Quando Delcy Rodríguez entrou no Palácio Federal Legislativo, em 5 de janeiro de 2026, para prestar juramento como presidente interina da Venezuela, ela vestiu um modelo da grife italiana Chiara Boni La Petite Robe. O vestido, verde e elegante, custava cerca de 550 euros – aproximadamente R$ 3.800. À primeira vista, o valor parece modesto comparado aos rumores nas redes sociais, mas ainda é quase 1.500 vezes maior que o salário mínimo venezuelano, que hoje equivale a R$ 2,46.
Esse contraste imediato levanta uma pergunta que poucos fora da Venezuela se fazem: como pode existir um mercado de luxo tão vibrante em um país mergulhado em uma crise econômica de mais de uma década? A resposta está nas chamadas “ilhas de riqueza” que se formam em bairros como Las Mercedes, no coração de Caracas. Lá, relógios Rolex, carros Ferrari e restaurantes estrelados coexistem com favelas e filas para comprar alimentos básicos.
Para entender esse fenômeno, precisamos voltar no tempo e observar como a história econômica da Venezuela moldou sua estrutura social. Desde os anos 1920, o país viveu um boom impulsionado pelo petróleo. Nos anos 1970, o choque da commodity fez a desigualdade disparar, criando uma elite extremamente rica enquanto a maioria da população permanecia à margem.
Quando Hugo Chávez chegou ao poder, prometeu redistribuir a riqueza do petróleo. Por um tempo, os programas sociais melhoraram a vida de milhões, mas a dependência de receitas petrolíferas e a má gestão econômica deixaram um legado de instabilidade. O sucessor, Nicolás Maduro, agravou a situação com sanções internacionais, queda da produção da PDVSA e hiperinflação que corroeu o poder de compra da maioria.
Mesmo assim, a elite venezuelana encontrou maneiras de proteger seu patrimônio. Uma das estratégias mais eficazes foi a dolarização informal da economia. Em 2020, durante a pandemia, o governo relaxou as restrições ao uso do dólar americano. Isso permitiu que quem tinha acesso a moedas fortes mantivesse seu padrão de vida, enquanto a maioria continuava presa ao bolívar quase sem valor.
O resultado? Um mercado de luxo que funciona quase como um microcosmo de países desenvolvidos, mas isolado dentro de um contexto de crise profunda. Em Caracas, há cinco distribuidores oficiais da Rolex. A Galeria Avanti reúne marcas de alta costura, e a Torre Jalisco abriga uma concessionária Ferrari que exibe veículos cujos preços começam em US$ 255 mil – cerca de R$ 1,37 milhão.
Mas quem são esses consumidores? Segundo o economista venezuelano Luis Vicente León, da consultoria Datanálisis, cerca de 6% da população – aproximadamente 2 milhões de pessoas – pertencem às classes alta e média alta. Esse grupo inclui empresários, políticos ligados ao governo, e indivíduos que, por medo de ter seus recursos congelados, gastam rapidamente em bens de luxo.
Não se trata apenas de ostentação. Para muitos, comprar um relógio Rolex ou um carro Ferrari é uma forma de blindar o patrimônio contra a desvalorização da moeda local. Quando a inflação atinge três dígitos, um bem durável e negociado em dólares se torna um refúgio seguro.
Além disso, a presença de chefs venezuelanos treinados em restaurantes europeus de renome tem impulsionado um boom gastronômico em Las Mercedes. Os cardápios são cotados em dólares, e os preços podem chegar a centenas de dólares por prato. Esse cenário cria uma camada adicional de exclusividade: quem tem dólares pode desfrutar de experiências que a maioria da população jamais conhecerá.
É fácil imaginar que todo esse consumo esteja ligado à corrupção. De fato, há indícios de que parte da riqueza provém de práticas ilícitas, mas não se pode generalizar. Como ressalta León, “não é correto acusar todos os que compram em Las Mercedes de corrupção”. O que fica claro é que a elite tem recursos que escapam ao controle estatal, e isso alimenta um ciclo de consumo que reforça a percepção de que a Venezuela ainda tem um “lado dourado”.
O caso da Ferrari ilustra bem essa história de altos e baixos. A marca chegou à capital nos anos 1950, quando Caracas era comparada a Paris, repleta de boutiques como Dior. Uma revendedora abriu na década de 50 e, nos anos 1970, as restrições à importação fecharam o mercado. Em 1993, uma concessionária oficial foi inaugurada, mas foi forçada a fechar em 2007 devido ao bloqueio comercial imposto pelos EUA.
Somente em 2021, após a reabertura da economia para algumas transações internacionais, o mesmo empresário conseguiu reabrir a loja, agora no térreo da Torre Jalisco. O retorno da Ferrari simboliza a resiliência de um segmento que, apesar das sanções e da crise, continua a encontrar caminhos para operar.
Mas o que tudo isso significa para o venezuelano médio? A resposta pode ser simples: muito pouco. Enquanto a elite desfruta de relógios, carros e restaurantes de luxo, a maioria luta para comprar alimentos básicos. A diferença de poder de compra é tão grande que, para muitos, o vestido de Delcy Rodríguez parece um símbolo de desconexão total com a realidade.
Entretanto, há quem veja nessa situação um sinal de que a economia venezuelana ainda tem potencial de recuperação. Se a classe alta mantém seu capital em ativos internacionais, pode haver um fluxo futuro de investimento caso o país estabilize sua política econômica. Essa hipótese, porém, depende de reformas estruturais que ainda não são visíveis.
Do ponto de vista internacional, a existência de um mercado de luxo em meio a uma crise gera curiosidade e, às vezes, descrédito. Analistas de risco costumam usar a presença de marcas como Rolex e Ferrari como indicadores de que, apesar da instabilidade, há segmentos que permanecem lucrativos. Para investidores estrangeiros, isso pode representar oportunidades de negócios de nicho, como importação de peças de reposição ou serviços de manutenção de alto padrão.
Por outro lado, a percepção de desigualdade extrema pode alimentar críticas aos regimes autoritários. Quando o presidente veste um vestido de grife enquanto o salário mínimo vale menos de três reais, a narrativa de “povo sofrido” perde força perante a comunidade internacional. Essa imagem pode ser usada por opositores para denunciar a desconexão do governo com as necessidades básicas da população.
É importante lembrar que a Venezuela não está sozinha nessa dualidade. Países como a Argentina e a Turquia também apresentam bolsões de consumo de luxo em meio a crises inflacionárias. O que diferencia a Venezuela é a extensão da crise e a presença de sanções que limitam ainda mais a circulação de divisas.
Para quem vive em Caracas, a presença de Las Mercedes pode ser tanto um lembrete de aspirações quanto de frustração. Muitos jovens sonham em trabalhar em um dos restaurantes de alta gastronomia ou, quem sabe, ser um vendedor de relógios de luxo. Porém, a barreira de acesso ao dólar e a falta de oportunidades de educação de qualidade tornam esse sonho distante para a maioria.
Se olharmos para o futuro, duas possibilidades se destacam:
- Recuperação gradual: Caso o governo implemente políticas de estabilização macroeconômica, como controle da inflação e abertura ao investimento estrangeiro, a elite pode canalizar seu capital para projetos de desenvolvimento, impulsionando a economia como um todo.
- Persistência da desigualdade: Se a crise continuar, o mercado de luxo permanecerá como uma “bolha” isolada, alimentando tensões sociais e possivelmente desencadeando protestos mais intensos.
Independentemente do caminho, o vestido verde de Delcy Rodríguez serve como um símbolo visual poderoso. Ele nos lembra que, mesmo em tempos de escassez, há quem consiga manter um padrão de vida luxuoso. Essa realidade nos convida a refletir sobre as políticas que perpetuam ou desafiam essas desigualdades.
Para quem acompanha a situação da Venezuela de fora, a lição pode ser dupla: por um lado, reconhecer que a crise não é homogênea; por outro, entender que a presença de luxo não indica solução, mas sim um alerta de que a divisão social está mais profunda do que aparenta.
Em resumo, o caso do vestido verde revela muito mais do que um simples detalhe de moda. Ele abre uma janela para o complexo panorama econômico, social e político da Venezuela contemporânea, onde o brilho das marcas de luxo convive com a luta diária de milhões por sobrevivência. A pergunta que fica é: como transformar essa “ilha de luxo” em um ponto de partida para um futuro mais justo e equilibrado?



