Quando ouvi falar que Elon Musk, o mesmo cara que vende foguetes e carros elétricos, teria comandado um programa federal nos Estados Unidos prometendo “economia trilionária”, confesso que fiquei cético. Mas a realidade acabou sendo bem mais curiosa – e um tanto quanto absurda – do que qualquer teoria da conspiração.
O Departamento de Eficiência Governamental, conhecido pela sigla DOGE, foi criado durante a segunda gestão de Donald Trump com o objetivo de cortar gastos e tornar a máquina pública mais enxuta. A ideia, à primeira vista, parecia boa: menos burocracia, mais produtividade e, claro, mais dinheiro no bolso do contribuinte.
Mas o que aconteceu nos bastidores? Um estudo recente da organização Peer – Public Employees for Environmental Responsibility – revelou que, ao invés de economizar, o DOGE acabou gerando um prejuízo de US$ 10 bilhões. Como? Ao afastar mais de 154 mil servidores federais em licença remunerada, o governo acabou pagando salários de quem não estava trabalhando.
### Como surgiu o plano “milionário”
A proposta de Musk ganhou força logo após sua visita à Casa Branca em março de 2025, onde apareceu usando uma camiseta com a palavra “DOGE” estampada. O gesto virou meme instantâneo, mas também serviu como propaganda para o programa que prometia cortar até US$ 2 trilhões de despesas públicas. Na prática, a meta era reduzir a folha de pagamento federal, algo que, em teoria, traria benefícios para toda a população.
Entretanto, a estratégia adotada acabou sendo o oposto:
– **Licenças remuneradas em massa:** mais de 154 mil servidores foram colocados em licença, o que, segundo a lei, deveria ser limitado a 10 dias úteis por ano.
– **Criação de categorias especiais:** o governo criou novas categorias de licença para driblar a restrição legal, algo que especialistas chamam de “buraco negro de prestação de contas”.
– **Falta de pessoal em áreas críticas:** setores como o Serviço Nacional de Parques e a Agência de Proteção Ambiental ficaram sem profissionais suficientes, comprometendo a eficácia das políticas públicas.
### Por que isso importa para nós, brasileiros?
Mesmo que o caso pareça distante – afinal, estamos falando da burocracia americana – ele traz lições valiosas para o debate sobre eficiência no Brasil. Primeiro, ele mostra como promessas de corte de gastos podem ser usadas como ferramenta política, mas sem um plano de implementação realista.
Se olharmos para nossos próprios programas de austeridade, vemos padrões semelhantes: metas ambiciosas anunciadas em campanha, mas que, na prática, acabam gerando desperdício ou simplesmente não são cumpridas. O exemplo do DOGE nos lembra que:
1. **Transparência é essencial.** Sem clareza sobre quem está sendo afastado e por quê, a população nunca saberá se o programa está realmente economizando.
2. **Leis precisam ser respeitadas.** Contornar a Lei de Licença Administrativa pode até parecer um atalho, mas gera riscos jurídicos e éticos.
3. **Avaliações independentes são fundamentais.** O estudo da Peer foi crucial para trazer à luz o que estava acontecendo. No Brasil, precisamos de mais órgãos e ONGs capazes de fiscalizar esses projetos.
### O que os especialistas dizem
Peter Jenkins, assessor jurídico da Peer, descreveu o gasto de US$ 10 bilhões como “uma forma absurda de administrar o governo”. Já Madeline Materna, pesquisadora de Stanford, apontou que a combinação de regras complexas e lacunas legais cria um ambiente onde é quase impossível responsabilizar os gestores.
Essas análises reforçam um ponto importante: a eficiência não nasce de medidas superficiais, mas de um conjunto de práticas bem estruturadas, que incluem:
– **Planejamento detalhado:** antes de implementar cortes, é preciso mapear quais áreas são críticas e quais podem ser otimizadas.
– **Monitoramento constante:** indicadores claros ajudam a acompanhar se o objetivo está sendo alcançado.
– **Participação da sociedade:** quando a população tem voz, há menos espaço para manobras que visam apenas o discurso político.
### O futuro do DOGE e possíveis desdobramentos
A Peer já apresentou uma denúncia ao órgão de controle de gastos federais dos EUA. Caso a irregularidade seja confirmada, dirigentes podem ser punidos, mas o processo depende de autoridades que, muitas vezes, têm interesses alinhados ao governo.
Para nós, o que fica? O caso ainda está em aberto, mas serve como alerta: promessas de economia gigantesca precisam ser acompanhadas de transparência, responsabilidade e, sobretudo, de um plano realista.
### Como aplicar essa lição no dia a dia
Você pode estar se perguntando: “E eu, o que faço com isso?”. A resposta está na forma como você acompanha e cobra os seus representantes. Aqui vão algumas dicas práticas:
– **Fique de olho nas notícias locais:** muitas vezes, projetos de eficiência são anunciados em nível municipal ou estadual.
– **Participe de audiências públicas:** elas são uma oportunidade de questionar gestores e obter informações detalhadas.
– **Use ferramentas de transparência:** sites como o Portal da Transparência permitem verificar gastos públicos.
– **Exija prestação de contas:** se um programa promete cortar custos, peça relatórios mensais ou trimestrais.
### Conclusão
O programa de Elon Musk nos EUA, que prometia economizar trilhões, acabou custando bilhões. Essa história, embora pareça um caso isolado, reflete desafios universais de como governos tentam ser mais eficientes. No Brasil, ainda temos muito a aprender sobre como transformar promessas em resultados concretos.
Se algo ficou claro, é que a eficiência real vem da combinação de boas políticas, fiscalização rigorosa e participação cidadã. E, enquanto houver espaço para o debate, podemos esperar que, ao menos, os próximos projetos sejam mais transparentes e menos propensos a desperdiçar o dinheiro que, no fim das contas, vem do nosso bolso.
**Vamos ficar atentos e cobrar mais do que palavras bonitas – queremos resultados reais.**



