Quando eu vi a notícia de que 25 municípios brasileiros respondem por 34,2% do PIB nacional, confesso que fiquei intrigado. Parece muita coisa para tão poucos lugares, né? Mas, se a gente parar um pouco e analisar o que está por trás desses números, dá para entender melhor como a economia do Brasil está organizada e, principalmente, como isso afeta a vida de quem mora fora das grandes metrópoles.
O panorama geral: concentração de riqueza
Segundo o levantamento do IBGE de 2022‑2023, esses 25 municípios – a maioria capitais – geraram mais de um terço da riqueza produzida no país em 2023. Em termos práticos, isso significa que a maior parte do dinheiro que circula na economia nacional nasce em poucos pontos, enquanto a maioria dos municípios – mais de 5 mil – contribui com uma fatia bem menor.
Essa concentração não é novidade. Desde que o IBGE começou a publicar o PIB dos Municípios em 2002, as capitais sempre apareceram no topo da lista. Em 2002, elas representavam 36,1% do PIB nacional; antes da pandemia, em 2019, esse número já havia caído para 31,4%, indicando uma leve desconcentração. A pandemia, porém, acelerou o processo inverso, reduzindo a participação das capitais para 27,5% em 2022. Em 2023 houve uma leve recuperação, subindo para 28,3%, mas ainda longe dos patamares pré‑Covid.
Quem são as cidades que mais pesam?
- São Paulo (SP) – 9,7% do PIB nacional
- Rio de Janeiro (RJ) – 3,8%
- Brasília (DF) – 3,3%
Essas três sozinhas somam quase 17% de toda a produção econômica do Brasil. Além delas, outras oito capitais estão entre os 25 maiores, reforçando a dominância do Sudeste: nove municípios paulistas, quatro fluminenses e um mineiro.
PIB per capita: o outro lado da moeda
O PIB total mostra onde a economia é maior, mas o PIB per capita revela onde a riqueza por habitante é mais alta. Em 2023, a média nacional foi de R$ 53.886,67, mas há municípios que superam esse valor em dezenas de vezes.
O maior PIB per capita do país foi registrado em Saquarema (RJ), com R$ 722.441,52 por habitante – mais de 13 vezes a média nacional. Essa disparidade acontece porque cidades como Saquarema, Paulínia (SP) ou Louveira (SP) concentram atividades de alto valor agregado, como refino de petróleo, mineração ou indústria de transformação, mas têm populações relativamente pequenas.
Por que a indústria perde espaço e os serviços ganham?
Entre 2022 e 2023, o setor de Serviços aumentou sua participação no Valor Adicionado Bruto (VAB) de 67% para 67,8%. Dentro desse bloco, destacam‑se finanças, seguros, administração pública, educação e saúde. Por outro lado, a Indústria viu sua fatia cair de 26,3% para 25,4%, principalmente por causa da queda nos preços de produtos extrativos.
Essa mudança reflete duas tendências importantes:
- O Brasil ainda depende fortemente de serviços, que são menos intensivos em capital e mais sensíveis à demanda interna.
- A indústria, embora ainda essencial, enfrenta desafios como alta carga tributária, custos logísticos e concorrência internacional.
O que isso significa para quem não mora nas capitais?
Se você vive em um município do interior ou em uma região menos desenvolvida, esses números podem parecer distantes, mas têm impactos reais no seu dia a dia:
- Investimento público: áreas com menor participação no PIB costumam receber menos recursos federais e estaduais, o que se traduz em menos investimentos em saúde, educação e infraestrutura.
- Oportunidades de emprego: a concentração de indústrias e serviços de alto valor nas capitais gera migrações internas, deixando cidades menores com menos vagas qualificadas.
- Desigualdade de renda: mesmo que o PIB per capita de um município seja alto, isso não garante que todos os moradores sejam ricos. A distribuição de renda pode ser muito desigual.
Como podemos lidar com essa concentração?
Não existe solução mágica, mas algumas estratégias podem ajudar a equilibrar o cenário:
- Descentralização de investimentos: incentivar a instalação de polos industriais e tecnológicos em cidades do interior, com incentivos fiscais e apoio à infraestrutura.
- Fortalecimento da educação: melhorar a qualidade do ensino nas regiões menos desenvolvidas para criar mão‑de‑obra qualificada e atrair empresas.
- Políticas de apoio ao agronegócio e à agroindústria: o Norte, Nordeste e Centro‑Oeste têm grande potencial produtivo que pode ser melhor explorado.
- Inovação e economia digital: o trabalho remoto e as startups podem reduzir a necessidade de estar fisicamente em uma capital para gerar valor econômico.
Um olhar para o futuro
Se a tendência de concentração continuar, o Brasil pode enfrentar desafios ainda maiores em termos de coesão social e desenvolvimento sustentável. Por outro lado, se políticas públicas e iniciativas privadas conseguirem distribuir melhor a riqueza, poderemos ver um país mais equilibrado, onde oportunidades não estejam restritas a São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília.
Para mim, a lição principal dessa notícia é que os números do PIB são mais do que simples estatísticas – eles contam a história de como o nosso país está estruturado e apontam caminhos que podemos escolher para melhorar a vida de todos. Vale a pena ficar de olho nesses indicadores e, quem sabe, participar de debates e projetos que busquem reduzir as disparidades regionais.
E você, já percebeu como a concentração econômica afeta sua cidade? Compartilhe sua experiência nos comentários – a conversa é a primeira etapa para mudar a realidade.



