Quando ouvi pela primeira vez que Elon Musk, o cara que vende foguetes e carros elétricos, teria sido convidado a chefiar um departamento chamado DOGE – Departamento de Eficiência Governamental – dentro do governo Trump, confesso que fiquei curioso. A promessa era grande: cortar gastos, melhorar a produtividade e, quem sabe, gerar até dois trilhões de dólares em economia para os EUA. Mas a realidade que saiu do relatório da Peer (Public Employees for Environmental Responsibility) é bem diferente. Em vez de economizar, o programa gastou cerca de US$ 10 bilhões, basicamente pagando salários de mais de 154 mil funcionários federais que foram colocados em licença remunerada.
Para quem não acompanha de perto a política americana, pode parecer um detalhe burocrático. Mas, na prática, esse número representa quase 7 % do funcionalismo civil do país. Imagine um hospital que, de repente, decide colocar milhares de enfermeiros em “folga” paga, enquanto os pacientes continuam precisando de atendimento. O resultado? O serviço não só não melhora – ele piora.
Como surgiu o DOGE e por que ele parecia tão promissor?
O DOGE foi criado nos últimos meses da segunda gestão de Donald Trump, em um momento em que a administração buscava maneiras de “desburocratizar” o governo. A ideia, apresentada por Musk, era simples: identificar processos redundantes, cortar cargos desnecessários e, com isso, liberar recursos para áreas estratégicas.
- Objetivo declarado: reduzir o tamanho da máquina pública e gerar eficiência.
- Meta financeira: economizar até US$ 2 trilhões ao longo de alguns anos.
- Estratégia: colocar servidores em licenças remuneradas, permitindo que o governo “não pagasse” por suas funções enquanto ainda mantinha o salário.
Na teoria, parece uma boa jogada – menos custos operacionais, mais agilidade. Na prática, o que aconteceu foi uma espécie de “licença infinita” que acabou drenando recursos sem gerar produtividade.
O que realmente aconteceu? Licenças remuneradas em massa
De acordo com o levantamento da Peer, ao longo de 2025 mais de 154 mil servidores foram afastados com pagamento integral. Entre eles, funcionários da Agência de Proteção Ambiental (EPA) que lidam com justiça ambiental, e agentes do Serviço Nacional de Parques. O que chama atenção é que essas licenças foram concedidas mesmo em um cenário de escassez de pessoal em áreas críticas.
Além disso, o relatório aponta que o governo violou a Lei de Licença Administrativa, que limita o afastamento remunerado a até dez dias úteis por ano, salvo exceções muito específicas. A solução encontrada foi criar novas categorias de licença que, na prática, contornavam a lei. Essa manobra gerou o que especialistas chamam de “buraco negro de prestação de contas”, dificultando a auditoria e a responsabilização.
Por que isso importa para nós, leitores brasileiros?
Mesmo que o caso seja dos EUA, ele traz lições valiosas para quem acompanha a gestão pública no Brasil. Primeiro, mostra como promessas de eficiência podem ser usadas como fachada para políticas que, na verdade, aumentam o gasto público. Segundo, evidencia a importância de mecanismos de controle rigorosos e transparência nas licenças e benefícios concedidos aos servidores.
Se no Brasil houver propostas semelhantes – como programas de “licença produtiva” ou “redução de quadro” – vale ficar de olho nas regras e nos limites legais. Caso contrário, o risco é o mesmo: o governo paga salários sem receber trabalho, gerando déficits que acabam sendo repassados ao contribuinte.
Próximos passos e possíveis consequências
A Peer já encaminhou uma denúncia ao Office of Management and Budget (OMB), órgão responsável por fiscalizar os gastos federais. Se a irregularidade for confirmada, os dirigentes das agências podem enfrentar sanções, embora a abertura de processos dependa de autoridades que, muitas vezes, são politicamente alinhadas com os envolvidos.
Especialistas como Madeline Materna, da Universidade Stanford, apontam que a complexidade das regras e as lacunas legislativas criam um ambiente onde “é extremamente difícil levar o caso aos tribunais”. Essa dificuldade, por sua vez, alimenta a sensação de impunidade e permite que políticas controversas se mantenham por mais tempo.
O que podemos aprender e aplicar no dia a dia?
Para quem tem interesse em gestão pública, finanças ou simplesmente quer entender como o dinheiro público pode ser mal administrado, algumas dicas práticas são úteis:
- Exija transparência: acompanhe relatórios de gastos e verifique se há justificativas claras para licenças ou benefícios.
- Conheça a legislação: entender limites como a Lei de Licença Administrativa ajuda a identificar possíveis abusos.
- Pressione representantes: deputados e senadores têm poder de solicitar auditorias e investigações.
- Eduque-se sobre políticas públicas: quanto mais informado você estiver, mais difícil será para políticos manipularem números sem contestação.
Em resumo, o caso do DOGE serve como um alerta: promessas grandiosas de economia podem esconder custos ocultos. A lição principal é que eficiência real vem acompanhada de responsabilidade, controle e, sobretudo, de resultados mensuráveis. Se o governo não entrega o que promete, o contribuinte paga o preço.
E você, já tinha ouvido falar desse programa? O que acha que poderia ser feito para evitar esse tipo de situação no futuro? Compartilhe sua opinião nos comentários!



