Na última sexta‑feira (19), o Congresso Nacional deu o aval ao Orçamento da União para 2026. Além do superávit de R$ 34,5 bilhões que o governo espera alcançar, o número que mais chama atenção – e gera dúvidas – é a reserva de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. Mas o que isso realmente significa para o cidadão de bem? Como esses recursos vão chegar até as escolas, hospitais ou estradas da sua cidade? Vamos destrinchar o assunto de forma simples, sem aquele juridiquês que só aparece nos debates de Brasília.
Emendas parlamentares: o que são e como funcionam?
Em termos práticos, as emendas são cortes de dinheiro que deputados e senadores podem indicar dentro do orçamento federal. Cada parlamentar tem um “pote” de recursos que pode direcionar para projetos que beneficiem o seu estado ou distrito. Existem três tipos principais:
- Emendas individuais (impositivas): são vinculadas a cada deputado ou senador. O governo tem obrigação legal de executar o valor indicado.
- Emendas de bancada: definidas em conjunto pelos parlamentares de um mesmo estado (ou do Distrito Federal). Também são impositivas.
- Emendas de comissão: não são obrigatórias; o Executivo pode liberar ou bloquear o pagamento, dependendo da situação fiscal.
No orçamento de 2026, dos R$ 61 bilhões reservados, R$ 49,9 bilhões são impositivas – ou seja, praticamente garantidas. Desses, R$ 26,6 bilhões vão para emendas individuais e R$ 11,2 bilhões para as de bancada. O restante, R$ 12,1 bilhões, corresponde às emendas de comissão, que ainda dependem da aprovação do Planalto.
Onde o dinheiro pode chegar?
O foco das emendas costuma ser áreas que têm demanda constante: saúde, educação, assistência social e infraestrutura. O texto aprovado determina que 65% do total das emendas impositivas seja pago até o final do primeiro semestre, e a maior parte desses recursos será destinada a saúde e assistência social. Isso significa que, em teoria, hospitais e programas de apoio a famílias vulneráveis podem receber um reforço significativo já nos primeiros meses de 2026.
Exemplos práticos
- Um deputado do interior de Alagoas (como o relator Isnaldo Bulhões – MDB‑AL) pode destinar parte das emendas individuais para a construção de um centro de saúde em sua região.
- Uma bancada estadual pode escolher investir em pavimentação de estradas rurais, facilitando o escoamento da produção agrícola.
- Emendas de comissão podem financiar projetos de tecnologia em escolas públicas, mas só se o governo conseguir equilibrar as contas.
Cortes que acompanham o orçamento
Nem tudo são boas notícias. O mesmo texto que libera as emendas também traz cortes em programas sociais importantes:
- Pé de Meia: bolsa para estudantes do ensino médio tem seu orçamento reduzido de R$ 12 bilhões para R$ 11,46 bilhões – uma queda de R$ 436 milhões.
- Auxílio Gás: o benefício mensal para 2,7 milhões de famílias tem o total reduzido em cerca de R$ 300,7 milhões, passando de R$ 5,1 bilhões para R$ 4,73 bilhões.
- Previdência: há um corte de R$ 6,2 bilhões nas despesas com o Regime Geral da Previdência Social.
Esses ajustes são parte da estratégia do governo para garantir o superávit fiscal e cumprir a meta de R$ 68,6 bilhões de superávit (ou zero, dentro da margem de tolerância de 0,25 ponto percentual).
Investimentos públicos: o piso de R$ 83 bilhões
O orçamento também fixa um piso mínimo de investimentos públicos – 0,6% do PIB projetado para 2026, o que dá R$ 83 bilhões. Essa quantia deve ser aplicada em obras de infraestrutura, como o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC). Embora sejam “despesas discricionárias” (ou seja, podem ser cortadas em caso de aperto), a lei obriga que esse valor seja mantido, garantindo um fluxo contínuo para obras de grande impacto.
Como isso afeta o seu bolso?
Para quem não acompanha o debate no Congresso, a principal preocupação costuma ser: “Vou sentir alguma mudança no meu dia a dia?” A resposta depende de onde as emendas forem direcionadas. Se o seu município receber recursos para melhorar a rede de saúde, você pode notar menos fila nos postos ou a chegada de novos equipamentos. Se a emenda for para educação, talvez haja mais vagas em escolas ou projetos de reforço escolar.
Por outro lado, os cortes nos programas sociais podem reduzir o apoio direto a famílias de baixa renda. O Pé de Meia, por exemplo, deixa de oferecer R$ 200 mensais a milhares de estudantes, o que pode impactar a permanência deles na escola.
O que observar nos próximos meses
Agora que o orçamento está aprovado, o próximo passo é a sanção presidencial. Depois disso, começa a fase de liberação dos recursos, que costuma ser lenta e cheia de negociações. Fique de olho em:
- Calendário de pagamentos: a regra exige que a maior parte das emendas impositivas seja paga até o fim do primeiro semestre de 2026.
- Relatórios de execução: órgãos como o TCU e o Ministério da Fazenda publicam periodicamente como o dinheiro está sendo gasto.
- Reação dos estados: se o seu estado não receber a parte esperada, pode haver pressão política para ajustes nas próximas leis de diretrizes orçamentárias (LDO).
Conclusão
O Orçamento de 2026 traz um misto de boas e más notícias. Os R$ 61 bilhões em emendas parlamentares prometem levar recursos diretamente para as regiões, mas a forma como esses recursos serão distribuídos ainda depende de negociações e da capacidade do Executivo de honrar os pagamentos. Enquanto isso, os cortes em programas como o Pé de Meia e o Auxílio Gás lembram que o governo ainda tem que equilibrar as contas.
Para nós, cidadãos, o melhor caminho é acompanhar de perto onde o dinheiro está sendo investido e cobrar transparência. Afinal, o orçamento é um documento que, embora pareça distante, tem reflexos diretos nas escolas, hospitais e estradas que usamos todos os dias.
E você, já percebeu alguma mudança nas obras ou serviços da sua cidade nos últimos anos? Compartilhe nos comentários – a troca de informações ajuda a gente a entender melhor o que está acontecendo em Brasília e a exigir que o dinheiro público seja bem aplicado.



