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O paradoxo do luxo em meio à crise: o que o vestido da presidente venezuelana revela sobre Caracas

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O paradoxo do luxo em meio à crise: o que o vestido da presidente venezuelana revela sobre Caracas

Quando Delcy Rodríguez entrou no Palácio Federal Legislativo, em Caracas, para assumir a presidência interina da Venezuela, ela chamou atenção não só pelo discurso, mas pelo vestido verde da grife italiana Chiara Boni La Petite Robe. O modelo custa cerca de 550 euros – algo em torno de R$ 3.800. Até parece pouco se comparado ao preço de um carro de luxo, mas ainda é um valor gigantesco quando o salário mínimo venezuelano gira em torno de R$ 2,46.



## Uma “ilha” de luxo no coração da capital

Caracas tem um bairro que parece outro mundo: Las Mercedes. Lá, você encontra cinco concessionárias oficiais da Rolex, a Galeria Avanti – um shopping de marcas internacionais – e, a poucos passos, a loja da Ferrari na torre Jalisco. Enquanto a maioria dos venezuelanos luta para colocar comida na mesa, uma elite de cerca de 2 milhões de pessoas – aproximadamente 6% da população – vive em um universo de dólares, cartões de crédito e restaurantes estrelados.



## Por que o luxo ainda sobrevive?

* **Reserva de valor:** A hiperinflação corrói a moeda local. Quem tem dólares ou euros tenta proteger seu patrimônio comprando bens que mantêm ou aumentam de valor, como relógios, roupas de grife e carros esportivos.
* **Sanções e isolamento:** Empresários e políticos ligados ao governo enfrentam restrições para movimentar dinheiro no exterior. Investir em ativos de luxo dentro do país é uma forma de “esconder” riqueza.
* **Cultura de status:** Desde os anos 1950, Caracas era comparada a Paris. A presença de boutiques como Dior e de concessionárias Ferrari criou uma tradição de consumo ostentatório que persiste, mesmo com as crises.



## Um breve histórico de contrastes

A Venezuela já teve períodos de grande prosperidade graças ao petróleo. Na década de 1970, o país era chamado de “Venezuela Saudita” e viu um boom de construção de arranha‑céus ao lado de favelas. Quando Hugo Chávez chegou ao poder, prometeu redistribuir a riqueza do petróleo, mas as crises dos anos 2000, as sanções americanas e a má gestão da PDVSA aprofundaram a desigualdade.

Hoje, enquanto o cidadão médio tem que racionar energia e alimentos, o bairro Las Mercedes funciona quase como um enclave de outra nação, onde o preço dos pratos nos restaurantes de alta gastronomia é cotado em dólares. Essa dualidade não é nova, mas se tornou ainda mais visível com a posse da presidente vestindo um traje europeu.

## O que isso significa para quem acompanha a política internacional?

1. **Sinal de estabilidade para a elite:** O fato de marcas como Rolex e Ferrari ainda operarem no país indica que há um segmento da população que confia – ou pelo menos aceita – o regime atual para proteger seus investimentos.
2. **Desafio para políticas de sanção:** Quando os EUA impõem sanções, o objetivo é pressionar o governo, mas a elite local muitas vezes encontra formas de driblar essas barreiras, mantendo o consumo de luxo.
3. **Percepção externa:** Para o resto do mundo, a imagem de um presidente usando um vestido de grife pode reforçar a ideia de que a crise afeta apenas a maioria, enquanto poucos permanecem intocados.

## Como isso impacta o leitor brasileiro?

– **Entendimento da realidade latino‑americana:** Muitas vezes, associamos a Venezuela apenas à crise humanitária. Conhecer a existência de um mercado de luxo ajuda a entender a complexidade social e econômica da região.
– **Investimentos e negócios:** Se você tem interesse em negócios na América do Sul, perceber que ainda há consumidores com alto poder aquisitivo pode abrir nichos de mercado, apesar das dificuldades.
– **Reflexão sobre desigualdade:** O caso venezuelano serve de alerta para que analisemos como a concentração de riqueza pode coexistir com a miséria extrema, algo que também vemos em outros países, inclusive no Brasil.

## O futuro da “ilha de luxo” venezuelana

A expectativa é que o mercado de luxo continue resiliente enquanto a moeda local permanecer instável e as sanções mantiverem seu peso. Contudo, fatores como a possível revalorização do petróleo, mudanças políticas ou uma nova onda de migração podem alterar esse cenário.

Se a economia venezuelana conseguir estabilizar o bolívar e abrir espaço para investimentos estrangeiros, talvez o luxo se torne mais acessível a uma camada maior da população. Por outro lado, se a crise aprofundar, o consumo de bens de alto valor pode se tornar ainda mais restrito a um círculo fechado de elites.

## Conclusão

O vestido verde de Delcy Rodríguez não é apenas um detalhe de moda; é um microcosmo de uma Venezuela dividida entre o colapso econômico e a persistência de um mercado de luxo que funciona como refúgio para quem tem dólares na mão. Enquanto a maioria luta para sobreviver, uma minoria compra relógios Rolex, janta em restaurantes com cardápio em dólares e dirige Ferraris. Essa dualidade nos lembra que, mesmo nos momentos mais difíceis, as desigualdades econômicas podem criar “ilhas” de prosperidade que coexistem com a miséria ao seu redor.