Se você ainda tem dinheiro guardado na poupança, provavelmente sentiu o peso dos últimos meses. Em janeiro, o Banco Central divulgou que as retiradas ultrapassaram os depósitos em R$ 23,5 bilhões. O número pode parecer só mais um dado macro, mas, na prática, ele reflete escolhas que todos nós fazemos quando o dinheiro começa a apertar.
O que os números realmente dizem?
Em janeiro, os depósitos na poupança somaram R$ 331,23 bi, enquanto as retiradas totalizaram R$ 354,74 bi. Isso fez o saldo total da caderneta cair de R$ 1,02 trilhão (em dezembro) para R$ 1 trilhão no fim do mês. Não é só um número de um trilhão a menos; é a soma de milhares de famílias que decidiram usar o que tinham guardado para pagar contas, impostos e até aquela viagem de férias que já estava na lista.
Por que janeiro sempre tem esse pico de saques?
Não é coincidência. O início do ano traz uma série de despesas que costumam pesar no orçamento familiar:
- Matricula e material escolar – a volta às aulas costuma chegar logo depois das festas.
- IPVA e IPTU – impostos que vencem nos primeiros meses e que muitas vezes pegam a gente de surpresa.
- Parcelamento de compras de Natal – o cartão de crédito ainda está carregado de faturas.
- Planejamento de férias – passagens, hospedagem e alimentação já entram no planejamento.
Quando esses custos se acumulam, a poupança, que tem rendimento baixo, vira a primeira fonte de recursos disponíveis.
Juros altos e a baixa atratividade da poupança
Um dos grandes motivos para a saída de recursos é a própria rentabilidade da poupança. Desde que a taxa Selic ultrapassou 8,5 % ao ano, o rendimento da caderneta ficou limitado a 0,5 % ao mês + a variação da Taxa Referencial (TR). Hoje, com a Selic em torno de 15 % ao ano, a poupança rende bem menos que a maioria dos investimentos de renda fixa.
Compare:
- Títulos públicos (Tesouro Direto) – retornam próximo à Selic, ou seja, acima de 12 % ao ano.
- CDI – taxa de referência para a maioria dos fundos e CDBs, que acompanha a Selic.
- Fundos de renda fixa e debêntures – oferecem prêmios de risco ainda maiores.
Sem contar a recuperação da bolsa de valores em 2025, que registrou alta de 34 % – o melhor desempenho anual desde 2016. Mesmo quem tem perfil mais conservador tem observado que deixar o dinheiro parado na poupança pode estar custando juros que poderiam ser ganhos em outras aplicações.
Endividamento das famílias e inadimplência recorde
O Banco Central também apontou que a inadimplência bancária fechou o último ano em nível recorde, e o endividamento das famílias continua elevado. Quando as dívidas aumentam, a tendência é buscar recursos de emergência, e a poupança costuma ser a caixa de reserva mais fácil de acessar.
Mas essa solução temporária pode criar um círculo vicioso: ao retirar dinheiro da poupança, você perde o pequeno rendimento que ainda existia, reduzindo ainda mais o patrimônio de longo prazo. Quando a situação melhora, o caminho de volta pode ser mais longo.
O que fazer para proteger seu dinheiro?
Não estou aqui para dizer que a poupança está totalmente obsoleta – ainda faz sentido ter uma reserva de emergência fácil de resgatar. O que vale é repensar a estratégia:
- Monte um fundo de emergência diversificado: mantenha até seis meses de despesas em um investimento de alta liquidez, como um CDB com liquidez diária ou um fundo DI.
- Avalie a rentabilidade: compare o rendimento da poupança com o CDI ou Tesouro Selic. Se a diferença for significativa, migre parte do saldo.
- Planeje os gastos anuais: faça um orçamento para despesas fixas de início de ano (IPVA, IPTU, material escolar). Separe o dinheiro com antecedência em contas separadas ou aplicações de curto prazo.
- Educação financeira: entender como os juros compostos funcionam pode mudar a forma como você vê a poupança versus outros investimentos.
Essas práticas ajudam a reduzir a necessidade de “sacar de surpresa” e mantêm o seu patrimônio rendendo mais ao longo do tempo.
Olhar para o futuro
Com a Selic em patamares que não se via há duas décadas, a diferença entre a poupança e outras modalidades de investimento vai se ampliar ainda mais. Se a tendência de juros altos continuar, a poupança pode se tornar ainda menos competitiva.
Por outro lado, a volatilidade dos mercados de renda variável também traz riscos. O ideal é encontrar um equilíbrio: uma parte do dinheiro em investimentos seguros e líquidos, outra em opções que aproveitem a alta da taxa Selic e,, para quem tem perfil mais arrojado, uma fatia em ações ou fundos multimercado.
Em resumo, os R$ 23,5 bi de saques em janeiro são um sintoma de um cenário econômico que exige mais planejamento e escolhas mais inteligentes. Não é hora de entrar em pânico, mas sim de reavaliar onde seu dinheiro está guardado e como ele pode trabalhar melhor para você.



