Um acordo que parece simples, mas esconde uma guerra silenciosa
Quando eu li que a Comissão Europeia ainda não conseguiu fechar o tratado comercial com o Mercosul, confesso que pensei: “É mais uma questão de burocracia, nada que vá mudar a minha vida”. Mas, ao aprofundar um pouco, percebi que esse acordo está no centro de um debate que envolve agricultores franceses, produtores brasileiros, políticas de subsídios e até a própria sobrevivência de famílias que vivem do campo.
O que está em jogo?
Para o Brasil, o Mercosul representa a porta de entrada para um dos maiores blocos consumidores do mundo: a União Europeia. Exportar carne bovina, soja, café ou açúcar para a UE sem tarifas seria um salto de qualidade para o nosso agronegócio. Por outro lado, a França – que tem uma tradição agrícola forte, mas que vive crises sucessivas – está usando o acordo como bode expiatório para seus próprios problemas internos.
Crises sanitárias que viram manchete na França
- Dermatose nodular contagiosa bovina: uma doença que ameaça o rebanho francês e obriga o governo a abater animais em massa.
- Gripe aviária em Landes: a região que produz a maior parte dos patos para o famoso foie gras está sob risco de contaminação.
- Problemas no trigo e nos vinhos: concorrência internacional, clima instável e flutuações de preço têm deixado os produtores locais em situação delicada.
Essas crises são o pano de fundo que faz a França temer que a entrada de produtos sul‑americanos, que seguem normas sanitárias menos rigorosas, possa agravar ainda mais a situação.
O déficit comercial francês: um marco histórico
Em 2025, a França poderá registrar, pela primeira vez em 50 anos, um déficit comercial na agricultura – ou seja, importar mais do que exporta. O que está impulsionando esse desequilíbrio?
- Aumento dos preços internacionais de cacau e café, que favorecem produtores de fora da Europa.
- Queda nas exportações de vinhos e destilados após a guerra tarifária iniciada por Donald Trump.
- Safras ruins e preços menores dos cereais, que reduzem a competitividade dos nossos grãos.
Jean‑Christophe Bureau, professor da AgroParisTech, resume bem: “Temos um problema de conjuntura e outro de competitividade”.
Subsídios da Política Agrícola Comum (PAC) em risco
A PAC é o coração financeiro da agricultura francesa. Cada ano, cerca de 9 bilhões de euros chegam direto aos bolsos dos agricultores – isso representa quase dois terços da renda do setor. Contudo, o próximo orçamento (2028‑2034) pode ver um corte de até 20%, o que deixaria o país ainda mais vulnerável.
Imagine o impacto: menos dinheiro para modernizar máquinas, menos apoio para pesquisa e desenvolvimento, e, consequentemente, menos capacidade de competir com produtores que operam em escala global.
Por que a França vê o Mercosul como ameaça?
Além das crises sanitárias, há duas grandes preocupações:
- Regulamentação ambiental: a UE tem normas rígidas sobre uso de agrotóxicos, emissões de gases e bem‑estar animal. Produtos latino‑americanos podem ser produzidos com regras mais brandas, o que, na visão francesa, cria concorrência desleal.
- Preços: se o preço de carne bovina, aves ou mel do Mercosul for 5% mais baixo que o da UE, o Parlamento Europeu pode acionar tarifas de salvaguarda. Essa possibilidade deixa os produtores franceses em alerta.
Mesmo com as salvaguardas propostas – limites de importação e mecanismos de monitoramento – a maioria dos agricultores ainda sente que o acordo pode ser a gota d’água que vai derramar o copo já quase cheio.
O que isso significa para o produtor brasileiro?
Para quem trabalha no campo aqui no Brasil, o cenário traz tanto oportunidades quanto incertezas:
- Potencial de expansão: se o acordo for aprovado, poderemos exportar mais carne, soja e açúcar com tarifas reduzidas, aumentando a margem de lucro.
- Necessidade de adaptação: os compradores europeus podem exigir certificações mais rigorosas em termos de rastreabilidade, bem‑estar animal e sustentabilidade.
- Risco de barreiras não‑tarifárias: mesmo com tarifas zero, a UE pode impor quotas ou requisitos sanitários que dificultem a entrada dos nossos produtos.
Em resumo, o acordo não é um “caminho livre” – ele vem acompanhado de exigências que exigirão investimentos em tecnologia e conformidade.
Visão de futuro: será que o acordo vai acontecer?
O Parlamento Europeu já aprovou medidas de proteção e criou mecanismos para acionar tarifas caso haja desestabilização do mercado. A França, porém, pediu adiamento da assinatura. Se países como Itália decidirem apoiar Paris, a aliança poderia bloquear o tratado.
Para nós, brasileiros, isso significa que o futuro do comércio agro‑alimentar com a UE ainda está em aberto. Enquanto o acordo não for oficialmente ratificado, vale a pena ficar atento às negociações, às demandas de certificação e às mudanças nas políticas de subsídios europeias.
Como se preparar?
Se você tem uma fazenda ou trabalha em uma cooperativa, aqui vão três passos práticos:
- Invista em rastreabilidade: sistemas de registro digital que mostrem a origem, o manejo e as práticas sustentáveis do seu produto.
- Busque certificações internacionais: como GlobalG.A.P., Rainforest Alliance ou certificações de bem‑estar animal reconhecidas na UE.
- Fique de olho nas políticas europeias: acompanhe as discussões sobre a PAC, as salvaguardas do Mercosul e as possíveis tarifas de contingência.
Essas ações podem tornar seu produto mais competitivo e reduzir o risco de ser barrado por questões técnicas.
Conclusão
O bloqueio francês ao acordo UE‑Mercosul não é apenas um capricho nacionalista. Ele reflete crises estruturais na agricultura francesa, preocupações sanitárias e o medo de perder competitividade diante de normas menos rígidas no Mercosul. Para o agro brasileiro, o tratado ainda pode abrir portas, mas vem acompanhado de desafios que exigem preparo e investimento.
O que eu levo dessa história? Que o comércio internacional não é um caminho linear. Ele depende de política, de saúde animal, de questões ambientais e, claro, da capacidade dos produtores de se adaptar. Se você está no campo, vale a pena acompanhar de perto – porque, no fim das contas, o que acontece na Europa pode acabar no seu prato ou na sua conta bancária.



