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Por que a ceia de Natal é feita com perua e não com peru? Desvendando o mistério da ave natalina

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Por que a ceia de Natal é feita com perua e não com peru? Desvendando o mistério da ave natalina

Introdução: o que está por trás da “perua” na sua mesa de Natal?

Todo ano, quando o calendário chega ao fim de dezembro, a gente já começa a imaginar a mesa de Natal: luzes, panetone, família reunida e, claro, o tradicional prato de ave. Mas, se você já prestou atenção, percebe que o nome da ave que aparece nos cardápios nem sempre corresponde ao que realmente está no prato. Enquanto o cardápio fala em peru, a carne que chega ao nosso garfo costuma ser de perua. Parece confuso? Eu também achava, até descobrir que há razões econômicas, biológicas e logísticas por trás dessa escolha. Neste post, vou contar tudo o que aprendi – da criação das aves na granja até o ponto de venda – e ainda explicar como isso afeta o seu bolso e o meio ambiente.

Peru vs. Perua: entenda a diferença

Primeiro, vamos esclarecer os termos. O peru (Meleagris gallopavo) é a espécie inteira, macho ou fêmea. Quando falamos em perua, estamos nos referindo especificamente à fêmea da espécie. A confusão nasce porque, no comércio, a palavra “peru” acabou se tornando sinônimo de ave inteira, mas na prática a maioria das carnes vendidas para a ceia são de peruas.

Por que isso acontece? A resposta começa no tamanho. Em média, um macho (peru) pode chegar a pesar entre 20 e 25 kg, enquanto a fêmea (perua) costuma ficar entre 5 e 6 kg na idade ideal para o abate. Essa diferença de peso tem impactos diretos nos custos de produção e na forma como a ave é comercializada.

Como são criadas as peruas e os perus?

Segundo o pesquisador Elsio Figueiredo, da Embrapa Suínos e Aves, a criação das aves segue duas linhas distintas para evitar que o macho domine a ração. Quando perus e peruas são criados juntos, o macho, que tem um apetite maior, tende a comer quase tudo, deixando a fêmea subnutrida. Para garantir que ambas cresçam de forma saudável, as granjas separam os sexos logo após a eclosão.

  • Alimentação igual, crescimento diferente: ambos recebem a mesma ração, mas o macho converte esse alimento em mais massa corporal, ganhando até 10 kg a mais que a fêmea.
  • Tempo de abate: as peruas são abatidas por volta das 10 semanas de idade, quando atingem cerca de 5 kg – peso ideal para produzir uma carcaça de aproximadamente 4 kg, que cabe bem nas travessas de Natal.
  • Perus machos: chegam a 20 semanas e podem pesar até 25 kg. Como são muito grandes, raramente são vendidos inteiros; ao invés disso, são desmembrados em pedaços (peito, coxa, etc.) para a indústria de alimentos processados.

Essa separação não só otimiza o ganho de peso, como também facilita o manejo sanitário e reduz perdas por competição por alimento.

Por que a perua é mais barata?

Se você já fez compras para o Natal, deve ter notado que a carne de perua costuma ser mais cara que a de frango, mas ainda assim mais acessível que a carne bovina premium. O custo mais alto tem duas explicações principais:

  1. Produção de ovos e pintinhos: as peruas põem poucos ovos – cerca de 80 por vida – comparado às galinhas, que chegam a 180. Menor produção significa que a granja precisa investir mais para manter o rebanho em pé.
  2. Tempo de engorda: apesar de serem menores, as peruas precisam de 10 semanas de alimentação controlada, o que gera custos de ração, energia e mão‑de‑obra.

Esses fatores são repassados ao consumidor final, explicando por que a perua tem um preço intermediário entre frango e carne bovina.

O que acontece com o macho (peru) após o abate?

Quando o peru macho atinge o peso ideal (15‑25 kg), ele não é mais vendido inteiro. Em vez disso, a indústria o transforma em:

  • Peito de peru fatiado – muito usado em sanduíches e saladas.
  • Salsichas e embutidos – a carne magra do peru dá um toque diferente aos produtos defumados.
  • Produtos industrializados – como nuggets e tiras pré‑cozidas, que aparecem nas prateleiras de supermercados.

Essa estratégia permite que os produtores aproveitem ao máximo o ganho de peso dos machos, que são mais rentáveis quando processados em peças menores.

Impactos ambientais e de bem‑estar animal

Separar os sexos e abater as peruas mais cedo tem implicações que vão além do preço. Do ponto de vista ambiental, a criação de aves menores consome menos água e gera menos resíduos de esterco por quilograma de carne produzida. Por outro lado, a necessidade de criar perus machos maiores para a indústria de processados aumenta a demanda por ração concentrada, que muitas vezes inclui soja importada – um ponto sensível em debates sobre desmatamento.

Quanto ao bem‑estar animal, a prática de separar machos e fêmeas reduz a agressividade entre as aves e garante que as peruas recebam a quantidade de alimento necessária para crescer de forma saudável. Ainda assim, críticos apontam que o abate precoce (10 semanas) pode gerar estresse se não houver manejo adequado.

Como escolher a melhor perua para a sua ceia

Se você ainda não sabe como escolher a ave ideal, aqui vão algumas dicas práticas:

  • Verifique a procedência: prefira peruas de granjas certificadas pela Embrapa ou pelo MAPA, que seguem boas práticas de manejo.
  • Observe o aspecto da pele: deve estar lisa, sem manchas ou penas soltas.
  • Cheire a carne: um odor forte pode indicar má conservação.
  • Considere o peso: para uma família de 4‑6 pessoas, uma perua de 4‑5 kg costuma ser suficiente.

Outra opção é comprar a ave já temperada ou pronta para assar, o que economiza tempo na cozinha – mas fique atento ao teor de sódio e conservantes.

Receita clássica de perua assada – passo a passo

Para quem gosta de colocar a mão na massa, segue uma receita simples que respeita a tradição natalina:

  1. Ingredientes: 1 perua de 4,5 kg, 200 g de manteiga, 4 dentes de alho picados, 1 colher (sopa) de alecrim fresco, suco de 2 laranjas, sal e pimenta a gosto.
  2. Marinada: misture a manteiga, o alho, o alecrim, o suco de laranja, sal e pimenta. Esfregue tudo na pele da ave, inclusive sob a pele do peito.
  3. Descanso: deixe a perua na geladeira por, no mínimo, 12 horas para absorver os temperos.
  4. Assar: pré‑aqueça o forno a 180 °C. Coloque a ave em uma assadeira, cubra com papel alumínio e asse por 2 horas.
  5. Finalizar: retire o papel alumínio, aumente a temperatura para 200 °C e asse por mais 30 minutos, ou até a pele ficar dourada e crocante.
  6. Descansar antes de servir: deixe a perua repousar 15 minutos antes de fatiar, assim os sucos se redistribuem.

Sirva com arroz de passas, farofa de frutas secas e um bom vinho branco. Simples, mas delicioso!

Curiosidades que você talvez não saiba

  • O nome “peru” no Brasil vem de uma confusão histórica: os colonizadores portugueses acreditavam que a ave vinha da América do Sul, mas na verdade ela é nativa da América do Norte.
  • Em alguns países europeus, a ave natalina é chamada de “turkey” (em inglês) ou “dinde” (em francês), termos que também se referem ao macho, mas o consumo costuma ser de fêmeas.
  • O consumo per capita de perua no Brasil aumenta cerca de 15 % a cada Natal, segundo dados da Embrapa.

O futuro da produção de peruas no Brasil

Com a crescente demanda por alimentos mais sustentáveis, pesquisadores da Embrapa estão investindo em linhas genéticas que aumentam a eficiência alimentar das peruas, reduzindo o tempo de engorda e a quantidade de ração necessária. Além disso, há projetos de manejo que visam melhorar a qualidade dos ovos, aumentando a taxa de postura para cerca de 120 ovos por fêmea, o que poderia baixar o preço final para o consumidor.

Se essas inovações forem bem‑sucedidas, podemos esperar peruas mais enxutas, menos impacto ambiental e, quem sabe, um Natal ainda mais saboroso sem pesar tanto no bolso.

Conclusão: a perua é a estrela da sua ceia

Resumindo, a razão pela qual a ceia de Natal costuma ser feita com perua e não com peru tem tudo a ver com economia de produção, manejo adequado e tradição gastronômica. A fêmea oferece o tamanho ideal para uma mesa familiar, tem um ciclo de vida que se encaixa bem nos cronogramas de produção e, apesar de ser mais cara que o frango, ainda representa uma opção equilibrada entre sabor e custo.

Da próxima vez que alguém falar em “peru de Natal”, você já pode corrigir com confiança: “Na verdade, é perua!” E, se quiser, pode até contar a história da separação dos sexos, da diferença de peso e das curiosidades que tornam essa ave tão especial. Boa ceia e feliz Natal!