Quando Elon Musk apareceu na Casa Branca usando uma camiseta com a palavra DOGE, muita gente pensou que era só mais um truque de marketing. Mas, por trás da foto, havia um projeto governamental que ganhou muita atenção: o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), criado durante a primeira fase do governo Trump com a promessa de cortar gastos e tornar a máquina pública mais enxuta.
O que parecia ser uma solução inovadora acabou virando uma das maiores polêmicas de 2025. Um levantamento feito por uma organização de funcionários públicos, a Public Employees for Environmental Responsibility (Peer), revelou que o programa gastou cerca de US$ 10 bilhões ao colocar mais de 154 mil servidores federais em licença remunerada. Na prática, o governo continuou pagando salários de quem estava afastado, sem produzir nada.
Como surgiu o DOGE e quais eram as metas?
O DOGE nasceu em 2024, quando a administração Trump decidiu criar um órgão dedicado a identificar e eliminar desperdícios no orçamento federal. A ideia era simples: analisar cada agência, cortar cargos redundantes, automatizar processos e, segundo Musk, “economizar trilhões de dólares”. Elon Musk, que na época já era conhecido por suas empresas de alta tecnologia, foi convidado a liderar o projeto como conselheiro especial.
Entre as metas estavam:
- Reduzir o número de funcionários em até 10%.
- Implementar licenças remuneradas de curta duração para servidores que não fossem essenciais.
- Utilizar inteligência artificial para avaliar a produtividade de cada departamento.
Na teoria, tudo parecia plausível. Mas a prática mostrou outra realidade.
O que realmente aconteceu?
De acordo com o estudo da Peer, mais de 154 mil servidores foram colocados em licença remunerada ao longo de 2025. Isso representa quase 7% do funcionalismo civil dos EUA. O que chama a atenção não é só o número, mas o fato de que essas licenças foram concedidas mesmo em áreas críticas, como o Serviço Nacional de Parques e a Agência de Proteção Ambiental (EPA).
O governo, ao invés de cortar cargos, acabou pagando salários de funcionários que não estavam trabalhando. A justificativa oficial era que a licença permitiria “reorganizar” as equipes e “avaliar a real necessidade de cada posição”. Contudo, a lei de licença administrativa dos EUA limita o afastamento remunerado a até dez dias úteis por ano, com exceções muito restritas. A Peer afirma que o DOGE criou categorias de licença que contornaram essa limitação, gerando um gasto gigantesco.
Peter Jenkins, assessor jurídico da Peer, declarou ao The Guardian que “gastar mais de US$ 10 bilhões para impedir pessoas de trabalhar é uma forma absurda de administrar o governo”. Essa frase resumiu bem a indignação de muitos servidores e especialistas.
Por que o programa falhou?
Vários fatores contribuíram para o fracasso:
- Falta de transparência: As decisões sobre quem seria colocado em licença não foram divulgadas publicamente, dificultando o controle social.
- Complexidade legal: A combinação de regras antigas, lacunas na regulamentação e novas categorias de licença criou um “buraco negro de prestação de contas”, como apontam os especialistas.
- Pressão política: A administração Trump buscava resultados rápidos para mostrar eficiência, mas acabou priorizando a aparência de corte ao invés de resultados reais.
- Influência externa: A presença de Musk como figura de destaque trouxe um brilho de inovação que mascarou falhas operacionais.
Madeline Materna, pesquisadora de Stanford, destaca que “há estratégias que tornam extremamente difícil levar o caso aos tribunais ou a órgãos de controle, e isso explica por que a política avançou”.
Consequências para o contribuinte e para o serviço público
Para o contribuinte americano, o impacto foi direto: mais de US$ 10 bilhões de dólares foram desviados de outras áreas que poderiam ter recebido investimentos, como infraestrutura, saúde ou educação. Em termos de poder de compra, esse valor equivale a cerca de 5% do orçamento anual de algumas agências menores.
Para os servidores, o efeito foi ainda mais doloroso. Muitos relataram insegurança profissional, já que a licença podia ser estendida indefinidamente sob a justificativa de “reorganização”. Além disso, a moral da equipe caiu, afetando a produtividade nas áreas que permaneceram operacionais.
O que isso nos ensina sobre promessas de eficiência governamental?
É fácil se deixar levar por discursos que prometem cortar gastos de forma drástica. No entanto, a história do DOGE mostra que a eficiência não vem de simplesmente dispensar pessoas, mas de melhorar processos, investir em tecnologia e garantir que os recursos sejam usados de forma responsável.
Algumas lições práticas que podemos tirar:
- Transparência é fundamental: Qualquer programa de corte deve ter metas claras, indicadores mensuráveis e auditorias independentes.
- Respeito à legislação: Contornar leis pode gerar economias ilusórias, mas traz riscos de multas e processos.
- Foco em resultados, não em aparência: Reduzir o número de funcionários não significa reduzir custos se os salários continuam sendo pagos.
- Envolvimento dos próprios servidores: Quem conhece o funcionamento interno das agências está em melhor posição para sugerir melhorias reais.
Perspectivas para o futuro
O caso ainda está em investigação. A Peer apresentou uma denúncia ao órgão responsável por fiscalizar gastos públicos, e se a irregularidade for confirmada, dirigentes de agências podem ser punidos. Contudo, como a própria estrutura do DOGE foi criada por um governo que já deixou o cargo, a responsabilização completa pode ser complicada.
O que fica claro é que projetos ambiciosos precisam de um plano de implementação sólido, acompanhamento contínuo e, sobretudo, respeito às normas vigentes. Sem isso, até as ideias mais inovadoras podem se transformar em verdadeiros prejuízos para a sociedade.
Se você acompanha notícias de política e economia, vale a pena ficar de olho nos próximos desdobramentos desse caso. Ele pode servir de alerta para futuros projetos de reforma administrativa, tanto nos EUA quanto aqui no Brasil.



