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O que a crise do Banco Master revela sobre liquidez e o papel do FGC no Brasil

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O que a crise do Banco Master revela sobre liquidez e o papel do FGC no Brasil

Recentemente, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, concedeu depoimento à Polícia Federal e admitiu que a instituição enfrentava sérios problemas de liquidez, usando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como parte central do modelo de negócio. Essa revelação trouxe à tona questões que vão muito além de um único banco: como funciona a liquidez no sistema financeiro, quais são os limites do FGC e o que investidores devem observar para se proteger.



Entendendo a liquidez: por que ela importa?

Liquidez é a capacidade de transformar ativos em dinheiro rapidamente, sem perder valor. Quando um banco não consegue honrar seus compromissos porque não tem caixa suficiente, ele entra em crise de liquidez. No caso do Master, Vorcaro descreveu a situação como “momentânea”, mas a realidade mostrou que a falta de caixa se tornou crítica a ponto de levar à liquidação pelo Banco Central.

Para quem não está familiarizado, imagine que você tem um cofre cheio de moedas antigas que não são aceitas nas máquinas de pagamento. Você tem riqueza, mas não consegue usá‑la quando precisa. O mesmo acontece com bancos que mantêm grande parte de seus recursos em ativos ilíquidos, como precatórios ou carteiras de crédito “fabricadas”.



O FGC como “modelo de negócio” – mito ou realidade?

Vorcaro afirmou que o Master baseava 100% de sua estratégia no FGC, alegando que isso não seria irregular porque “essa era a regra do jogo”. O FGC, porém, não é um programa de lucro; ele funciona como um seguro que protege depositantes até R$ 250 mil por pessoa, usando recursos dos próprios bancos.

Quando o Banco Central detectou violações graves e falta de liquidez, decidiu pela liquidação. O FGC acabou pagando, até o momento, cerca de R$ 41 bilhões – o maior pagamento da história. Isso mostra que, embora o fundo ofereça uma rede de segurança, ele não pode ser usado como fonte de financiamento permanente.

Novas regras do FGC e o impacto nos bancos de risco

Em agosto, o Conselho Monetário Nacional aprovou mudanças que aumentaram a contribuição dos bancos considerados mais arriscados. A taxa extra passou de 0,01% para 0,02% sobre os depósitos cobertos, e o gatilho de cobrança foi antecipado de 75% para 60% da capacidade de cobertura. Além disso, recursos que ultrapassam dez vezes o patrimônio líquido precisam ser investidos em títulos públicos, considerados menos arriscados.

Essas regras foram vistas como um “freio” para práticas agressivas de captação, como a do Master, que oferecia CDBs com rendimentos muito acima da média – algo que, na prática, sinaliza dificuldade de acesso a financiamento barato.



O que os investidores podem aprender com o caso Master?

  • Desconfie de supertaxas. Rendimentos muito acima do CDI costumam indicar que o banco está pagando por acesso ao capital, o que pode ser insustentável.
  • Olhe para a composição dos ativos. Se grande parte está em itens ilíquidos, a capacidade de honrar saques rápidos é limitada.
  • Entenda o papel do FGC. Ele protege até R$ 250 mil, mas não cobre perdas acima desse limite. Diversificar entre diferentes instituições pode reduzir o risco.
  • Fique atento a mudanças regulatórias. Novas regras podem alterar custos de captação e a saúde financeira de bancos menores.

Perspectivas para o futuro do sistema financeiro brasileiro

A liquidação do Master pode servir como um alerta para reguladores e para o mercado. A tendência é que o Banco Central continue reforçando requisitos de capital e liquidez, especialmente para instituições que adotam estratégias de alta rentabilidade para atrair investidores.

Ao mesmo tempo, o FGC pode ser pressionado a rever seus limites e mecanismos de contribuição, buscando equilibrar a proteção dos depositantes com a sustentabilidade do próprio fundo.

Para nós, investidores de varejo, a lição mais prática é manter um portfólio diversificado e não colocar todo o dinheiro em produtos que prometem retornos “mágicos”. O equilíbrio entre risco e retorno sempre foi a base de uma boa estratégia financeira.

Se você ainda tem recursos investidos no Banco Master, acompanhe os comunicados do FGC e verifique o status do seu pedido de ressarcimento. A maioria dos credores já solicitou o ressarcimento, mas o processo pode levar algum tempo.

Em resumo, a crise do Master nos lembra que, no mundo financeiro, nada substitui a disciplina, a transparência e a prudência. O FGC continua sendo um importante mecanismo de proteção, mas não deve ser encarado como um “cinto de segurança” ilimitado.