo venezuelano é pesado e contém mais enxofre, o que exige ajustes nas unidades de refino. Além disso, apesar de o preço estar com desconto de cerca de US$ 9,50 por barril em relação ao Brent, ainda é mais caro que os graus leves canadenses que competem no mesmo mercado.
- Desconto atual: ~US$ 9,50/barril vs Brent
- Desconto anterior (jan): US$ 6‑7,50/barril
- Preço ainda acima dos concorrentes leves
Esses fatores fazem com que os operadores das refinarias hesitem: “Temos mais para vender, mas não há compradores suficientes”, comentou um operador do mercado.
Quem está por trás das negociações?
Três grandes players receberam licenças do governo dos EUA para negociar o petróleo venezuelano: Vitol, Trafigura e Chevron. Cada um tem uma estratégia diferente:
- Chevron: já possuía autorização e aumentou seus embarques de 99 mil para 220 mil barris por dia em janeiro. A empresa afirma que pode processar até 150 mil barris diários do petróleo pesado, mas ainda precisa encontrar espaço para o excedente.
- Vitol e Trafigura: juntas exportaram cerca de 12 milhões de barris em janeiro, principalmente para terminais de armazenamento no Caribe. Grande parte desse volume ainda não tem comprador definitivo.
Impactos nos números
Os dados de monitoramento de navios mostram que as exportações para os EUA quase triplicaram, chegando a 284 mil barris por dia. Ainda assim, esse número está longe dos 500 mil barris diários que os EUA importavam da Venezuela antes das sanções de 2019.
Além disso, a capacidade real de processamento das refinarias americanas ainda está aquém do necessário. A Phillips 66, por exemplo, afirma que poderia processar até 250 mil barris diários, mas somente se o preço for competitivo.
O que isso significa para o consumidor?
Para o brasileiro que acompanha o preço da gasolina, a situação pode parecer distante, mas há conexões importantes:
- Se as refinarias americanas não conseguirem absorver o volume, o preço do petróleo bruto pode cair ainda mais, o que eventualmente pode refletir em preços mais baixos nos mercados globais, inclusive no Brasil.
- Por outro lado, a instabilidade no fornecimento pode gerar volatilidade nos contratos futuros, afetando as estratégias de compra de empresas brasileiras de energia.
Perspectivas futuras
O futuro ainda é incerto. Existem alguns caminhos possíveis:
- Ajustes técnicos nas refinarias: Investimentos para adaptar unidades ao petróleo pesado podem levar meses, mas são essenciais para ampliar a demanda.
- Redirecionamento para outros mercados: A Índia tem demonstrado interesse em importar petróleo venezuelano, e a China, embora tenha reduzido compras, ainda mantém alguma capacidade de compra.
- Novas negociações políticas: Qualquer mudança na política dos EUA em relação à Venezuela – como a revogação de licenças ou novos acordos comerciais – pode mudar drasticamente o fluxo de exportações.
Enquanto isso, a PDVSA continua tentando aumentar sua produção. Se conseguir elevar a oferta em até 50 % nos próximos dois anos, a pressão sobre o mercado global de petróleo pode crescer ainda mais.
Conclusão
Em resumo, o aumento repentino das exportações de petróleo venezuelano para os EUA revela como a geopolítica, a qualidade do produto e as capacidades de refino se entrelaçam. As refinarias da Costa do Golfo ainda têm um longo caminho a percorrer para absorver todo esse volume, e isso cria um cenário de excesso de oferta, preços mais baixos e, ao mesmo tempo, incerteza para os compradores.
Para nós, que acompanhamos de perto o mercado energético, a lição é clara: não basta fechar acordos de preço; é preciso garantir que a infraestrutura e a logística estejam alinhadas. Caso contrário, até o melhor negócio pode virar um problema de estoque.



