Nos últimos dias, o nome Fictor tem aparecido nos noticiários como sinônimo de turbulência. Se você acompanha a bolsa, deve ter percebido a queda brusca das ações da Fictor Alimentos (código FICT3), que perderam mais de 60% desde a tentativa frustrada de comprar o Banco Master. Mas o que está por trás desses números e, principalmente, como isso afeta quem tem dinheiro investido ou pensa em colocar? Vou tentar explicar de forma simples, como se estivéssemos batendo um papo no café.
O que aconteceu com a tentativa de compra do Banco Master?
Em novembro de 2025, um consórcio liderado por um dos sócios da Fictor anunciou a intenção de adquirir o Banco Master. A ideia parecia boa na teoria: ampliar a presença no setor financeiro e criar sinergias com a FictorPay e a Fictor Asset. Porém, o Banco Central interveio e decretou a liquidação do Banco Master, bloqueando a operação.
O resultado? Uma avalanche de notícias negativas. A mídia destacou o revés como um sinal de falta de competência e, mais importante, como um risco de crédito. Para uma empresa que depende de acesso a financiamento para manter suas múltiplas frentes – alimentos, energia, infraestrutura – a reputação é dinheiro.
Recuperação judicial: o que significa na prática?
No domingo, 1º de fevereiro, o Grupo Fictor entrou com pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo para a Fictor Holding e a Fictor Invest. O objetivo oficial é reorganizar cerca de R$ 4 bilhões em dívidas sem interromper as operações das subsidiárias que não foram incluídas no pedido.
Para quem não está familiarizado, a recuperação judicial funciona como um “plano de reestruturação” supervisionado pelo juiz. A empresa tem um prazo (geralmente 180 dias) para apresentar propostas aos credores, que podem incluir:
- Renegociação de prazos e juros;
- Venda de ativos não estratégicos;
- Redução de custos operacionais, incluindo demissões.
Enquanto isso, a empresa continua operando normalmente, mas enfrenta restrição de crédito – o que já estava acontecendo antes do pedido.
Como a crise afetou as ações da Fictor Alimentos?
A Fictor Alimentos, que entrou na B3 em 2024, viu suas ações despencarem 40% apenas na segunda‑feira, 2 de fevereiro, chegando a R$ 0,68 por papel. Desde o escândalo do Banco Master, a queda acumulada ultrapassa 63%.
Por que uma empresa de alimentos sente tanto o impacto de um negócio bancário? A resposta está na estrutura de holding. Quando a reputação da controladora é abalada, investidores ficam receosos de colocar dinheiro em qualquer parte do grupo, mesmo que a operação de alimentos seja saudável. O medo de que a empresa não consiga honrar dívidas ou que precise vender ativos para pagar credores cria um efeito dominó nas cotações.
O que isso quer dizer para quem já tem ações da Fictor?
Se você já possui papéis da FICT3, a primeira reação costuma ser o pânico. Mas vale lembrar alguns pontos:
- Separação de risco: As ações da Fictor Alimentos são negociadas separadamente da holding. A performance operacional da fábrica, das granjas e dos frigoríficos pode continuar sólida.
- Visão de longo prazo: Reorganizações judiciais podem, na melhor das hipóteses, limpar o balanço e abrir caminho para nova fase de crescimento.
- Liquidez: Em momentos de queda acentuada, a liquidez diminui. Isso significa que vender pode ser mais difícil ou gerar preço ainda menor.
Portanto, antes de tomar qualquer decisão, avalie a saúde dos negócios de alimentos, não só o drama da holding.
Impactos para o investidor comum
Para quem ainda não tem participação, a situação traz duas lições importantes:
- Diversificação é essencial. Concentrar recursos em um único conglomerado aumenta a vulnerabilidade a crises de reputação.
- Fique de olho no ambiente regulatório. Decisões do Banco Central podem mudar o panorama de negócios de forma abrupta.
Além disso, a volatilidade cria oportunidades. Se a empresa conseguir sair da recuperação com um plano sólido, o preço das ações pode se recuperar, gerando ganhos para quem entrou na baixa.
O futuro da Fictor: o que esperar?
O grupo tem um portfólio diversificado: alimentos, energia renovável, infraestrutura, fintechs e até patrocínios esportivos. Essa amplitude pode ser uma força, mas também um ponto fraco se a gestão não conseguir alinhar as áreas.
Alguns cenários possíveis:
- Reestruturação bem‑sucedida: Dívidas renegociadas, ativos não essenciais vendidos, foco nas áreas mais rentáveis (como a produção de proteína animal). As ações podem se recuperar gradualmente.
- Venda de ativos estratégicos: A Fictor pode decidir desfazer parte das participações em energia ou infraestrutura para gerar caixa e reduzir o endividamento.
- Desinvestimento de marcas: Marcas como Dr. Foods ou Vensa podem ser vendidas a concorrentes, trazendo recursos imediatos.
Em qualquer caso, o acompanhamento próximo das comunicações da empresa será crucial. O grupo tem divulgado relatórios de reestruturação, mas ainda falta transparência sobre prazos e metas.
Conclusão: vale a pena observar?
Eu acredito que a história da Fictor ainda tem capítulos por vir. A crise atual é um lembrete de como reputação e acesso a crédito são vitais para conglomerados. Se você tem perfil de investidor mais arrojado, pode ser interessante monitorar a evolução do plano de recuperação e considerar uma posição pequena quando houver sinais de estabilização.
Se, por outro lado, prefere segurança, talvez seja melhor buscar empresas com histórico mais estável e menos dependentes de decisões regulatórias inesperadas.
De qualquer forma, a situação da Fictor reforça a importância de entender o que está por trás dos números da bolsa – não basta olhar só o preço das ações, é preciso conhecer a estrutura, a governança e os riscos que podem surgir a qualquer momento.



