Quando chega a época de montar a mesa de Natal, a primeira coisa que vem à cabeça de muita gente é o clássico peru assado. Mas, se você prestar atenção ao rótulo ou ao cardápio da sua padaria, vai perceber que o que realmente chega à sua casa costuma ser a perua, a fêmea da espécie. Por quê? A resposta envolve biologia, economia e até um pouco de psicologia do produtor.
Um pouquinho de história: o peru na tradição natalina
O peru (ou Turkey, em inglês) não é nativo do Brasil. Ele foi trazido pelos colonizadores europeus no século XVI e, desde então, acabou se firmando como prato de festas, principalmente nas celebrações de fim de ano. Nos EUA, o peru já era sinônimo de Ação de Graças; aqui, ele encontrou seu lugar ao lado do bacalhau, do chester e da carne de porco.
Mas, ao contrário do que o nome sugere, quem costuma aparecer na nossa ceia não é o macho da espécie, mas sim a fêmea, popularmente chamada de perua. Essa diferença tem tudo a ver com o ciclo de produção e com o que é mais rentável para o criador.
Biologia da ave: machos x fêmeas
- Crescimento: o macho (peru) pode ganhar até 10 kg a mais que a fêmea, mesmo consumindo a mesma quantidade de ração. Isso acontece porque, ao chegar ao tamanho adulto, o macho tende a dominar a comida, deixando a fêmea em desvantagem.
- Tempo de abate: as peruas são abatidas por volta das 10 semanas de vida, quando pesam cerca de 5 kg e rendem uma carcaça de 4 kg – o tamanho ideal para uma mesa de Natal. Os machos, por outro lado, só são abatidos depois de 20 semanas, chegando a 25 kg. Essa carne maior é mais utilizada em produtos processados, como peito fatiado, salsichas e embutidos defumados.
- Reprodução: a perua coloca poucos ovos – cerca de 80 por ciclo – enquanto uma galinha comum chega a 180. Isso eleva o custo dos pintos e dos ovos de peru, que são ingredientes mais caros na cadeia produtiva.
Por que a perua é mais vantajosa para o produtor?
O pesquisador Elsio Figueiredo, da Embrapa Suínos e Aves, explica que separar machos e fêmeas já na criação evita que o macho monopolize a ração. Quando os dois são criados juntos, o macho, por ser maior, acaba comendo quase tudo, e a perua pode ficar subnutrida, atrasando seu crescimento.
Além disso, a perua tem um ciclo de produção mais curto. Abater a ave aos 10 semanas permite ao criador girar o lote rapidamente, atendendo à alta demanda de Natal sem precisar manter animais por longos períodos. Isso reduz custos de alimentação, manejo e espaço.
Já o macho, por precisar de mais tempo para atingir seu peso ideal, acaba sendo mais caro para criar. Como a maioria dos consumidores prefere a carne inteira e não os cortes processados, o mercado acaba favorecendo a perua, que oferece o tamanho certo para a mesa familiar.
Impactos no preço da ave de Natal
Esses fatores se refletem diretamente no preço que pagamos na feira ou no supermercado. A carne de perua costuma ser mais cara que a de frango, mas ainda assim é mais acessível que a carne de boi ou de cordeiro. O custo mais elevado se deve, em parte, ao preço dos pintos e dos ovos, que são menos abundantes.
Além disso, como o macho raramente é vendido inteiro, ele acaba sendo direcionado para o segmento de produtos industrializados. Isso cria uma divisão de mercado: a perua para a ceia tradicional e o macho para a indústria de alimentos processados.
O que isso significa para o seu Natal?
Entender essa dinâmica pode mudar a forma como você planeja a sua ceia:
- Planeje o tamanho da ave: se a sua família costuma consumir menos de 4 kg de carne, a perua já chega suficiente. Caso tenha um grupo maior, talvez valha a pena comprar dois perus menores ou complementar com peito de peru industrializado.
- Explore cortes: a carne de peru macho, quando vendida em pedaços, pode ser usada em receitas diferentes – sanduíches, saladas e pratos de massa. Aproveitar esses cortes pode ser uma forma econômica de variar o cardápio.
- Considere a procedência: procure produtores que adotem boas práticas de bem‑estar animal. Separar machos e fêmeas já é um indicativo de manejo responsável, reduzindo estresse e melhorando a qualidade da carne.
Curiosidades que você talvez não saiba
• Perua vs. peru na cultura popular: no Brasil, o termo “peru” acabou se tornando genérico, mas nos EUA e em outros países de língua inglesa, a distinção entre “turkey” (machos e fêmeas) e “hen” (fêmea) ainda é usada em algumas regiões.
• Peru na decoração: além de ser o prato principal, a ave costuma aparecer em enfeites natalinos, como miniaturas de porcelana. Curiosamente, a maioria desses enfeites representa a fêmea, mesmo que o rótulo diga apenas “peru”.
• Impacto ambiental: criar peruas por um ciclo mais curto gera menos emissão de gases de efeito estufa comparado ao manejo de machos que ficam por mais tempo. Para quem se preocupa com a pegada ecológica, escolher a perua pode ser uma escolha mais sustentável.
O futuro da produção de perus no Brasil
Com o aumento da demanda por proteínas de origem animal, a indústria avícola está sempre em busca de otimizações. Algumas tendências que podem mudar a forma como vemos a ceia de Natal:
- Genética aprimorada: pesquisadores estão desenvolvendo linhagens que crescem mais rápido sem sacrificar a qualidade da carne, o que pode reduzir ainda mais o tempo de abate.
- Alimentação mais eficiente: o uso de subprodutos agrícolas como ração pode baixar custos e tornar a produção mais sustentável.
- Mercado de carne orgânica: consumidores cada vez mais exigentes podem impulsionar a criação de peruas em sistemas de produção orgânica, com menor uso de antibióticos e mais bem‑estar animal.
Essas inovações podem trazer peruas mais baratas, mas também mais saudáveis, e quem sabe, no futuro, veremos mais machos sendo vendidos inteiros, caso a tecnologia permita reduzir o tempo de crescimento.
Conclusão
Então, da próxima vez que você abrir a embalagem de “peru de Natal”, lembre‑se de que, na maioria das vezes, está levando para casa uma perua. Essa escolha não é aleatória; ela resulta de uma combinação de fatores biológicos (crescimento e reprodução), econômicos (custo de produção) e até ambientais (tempo de criação). Conhecer esses detalhes ajuda a valorizar o alimento que chega à sua mesa e a fazer escolhas mais conscientes.
E você, já sabia que a ave da sua ceia era, na verdade, uma perua? Compartilhe essa curiosidade com a família – quem sabe não rende uma boa conversa ao redor da mesa?



