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Por que a França não vai impedir o acordo Mercosul‑UE – e o que isso significa para o Brasil

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Por que a França não vai impedir o acordo Mercosul‑UE – e o que isso significa para o Brasil

Na última semana eu estava acompanhando as notícias da cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, no Paraná, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva soltou uma frase que, para mim, resumiu bem o clima de tensão e esperança que paira sobre o tão aguardado acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.

O que está acontecendo?

Lula afirmou que a França, sozinha, não conseguirá barrar o tratado. Em outras palavras, mesmo que o governo francês esteja pedindo mais salvaguardas para os agricultores, ele não tem poder suficiente para bloquear a assinatura se a maioria dos demais países europeus estiver a favor.

Um acordo que vem de longe

O pacto Mercosul‑UE está em negociação há 25 anos. Ele prevê a redução gradual de tarifas, regras comuns para comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos e até padrões regulatórios. Se tudo correr como esperado, será a maior zona de livre‑comércio do mundo, conectando duas regiões que produzem quase um terço dos alimentos consumidos globalmente.

Por que a França está na linha de frente da resistência?

O presidente francês Emmanuel Macron tem sido o porta‑voz das preocupações dos agricultores de seu país. Eles temem que produtos latino‑americanos – mais baratos e produzidos sob normas ambientais diferentes – inundem o mercado europeu, diminuindo preços e colocando em risco a subsistência de quem planta trigo, leite e queijo na França.

  • Saúde do campo francês: os agricultores pedem “salvaguardas” que garantam cotas ou tarifas mínimas.
  • Política interna: Macron usa a questão para reforçar sua base rural antes das próximas eleições.
  • Pressão da UE: a França tem mais peso político dentro do Conselho Europeu, onde decisões precisam de maioria qualificada.

E a Itália? Um aliado inesperado da França

Recentemente a primeira‑ministra italiana Giorgia Meloni também entrou no debate, alegando que o acordo poderia prejudicar os agricultores italianos. Ela, porém, mostrou mais flexibilidade, dizendo que apoiaria o tratado se fossem atendidas as demandas setoriais. Essa postura abriu espaço para que a França ficasse mais isolada, mas ainda tem força suficiente para exigir um adiamento.

Quem está do lado da assinatura?

Além da França, o bloco europeu tem países que veem o acordo como uma oportunidade estratégica:

  • Alemanha – liderada por Friedrich Merz – acredita que o tratado pode compensar as tarifas impostas pelos EUA e reduzir a dependência da China em minerais críticos.
  • Espanha – sob Pedro Sánchez – apoia a expansão de mercados para produtos agrícolas e industriais europeus.
  • Países nórdicos – Dinamarca, Suécia, Finlândia – também defendem a assinatura, destacando benefícios para a indústria de energia limpa.

Como funciona a aprovação na UE?

O Conselho Europeu, que reúne representantes dos 27 países membros, precisa de uma maioria qualificada: ao menos 15 países que representem 65% da população da UE. Isso significa que, mesmo que a França vote contra, o acordo ainda pode passar se houver apoio suficiente de outras nações.

Qual o papel do Brasil nessa partida?

Para nós, brasileiros, o tratado tem duas faces:

  1. Exportações agrícolas: carne bovina, soja, milho e frutas podem ganhar novos mercados com tarifas reduzidas, aumentando a competitividade internacional.
  2. Indústria e tecnologia: acesso a componentes europeus, investimentos em energia renovável e cooperação em pesquisa podem impulsionar setores que ainda dependem de tecnologia importada.

Mas há desafios. O agronegócio brasileiro precisará se adaptar a padrões ambientais mais rígidos da UE, o que pode exigir investimentos em sustentabilidade, rastreabilidade e certificações.

E agora? O que esperar nos próximos meses

Lula indicou que a assinatura pode acontecer no primeiro mês da presidência do Paraguai, com o presidente Santiago Peña liderando a cerimônia. Se tudo correr bem, a assinatura oficial poderia acontecer ainda em 2025, apesar do pequeno adiamento provocado pela França e Itália.

Para quem acompanha de perto o comércio internacional, vale ficar de olho em alguns indicadores:

  • Posição da França no Conselho: se o país mudar de postura ou buscar concessões, pode atrasar ainda mais o processo.
  • Reações dos agricultores europeus: protestos ou greves podem influenciar a decisão final.
  • Política interna da UE: com as próximas eleições europeias, os líderes podem ajustar suas estratégias para garantir apoio popular.

O que eu acho?

Eu vejo esse acordo como um grande passo rumo à integração econômica global, mas também como um teste de como grandes blocos podem conciliar interesses divergentes. Se a França realmente não conseguir barrar o tratado, será um sinal de que a maioria dos países europeus está disposta a abrir as portas para o Mercosul, reconhecendo o potencial de crescimento mútuo.

Para nós, consumidores, pode significar produtos mais baratos e maior variedade nas prateleiras. Para os produtores, mais oportunidades, mas também a necessidade de inovar e atender a padrões mais exigentes. No fim das contas, o que importa é que o debate esteja aberto e que haja espaço para ajustes que beneficiem todas as partes.

Conclusão

O futuro do acordo Mercosul‑UE ainda tem algumas curvas, mas a mensagem de Lula deixa claro: a França não tem força suficiente para impedir o avanço. Se a União Europeia conseguir alinhar seus interesses, o Brasil e os demais países do bloco sul‑americano podem entrar numa nova era de comércio mais livre e diversificado.

Eu continuarei acompanhando de perto cada passo – e você também pode ficar de olho nas próximas notícias, nos debates dos agricultores e nas decisões do Conselho Europeu. Afinal, esse acordo pode mudar a forma como compramos, produzimos e nos relacionamos com o resto do mundo.