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Por que a assinatura do acordo Mercosul‑UE foi adiada? Entenda os bastidores e o que isso significa para o Brasil

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Por que a assinatura do acordo Mercosul‑UE foi adiada? Entenda os bastidores e o que isso significa para o Brasil

A negociação entre Mercosul e União Europeia tem sido um dos capítulos mais longos da história do comércio internacional. Depois de quase 25 anos de conversas, parecia que o grande momento – a assinatura do acordo que criaria a maior zona de livre comércio do planeta – estava a poucos dias de acontecer. Mas, de repente, a assinatura foi adiada para janeiro. O que aconteceu? Quem está puxando as cordas e, sobretudo, como isso afeta a gente, que vive no Brasil?

## O que era o acordo e por que ele era tão esperado?

O tratado Mercosul‑UE cobre muito mais do que soja, carne e café. Ele inclui:

– **Produtos agrícolas** (soja, carne bovina, laticínios, vinho, queijos);
– **Indústria** (automóveis, máquinas, produtos químicos);
– **Serviços** (finanças, tecnologia, turismo);
– **Investimentos** (proteção jurídica para empresas que investem em ambos os blocos);
– **Propriedade intelectual** (direitos autorais, patentes);
– **Regras de origem** e **normas ambientais**.

Para o Brasil, o acordo prometia abrir portas para exportar mais produtos a preços competitivos, reduzir tarifas e atrair investimentos europeus em setores como energia limpa e tecnologia. Para a UE, a ideia era garantir acesso a matérias‑primas e diversificar mercados, reduzindo a dependência da China e dos EUA.

## O que mudou na última hora?

Na manhã do sábado, 20 de novembro, a Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, já havia anunciado que iria assinar o tratado no Paraguai, no dia 12 de dezembro. De repente, a presidente da Comissão entrou em contato com os parceiros do Mercosul e pediu um pequeno adiamento. A justificativa oficial foi “necessidade de alinhar algumas salvaguardas para o setor agrícola europeu”.

Mas a história tem camadas. Dois países – França e Itália – foram os principais responsáveis por puxar o freio:

– **França**, com Emmanuel Macron na cabeça, tem um dos maiores setores agrícolas da UE. Os agricultores franceses temem que produtos sul‑americanos, produzidos com custos menores e normas ambientais diferentes, inundem o mercado europeu, derrubando preços.
– **Itália**, liderada por Giorgia Meloni, também tem um lobby agrícola forte, principalmente no sul do país. Meloni afirmou que a Itália só apoiaria o acordo se fossem atendidas as preocupações dos agricultores italianos.

Essas duas nações se juntaram e, como a UE precisa de maioria qualificada (pelo menos 15 dos 27 países representando 65% da população) para ratificar o tratado, o bloqueio francês‑italiano acabou atrasando tudo.

## Por que a França está tão firme?

A resistência francesa não é só questão de preço. Ela envolve também:

– **Proteção ambiental**: a UE tem regras rígidas sobre desmatamento e uso de agrotóxicos. Muitos produtos do Mercosul ainda não cumprem esses padrões.
– **Subsídios agrícolas**: a Política Agrícola Comum (PAC) garante apoio financeiro aos agricultores europeus. Uma concorrência mais barata pode colocar em risco esses subsídios.
– **Pressão política interna**: Macron tem que responder aos sindicatos agrícolas que organizam protestos massivos em Paris e outras cidades.

Em entrevistas, Macron deixou claro que não vai assinar nada que “não feche as contas” para os agricultores. Ele até chegou a dizer que vai se opor a qualquer tentativa de forçar o acordo.

## E a Itália? Qual a postura de Meloni?

Meloni adotou uma estratégia mais flexível: ela não rejeita o acordo, mas coloca condicionantes. Em conversa telefônica com o presidente Lula, a primeira‑ministra italiana garantiu que, se a Comissão Europeia oferecer respostas claras às demandas dos agricultores, a Itália assinará.

Essa postura tem um lado pragmático. A Itália tem um grande déficit comercial com o Mercosul e vê no acordo uma oportunidade de melhorar a balança. Mas, ao mesmo tempo, precisa manter a base política que a sustenta, que inclui setores rurais conservadores.

## Quem está a favor?

Nem todos os países da UE estão contra. Alemanha, Espanha e os países nórdicos defendem o tratado como forma de:

– Compensar as tarifas impostas pelos EUA a produtos europeus;
– Reduzir a dependência de cadeias de suprimento chinesas, especialmente em minerais críticos;
– Fortalecer a credibilidade da UE na arena comercial global.

Friedrich Merz, chanceler alemão, e Pedro Sánchez, primeiro‑ministro espanhol, argumentam que a UE precisa agir agora para não perder relevância nas negociações internacionais.

## O que isso significa para o Brasil?

Para quem acompanha a política econômica do país, o adiamento gera ansiedade, mas também traz algumas lições:

1. **A importância da diplomacia multilateral** – O Brasil ainda depende de aliados europeus para avançar. Manter um diálogo próximo com França e Itália pode ser crucial.
2. **A necessidade de ajustes nos padrões** – Se a UE vai exigir normas ambientais mais rígidas, o agronegócio brasileiro precisa se preparar. Investir em tecnologia de baixo carbono e rastreabilidade pode transformar um obstáculo em vantagem competitiva.
3. **O risco de volatilidade nos mercados** – Enquanto o acordo não for ratificado, exportadores podem enfrentar incertezas de preço e demanda. Planejar estratégias de diversificação de mercados (Ásia, América do Norte) continua essencial.
4. **O papel da política interna** – O presidente Lula mostrou disposição em dialogar com a Itália, mas também precisa equilibrar pressões internas de produtores que temem que o acordo beneficie apenas grandes exportadores.

## Olhando para o futuro: o que esperar em janeiro?

Se tudo correr como a Comissão Europeia indica, a assinatura acontecerá em janeiro, provavelmente em um evento simbólico na Europa ou na América do Sul. Mas alguns cenários são possíveis:

– **Acordo com salvaguardas reforçadas** – A UE pode inserir cláusulas que exigem auditorias ambientais ou limites de importação para certos produtos agrícolas.
– **Retorno de negociações bilaterais** – Caso o bloco europeu não encontre consenso, pode abrir negociações individuais com países do Mercosul, como Brasil ou Argentina.
– **Pressão pública** – Protestos agrícolas na França e na Itália podem intensificar, forçando os governos a renegociar aspectos do tratado.

Para nós, brasileiros, a mensagem principal é: continue acompanhando, mas não deixe de investir em qualidade e sustentabilidade. O mundo está mudando, e quem se adapta às novas regras sai na frente.

## Conclusão

O adiamento da assinatura do acordo Mercosul‑UE não é apenas um detalhe burocrático. Ele revela como interesses agrícolas, ambientais e políticos se cruzam em negociações globais. Enquanto a França protege seus agricultores e a Itália busca equilibrar pressão interna, países como Alemanha e Espanha enxergam oportunidades estratégicas.

Para o Brasil, a lição é clara: o futuro do comércio internacional depende de capacidade de diálogo, adaptação a padrões mais exigentes e, sobretudo, de manter a paciência. Se a assinatura acontecer em janeiro, ainda teremos tempo de observar como as salvaguardas serão definidas e quais impactos reais chegarão às mesas dos produtores brasileiros.

Fique de olho nas próximas notícias, porque o desenrolar desse acordo pode mudar a forma como nossos produtos chegam às mesas da Europa – e isso, sem dúvida, afeta o nosso dia a dia.

*Este post foi escrito de forma descontraída, mas com base em informações reais. Se você tem dúvidas ou quer saber como preparar seu negócio para possíveis mudanças, deixe um comentário ou entre em contato!*