Quando ouvi falar pela primeira vez que Elon Musk, ainda que como consultor, teria criado nos EUA um departamento chamado DOGE (Departamento de Eficiência Governamental), confesso que fiquei intrigado. A ideia de cortar gastos e tornar a máquina pública mais enxuta parece um sonho para quem já cansou de ver o dinheiro público escorrendo em burocracias.
Mas a realidade, segundo um levantamento da organização de servidores públicos Peer, foi bem diferente: o programa acabou gerando um prejuízo de US$ 10 bilhões, ao afastar mais de 154 mil funcionários federais em licença remunerada. Isso representa quase 7% de todo o funcionalismo civil dos Estados Unidos. Em vez de economizar, o governo acabou pagando salários de quem não estava trabalhando.
Para entender por que isso aconteceu, é preciso voltar ao contexto da criação do DOGE. Ele surgiu na segunda gestão de Donald Trump, justamente para “cortar custos”. A proposta era simples: identificar funções redundantes, fechar agências desnecessárias e, claro, reduzir a folha de pagamento. Musk, que já havia prometido cortar US$ 2 trilhões em despesas federais, foi colocado à frente da iniciativa como símbolo de inovação e eficiência.
Na prática, o que o programa fez foi criar um mecanismo de licenças remuneradas que, ao que tudo indica, violou a Lei de Licença Administrativa – que permite, no máximo, dez dias úteis de afastamento pago por ano, salvo exceções bem específicas. O que o DOGE fez foi criar categorias de licença que escapavam desse limite, permitindo que milhares de servidores fossem “colocados” fora do trabalho sem que o governo deixasse de pagar seus salários.
O impacto disso foi sentido em áreas críticas, como o Serviço Nacional de Parques e a Agência de Proteção Ambiental (EPA). Funcionários que lidam com justiça ambiental, por exemplo, ficaram sem pessoal para conduzir processos essenciais, gerando um impasse jurídico que pode atrasar decisões importantes sobre poluição e conservação.
Especialistas apontam que a combinação de regras complexas, falhas na regulamentação e a própria vontade política criaram o que eles chamam de “buraco negro de prestação de contas”. Em termos simples, é quase impossível rastrear quem realmente decidiu por essas licenças e por que. A Peer já apresentou denúncia ao órgão de fiscalização de gastos públicos, mas a abertura de processos depende de autoridades que, muitas vezes, são parte do mesmo sistema que se beneficia das brechas.
Para quem não está acostumado com o funcionamento interno do governo americano, a situação pode parecer um caso isolado de má gestão. Mas, na verdade, ela revela um padrão que pode se repetir em outras democracias: quando há promessas de eficiência, muitas vezes surgem mecanismos que, ao invés de cortar gastos, criam novas formas de despesa.
O que isso significa para nós, brasileiros, que acompanhamos de perto as discussões sobre reforma administrativa? Primeiro, a lição mais clara é que cortar custos não é só questão de criar departamentos ou mudar nomes. É preciso garantir que as regras sejam claras, que haja transparência nos processos e que haja mecanismos de controle efetivos.
Segundo, a história do DOGE nos alerta sobre a importância de avaliar quem está por trás das propostas. Elon Musk tem um histórico de inovação no setor privado, mas o ambiente público tem suas próprias regras e limitações. Transferir a mesma mentalidade de “disrupção” para a administração pública pode gerar efeitos colaterais inesperados.
Terceiro, a questão da licença remunerada pode nos fazer refletir sobre o equilíbrio entre bem‑estar dos servidores e a necessidade de manter serviços essenciais. Licenças são importantes, mas devem ser usadas com responsabilidade e dentro dos limites legais. Caso contrário, o custo para a sociedade pode ser altíssimo.
Por fim, vale observar que, apesar do prejuízo de US$ 10 bilhões, o programa ainda não foi totalmente descontinuado. Algumas agências continuam a usar as categorias de licença criadas, e a pressão política para reverter a situação ainda é baixa. Isso mostra como mudanças estruturais no governo podem ser lentas e resistentes, mesmo quando há evidências claras de ineficiência.
Em resumo, o caso do DOGE nos lembra que promessas grandiosas – como “cortar trilhões de dólares” – precisam ser acompanhadas de planos detalhados, fiscalização rigorosa e, sobretudo, de um entendimento realista das limitações do setor público. Se não houver isso, o risco é transformar uma ideia de economia em um enorme desperdício, como aconteceu nos EUA.
E você, já ouviu falar de algum programa parecido aqui no Brasil? Como acha que poderíamos melhorar a eficiência do nosso governo sem criar novas brechas? Deixe sua opinião nos comentários – a discussão está apenas começando.



