Quando Delcy Rodríguez entrou no Palácio Federal Legislativo, em 5 de janeiro de 2026, para prestar juramento como presidente interina da Venezuela, ela chamou a atenção não só pelo discurso, mas pelo vestido verde que usava. Era um modelo da grife italiana Chiara Boni La Petite Robe, vendido por cerca de 550 euros – o que dá aproximadamente R$ 3.800. Para quem vive com o salário mínimo de R$ 2,46, esse valor parece quase inimaginável.
Mas o que esse detalhe de moda tem a ver com a realidade do país? Mais do que um simples acessório, o vestido funciona como um ponto de partida para entender uma faceta pouco conhecida da Venezuela: a existência de um mercado de luxo resiliente, que persiste apesar da crise econômica que dura mais de uma década.
Em Caracas, a capital, ainda há cinco distribuidores oficiais da Rolex, a famosa marca suíça de relógios. A Galeria Avanti reúne roupas de diversas grifes internacionais, e, a algumas quadras da mesma, no térreo da Torre Jalisco, funciona uma concessionária da Ferrari. Esses estabelecimentos não são exceção, mas sim parte de uma “ilha” de riqueza concentrada no bairro Las Mercedes e arredores.
Essa área de Las Mercedes virou um verdadeiro enclave de luxo. Restaurantes de alta gastronomia, comandados por chefs venezuelanos que já passaram por estrelas Michelin na Europa, servem menus com preços em dólares. A escolha da moeda não é aleatória: desde 2020, o regime de Nicolás Maduro flexibilizou o uso do dólar para quem tem acesso a ele, criando uma divisão ainda mais clara entre quem possui dólares e quem depende exclusivamente da moeda local, a bolívar.
Mas quem são esses consumidores de alto poder aquisitivo? Segundo o economista venezuelano Luis Vicente León, da consultoria Datanálisis, cerca de 6 % da população – aproximadamente 2 milhões de pessoas – pertencem às classes alta e média‑alta. Eles mantêm seu padrão de vida gastando em bens de luxo, não apenas por status, mas também por medo de que seus recursos sejam congelados ou desvalorizados.
O mercado de luxo na Venezuela tem raízes históricas. Na década de 1950, Caracas era comparada a Paris, com boutiques de Dior e outros nomes da moda espalhados pela cidade. A Ferrari, por exemplo, já tinha presença na capital desde os anos 1950, atraindo até pilotos lendários como Juan Manuel Fangio. Após restrições de importação nos anos 1970, a concessionária fechou em 2007 devido a bloqueios comerciais, mas reapareceu em 2021, mostrando que a demanda persiste mesmo em tempos de crise.
Essas “ilhas” de consumo contrastam fortemente com a realidade da maioria da população. O salário mínimo está congelado em 130 bolívares desde 2022, equivalendo a menos de R$ 3,00. Enquanto isso, um carro da Ferrari custa, no mínimo, US$ 255 mil – ou cerca de R$ 1,37 milhão. Essa disparidade não é apenas econômica, mas simbólica: demonstra como a elite consegue contornar as restrições e manter um estilo de vida que parece de outro mundo.
É importante entender que nem todo consumo de luxo está ligado à corrupção. Embora parte da riqueza provinda de práticas ilícitas exista, como apontam analistas, há também empresários, profissionais liberais e expatriados que mantêm negócios legítimos e têm acesso ao dólar por exportações ou investimentos no exterior.
O que tudo isso significa para quem acompanha a situação venezuelana? Primeiro, revela que a crise não afeta a população de forma homogênea. Enquanto milhões lutam para comprar alimentos, há um segmento que ainda pode comprar relógios suíços e carros esportivos. Essa dualidade cria tensões sociais e políticas, pois a percepção de injustiça pode alimentar protestos e movimentos de oposição.
Segundo, o luxo funciona como um termômetro da estabilidade econômica para a elite. Quando o acesso a bens de alto valor diminui, pode ser um sinal de que até os mais ricos estão sentindo os efeitos da hiperinflação e das sanções internacionais. Por isso, observar a movimentação de marcas como Rolex e Ferrari pode oferecer pistas sobre a saúde financeira de um país em crise.
Por fim, a presença de um mercado de luxo pode ser vista como um convite para investimentos externos focados em nichos de alto padrão. Se o governo conseguir criar um ambiente mais estável e abrir espaço para importações de bens de luxo, pode atrair compradores de alto poder aquisitivo que buscam diversificar seus ativos, o que, paradoxalmente, poderia gerar empregos e receitas em setores como turismo de luxo.
Em resumo, o simples fato de Delcy Rodríguez ter usado um vestido de 550 euros ao assumir a presidência abre uma janela para entender a complexa teia de riqueza e pobreza que define a Venezuela contemporânea. Enquanto a maioria luta para sobreviver, uma minoria mantém um estilo de vida que parece alheio à crise. Essa coexistência de extremos é o que faz da Venezuela um caso tão singular nos debates sobre desigualdade, sanções e políticas econômicas.
E você, o que pensa quando vê esse contraste tão grande? Acredita que o luxo pode sobreviver em meio a uma crise profunda, ou vê isso como um sinal de que a situação pode piorar ainda mais? Deixe sua opinião nos comentários – a discussão está apenas começando.



