Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez declarações que deixaram todo mundo de cabelo em pé: ele pretende “assumir” o setor petrolífero da Venezuela. A ideia de que o país sul‑americano, que tem cerca de 17% das reservas provadas de petróleo do planeta, possa ficar nas mãos de empresas americanas gerou muita conversa nos corredores de Wall Street, nas reuniões de investidores e, claro, nas casas de quem acompanha o mercado de energia.
Mas o que isso significa na prática para a PDVSA, a estatal venezuelana, e para nós, que dependemos do preço do barril? Vou tentar destrinchar os principais pontos, trazendo um pouco de história, explicando os desafios atuais e apontando possíveis caminhos futuros.
Um panorama rápido da PDVSA
- Reservas gigantescas: mais de 300 bilhões de barris provados, o que coloca a Venezuela entre os maiores detentores de petróleo do mundo.
- Produção em declínio: de cerca de 3,5 milhões de barris por dia nos anos 2000, a produção caiu para pouco mais de 1 milhão de barris/dia.
- Dependência da economia: cerca de 90% das receitas de exportação vêm do petróleo.
Esses números já dão uma ideia da importância estratégica da PDVSA. Contudo, ao longo das duas últimas décadas, a empresa sofreu com má gestão, corrupção, sanções internacionais e fuga de profissionais qualificados.
O que o Trump realmente quer?
Em coletiva de imprensa, Trump afirmou que os EUA vão “consertar” a indústria venezuelana, permitindo que gigantes como Exxon e Chevron invistam bilhões para restaurar a infraestrutura. Ele não fala em nacionalizar, mas em abrir espaço para o capital privado americano.
Para os analistas, isso pode significar duas coisas:
- Um novo modelo de parceria, onde a PDVSA cede blocos de exploração a empresas estrangeiras em troca de tecnologia e capital.
- Um movimento geopolítico para reduzir a influência da China e da Rússia na Venezuela.
Na prática, isso ainda depende de acordos que garantam segurança jurídica – algo que falta no país há anos.
Impactos imediatos no mercado de petróleo
Na primeira reação, as ações das grandes petrolíferas americanas subiram (a Chevron ganhou 5,1% em um dia), mas logo recuaram quando ficou claro que nenhuma mudança rápida aconteceria. Por quê?
- A produção venezuelana ainda está em torno de 1 milhão de barris/dia – muito longe do seu potencial histórico.
- Qualquer aumento significativo exigiria investimentos de longo prazo, reconstrução de refinarias e, principalmente, mudança na governança da PDVSA.
- O mercado global já está lidando com excesso de oferta e demanda mais fraca prevista para 2026, o que diminui a sensibilidade a notícias pontuais.
Em resumo, no curto prazo, o preço do petróleo deve permanecer estável, mas a perspectiva de um “retorno” da Venezuela ao cenário de 3 milhões de barris/dia pode, a médio e longo prazo, pressionar a competitividade de produtores como o Brasil.
O papel da China e o xadrez geopolítico
Hoje, a China compra cerca de 430 mil barris por dia da Venezuela e tem cerca de US$ 12 bi em empréstimos garantidos por petróleo. Washington vê isso como uma alavanca para reduzir a presença chinesa na região.
Se os EUA conseguirem abrir o mercado venezuelano para suas empresas, poderemos assistir a uma reconfiguração das rotas de exportação: mais petróleo vindo para o sul dos EUA, menos para a China. Isso tem implicações não só para a Venezuela, mas para toda a América Latina, que pode ver mudanças nas cadeias de suprimento de energia.
Qual o futuro da PDVSA?
Especialistas como Welber Barral, da BMJ Consultores, dizem que a estatal está “sucateada”, mas ainda detém um potencial enorme. A proposta mais plausível é um modelo híbrido:
- Parcerias estratégicas com empresas estrangeiras para modernizar campos e refinarias.
- Revisão das sanções, talvez com condições de transparência e governança.
- Um “novo arranjo de regras” que permita à PDVSA operar sem o monopólio rígido, mas ainda com controle estatal sobre as reservas.
Se isso acontecer, a empresa pode ganhar força novamente, ajudando a estabilizar a economia venezuelana e oferecendo ao mercado global uma fonte extra de petróleo.
O que isso significa para nós, brasileiros?
Para quem acompanha a Petrobras, a possibilidade de uma Venezuela mais competitiva pode ser um alerta: precisamos acelerar nossos próprios projetos de exploração, especialmente no pré‑sal. Além disso, a volatilidade política da região pode influenciar o preço do combustível aqui em casa.
Se você investe em ações de energia, vale ficar de olho nas movimentações de empresas americanas e nas decisões de sanções dos EUA. E, claro, acompanhar as negociações entre Washington e Caracas, porque qualquer mudança significativa pode reverberar nos mercados emergentes.
Em suma, a ofensiva dos EUA traz mais perguntas do que respostas no momento. O que sabemos é que a PDVSA tem um futuro incerto, mas ainda cheio de possibilidades – se conseguir atrair investimento e melhorar sua governança. Enquanto isso, o mercado global de petróleo segue cauteloso, aguardando sinais claros de que a Venezuela voltará a ser um player relevante.



