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Por que a assinatura do acordo Mercosul‑UE foi adiada? Entenda os bastidores e o que isso significa para o Brasil

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Por que a assinatura do acordo Mercosul‑UE foi adiada? Entenda os bastidores e o que isso significa para o Brasil

Quando eu li que a assinatura do acordo de livre‑comércio entre o Mercosul e a União Europeia foi adiada, confesso que senti um misto de alívio e frustração. Alívio, porque o Brasil tem tempo para ajustar alguns detalhes que ainda geram preocupação na Europa; frustração, porque a expectativa de fechar a maior zona de livre‑comércio do planeta há quase 25 anos foi empurrada para janeiro.

Um acordo que já leva quase um quarto de século para se concretizar

Para quem não acompanha de perto, vale lembrar que as negociações começaram em 1999. Desde então, o tratado passou por várias fases: acordos políticos, rodadas de negociação setoriais e, nos últimos anos, um impulso decisivo quando a Comissão Europeia anunciou que iria assinar o pacto em 20 de novembro. Mas, como a história nos mostrou, o comércio internacional raramente segue um roteiro linear.

Quem puxou o freio?

A decisão de adiar veio depois de um alinhamento inesperado entre Itália e França. Ambos os países têm um setor agrícola muito sensível a concorrência externa e, segundo o presidente francês Emmanuel Macron, não apoiarão o tratado sem “novas salvaguardas” para os agricultores. A Itália, liderada por Giorgia Meloni, também sinalizou que só assinará se houver respostas concretas às demandas dos seus produtores.

Em palavras da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen: “Entramos em contato com nossos parceiros do Mercosul e concordamos em adiar ligeiramente a assinatura”. O plano agora é concluir tudo em janeiro, com a cerimônia prevista para acontecer no Paraguai.

Por que a agricultura está no centro da polêmica?

É fácil entender a preocupação dos europeus quando se pensa nos números. O Mercosul – formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – produz carne, soja, milho e outros commodities a custos menores que os da UE. Para os agricultores franceses e italianos, isso pode significar perda de mercado, queda de preços e, em alguns casos, a necessidade de mudar práticas de produção.

Mas o acordo não trata só de alimentos. Ele inclui:

  • Tarifas reduzidas ou eliminadas para produtos industriais e de serviços.
  • Regras de investimento que facilitam a entrada de empresas europeias em setores como energia renovável e tecnologia.
  • Proteção da propriedade intelectual, importante para indústrias farmacêuticas e de software.
  • Cooperação em áreas estratégicas como mineração e acesso a minerais críticos.

Esses pontos explicam por que países como Alemanha e Espanha defendem o acordo: eles enxergam oportunidades de diversificar mercados, reduzir a dependência dos EUA e da China, e ganhar influência nas cadeias globais de suprimentos.

O que isso muda para o Brasil?

Do ponto de vista brasileiro, o acordo tem duas faces:

  1. Oportunidades de exportação: acesso direto a um mercado de mais de 450 milhões de consumidores, com tarifas menores em setores como automóveis, máquinas e até serviços de TI.
  2. Desafios internos: pressão para melhorar padrões ambientais e de direitos trabalhistas, que são cada vez mais exigidos pelos compradores europeus.

O presidente Luiz Inácio Lula demonstrou otimismo ao dizer que, com um pouco de paciência, a Itália deve “estar junto com o acordo”. Essa confiança reflete a estratégia do governo de usar a diplomacia para equilibrar os interesses dos agricultores europeus com os dos nossos produtores.

Como o processo de aprovação funciona na UE?

Depois da assinatura formal, o tratado precisa ser ratificado pelo Conselho Europeu. Diferente do Parlamento, que aprova por maioria simples, o Conselho exige uma maioria qualificada: pelo menos 15 dos 27 países membros, representando 65 % da população da UE. Isso significa que, mesmo que a maioria dos países esteja a favor, um bloqueio de alguns membros – como França e Itália – pode impedir a ratificação.

Essa exigência cria um ponto de vulnerabilidade política: o acordo pode ser “parado” a qualquer momento se um país mudar de posição ou se houver pressão interna de grupos de interesse, como os agricultores.

O que podemos esperar para 2024?

Com a assinatura prevista para janeiro, os próximos meses serão críticos. Algumas possibilidades:

  • Negociações de salvaguardas: a UE pode propor mecanismos de ajuste tarifário ou quotas temporárias para proteger setores agrícolas vulneráveis.
  • Pressão da sociedade civil: ONGs ambientais e de direitos humanos podem exigir cláusulas mais rígidas sobre desmatamento e trabalho infantil.
  • Reação dos mercados: investidores já estão de olho nas ações de empresas exportadoras brasileiras; um acordo avançado pode impulsionar o preço das commodities.

Para nós, consumidores, o impacto pode ser sentido na prateleira: produtos europeus mais baratos e, possivelmente, maior variedade de alimentos importados. Para os produtores, a concorrência será maior, mas também haverá a chance de entrar em novos nichos, como produtos orgânicos ou de alto valor agregado.

Um olhar pessoal

Eu costumo acompanhar essas negociações porque, como pequeno empreendedor que compra insumos importados, sinto na pele as mudanças de tarifa. Quando há incerteza, os fornecedores ficam cautelosos, os preços sobem e a cadeia de produção sente o efeito. Por isso, vejo o adiamento não como um retrocesso, mas como um tempo extra para que todas as partes – agricultores, industriais, governos – alinhem expectativas.

Se a UE realmente conseguir equilibrar os interesses dos seus agricultores com os benefícios que o Mercosul oferece, podemos estar à beira de um novo ciclo de crescimento econômico que beneficie tanto o Brasil quanto a Europa.

Conclusão

O adiamento da assinatura do acordo Mercosul‑UE não é apenas um detalhe burocrático; é o reflexo de tensões históricas, interesses setoriais e estratégias geopolíticas. Para o Brasil, o caminho ainda tem obstáculos, mas também abre portas para diversificar mercados e melhorar padrões de produção.

Fique de olho nas próximas notícias: a cada passo, aprendemos mais sobre como a política comercial molda a nossa vida cotidiana, dos preços na feira até as oportunidades de emprego em setores inovadores.