Quando Elon Musk apareceu na Casa Branca usando uma camiseta com a palavra DOGE, muitos acharam que era só mais um truque de marketing. Mas, por trás da foto, havia um plano ambicioso chamado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), criado durante a segunda gestão de Donald Trump. A ideia era simples: cortar gastos e tornar o governo mais enxuto. Na prática, o que aconteceu foi bem diferente.
O que era o DOGE e como ele funcionou?
O DOGE foi idealizado como um “departamento de eficiência” que deveria identificar processos burocráticos, eliminar cargos redundantes e, principalmente, reduzir a folha de pagamento federal. Em teoria, o objetivo era economizar trilhões de dólares ao longo dos anos. Na realidade, o que o estudo da organização Peer (Public Employees for Environmental Responsibility) revelou foi que o programa acabou gastando cerca de US$ 10 bilhões apenas para colocar mais de 154 mil servidores federais em licença remunerada.
Essas licenças não eram férias nem afastamentos médicos. Eram licenças pagas, sem a necessidade de trabalhar, criadas sob novas categorias que, segundo a Peer, violavam a Lei de Licença Administrativa – que permite, no máximo, dez dias úteis de licença remunerada por ano, com exceções muito restritas.
Por que a medida acabou custando tanto?
Ao colocar tantos funcionários em licença, o governo continuou pagando salários, benefícios e encargos sociais, sem que houvesse produção de serviços. Isso gerou um efeito colateral inesperado: enquanto os custos aumentavam, setores críticos como o Serviço Nacional de Parques e a Agência de Proteção Ambiental (EPA) ficaram ainda mais escassos de mão de obra.
- Licenças prolongadas: A maioria dos servidores recebeu licenças que duraram meses, algumas vezes o ano inteiro.
- Violação legal: A estratégia de criar novas categorias de licença contornou a lei, gerando dúvidas sobre a legitimidade do programa.
- Falta de transparência: O “buraco negro de prestação de contas” descrito por especialistas dificultou a auditoria e a responsabilização.
O resultado foi um gasto inesperado que, ao contrário da promessa de economia, drenou recursos que poderiam ter sido destinados a áreas carentes.
O que isso significa para o contribuinte americano?
Para quem paga impostos nos EUA, a notícia é um lembrete de que promessas de eficiência podem esconder armadilhas. Quando um programa parece cortar custos, é essencial analisar quem realmente paga a conta. No caso do DOGE, foram os contribuintes que arcaram com a conta dos salários dos servidores afastados.
Além disso, o caso evidencia como a burocracia pode ser manipulada para criar despesas invisíveis. Mesmo com a intenção de reduzir gastos, a falta de fiscalização rigorosa permite que recursos públicos sejam desperdiçados.
Responsabilização e perspectivas futuras
A Peer já apresentou uma denúncia ao órgão de controle de gastos federais. Se a investigação confirmar as irregularidades, dirigentes de agências poderiam ser punidos, embora o processo dependa de autoridades que, muitas vezes, têm ligações com o próprio governo.
Especialistas como Madeline Materna, da Universidade Stanford, apontam que a complexidade das regras e a existência de lacunas legais criam um ambiente propício para que iniciativas como o DOGE escapem da supervisão. “Há estratégias que tornam extremamente difícil levar o caso aos tribunais ou a órgãos de controle”, afirma Materna.
O que podemos aprender com essa experiência?
Para nós, leitores brasileiros, o caso do DOGE traz lições valiosas:
- Transparência é fundamental: Qualquer programa de corte de despesas deve ser acompanhado de auditorias independentes e relatórios claros.
- Legislação clara evita brechas: Leis bem definidas sobre licenças e benefícios ajudam a impedir abusos.
- Fiscalização contínua: Órgãos de controle precisam ter autonomia e recursos para investigar possíveis desvios.
- Participação cidadã: A sociedade civil, como a Peer, tem um papel crucial ao monitorar e denunciar práticas inadequadas.
Se o objetivo é realmente economizar, a solução não está em criar novos departamentos que prometem milagres, mas em melhorar a gestão dos recursos já existentes, com foco em eficiência real e responsabilidade.
Conclusão
O programa DOGE, liderado por Elon Musk, começou como uma promessa de economia trilionária e terminou em um prejuízo de US$ 10 bilhões. O caso serve como alerta para que políticas de eficiência sejam acompanhadas de transparência, fiscalização e, sobretudo, respeito às leis que protegem o dinheiro dos contribuintes. Enquanto isso, o debate sobre como tornar o governo mais eficiente continua, e talvez a lição mais importante seja que “cortar custos” não pode ser sinônimo de “pagar mais” ao cidadão.



