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PDVSA sob pressão: o que a ofensiva dos EUA significa para o futuro do petróleo venezuelano

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PDVSA sob pressão: o que a ofensiva dos EUA significa para o futuro do petróleo venezuelano

Nos últimos dias, a conversa nos corredores de Wall Street tem girado em torno de um nome que, até então, estava meio que esquecido nos noticiários: a PDVSA, estatal de petróleo da Venezuela. A razão? As declarações do ex‑presidente dos EUA, Donald Trump, de que os Estados Unidos pretendem “assumir” o setor petrolífero venezuelano depois da operação que tirou Nicolás Maduro do poder. A ideia parece saída de um filme de ação, mas tem consequências reais para quem acompanha o mercado de energia, investidores e até para a gente, que paga o preço da gasolina nas bombas.



Por que a PDVSA ainda importa?

A Venezuela detém cerca de 17% das reservas comprovadas de petróleo do planeta – mais de 300 bilhões de barris. Mesmo com a produção atual em torno de 1 milhão de barris por dia, muito abaixo do potencial histórico, a simples existência dessas reservas faz da PDVSA um jogador estratégico. Ela responde por cerca de 90% das receitas de exportação do país, o que significa que, enquanto a empresa estiver viva, a Venezuela tem um trunfo nas negociações internacionais.



O que mudou com a intervenção americana?

Quando Trump anunciou a intenção de “consertar” a indústria petrolífera venezuelana, o mercado reagiu imediatamente. As ações da Chevron subiram 5,1% na segunda‑feira, mas caíram mais de 4% na terça‑feira, quando ficou claro que qualquer mudança levaria tempo. O que aconteceu? A expectativa de investimentos bilionários de empresas americanas fez o mercado subir, mas a realidade de que a infraestrutura está em ruínas, que sanções ainda pesam e que a segurança jurídica é incerta trouxe cautela.

  • Investimento imediato? Não há garantias de que as companhias americanas vão colocar dinheiro na Venezuela sem acordos claros.
  • Sanções? As restrições impostas desde 2017 ainda limitam o acesso a tecnologia e financiamento.
  • Infraestrutura? O porto de La Guaira foi gravemente danificado, e muitas refinarias operam abaixo da capacidade.



Desafios estruturais da PDVSA

Mesmo antes da ofensiva de Trump, a PDVSA já enfrentava um declínio acelerado. Durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, a empresa sofreu:

  • Interferência política constante, que transformou decisões técnicas em escolhas ideológicas.
  • Corrupção generalizada, com desvios de recursos que deveriam ser reinvestidos.
  • Fuga de talentos – engenheiros, geólogos e gestores experientes deixaram o país.
  • Sanções econômicas que bloquearam linhas de crédito e a compra de equipamentos modernos.

O resultado? Uma queda de mais de 70% na produção desde o final dos anos 1990. Ainda assim, a PDVSA conseguiu estabilizar a produção em torno de 1 milhão de barris por dia, graças a licenças especiais concedidas a empresas como a Chevron.

Qual é o modelo provável para o futuro?

Especialistas como Rafael Chaves, ex‑diretor da Petrobras, acreditam que a PDVSA não será extinta, mas terá que mudar seu modelo de atuação. Em vez de operar como um monopólio estatal isolado, a empresa poderia abrir parcerias com companhias internacionais. Isso traria:

  • Injeção de capital e tecnologia de ponta.
  • Maior transparência e governança, reduzindo riscos de corrupção.
  • Possibilidade de acesso a mercados antes bloqueados por sanções.

Para os EUA, a proposta não é de estatização, mas de “administração” temporária, permitindo que empresas privadas – como ExxonMobil, Chevron e outras – operem em blocos de produção ou em joint ventures. O objetivo seria recuperar a infraestrutura e, quem sabe, gerar lucro tanto para a Venezuela quanto para investidores estrangeiros.

Impacto nos preços do petróleo

Apesar do burburinho, a maioria dos analistas concorda que o efeito imediato nos preços globais será limitado. A produção venezuelana ainda está muito aquém do seu potencial e, para mudar isso, seria necessário um esforço de investimento que levaria anos, senão décadas. Além disso, o mercado já está acostumado a uma oferta abundante e a uma demanda que deve desacelerar a partir de 2026.

O professor Helder Queiroz, da UFRJ, ressalta que “não há possibilidade de aumento rápido. Um retorno ao patamar de 3 milhões de barris por dia não ocorreria em menos de cinco anos”. Ainda assim, um eventual aumento da produção venezuelana poderia pressionar a Petrobras a acelerar seus próprios projetos, tornando o cenário interessante para quem acompanha a energia no Brasil.

Geopolítica: EUA, China e Rússia

Não dá para separar a questão do petróleo da disputa geopolítica. Hoje, a China compra cerca de 430 mil barris por dia da Venezuela e tem cerca de US$ 12 bilhões em empréstimos garantidos por petróleo. Washington, ao tentar reduzir a influência de Pequim e Moscou na região, pode estar usando o petróleo como moeda de troca.

Se os EUA conseguirem criar um “novo arranjo de regras” que inclua empresas americanas, isso pode diminuir a dependência venezuelana da China. Mas, como aponta Welber Barral, ainda não há uma estratégia clara dos EUA para o que vem depois da remoção de Maduro. O foco parece ser mais simbólico – mostrar força – do que um plano detalhado de reconstrução.

O que isso significa para nós?

Para o cidadão brasileiro, a notícia pode parecer distante, mas tem reflexos no preço da gasolina, no custo da energia e até nas oportunidades de investimento. Se a Venezuela voltar a produzir mais, o mercado global ficará mais competitivo, o que pode pressionar a Petrobras a melhorar sua eficiência. Por outro lado, um aumento da presença americana na região pode trazer mais volatilidade política, afetando acordos comerciais e fluxos de capital.

Em resumo, a PDVSA está em um ponto de inflexão. A ofensiva dos EUA trouxe esperança de investimento, mas também expôs a fragilidade estrutural da empresa. O futuro dependerá de como a Venezuela, as empresas internacionais e os próprios EUA negociam esse novo cenário. Enquanto isso, nós continuamos de olho nas bombas de combustível, nos relatórios de produção e nas manchetes internacionais – porque, no fim das contas, energia é o que move o mundo.