Se você acompanha as notícias de tecnologia e política, provavelmente já ouviu falar do famoso programa “DOGE” – Departamento de Eficiência Governamental – que prometia economizar trilhões de dólares nos EUA. A ideia, apresentada durante a primeira fase do governo Trump e comandada por ninguém menos que Elon Musk, parecia um conto de fadas para quem sonha com um Estado enxuto e barato. Mas a realidade, segundo um estudo recente da organização Peer (Public Employees for Environmental Responsibility), foi bem diferente: o programa acabou gerando um déficit de US$ 10 bilhões, ao colocar mais de 154 mil servidores federais em licença remunerada.
Para quem não está familiarizado, o conceito por trás do DOGE era simples: reduzir custos ao afastar funcionários que supostamente não eram essenciais, permitindo que o governo cortasse salários e, assim, liberasse recursos para outras áreas. Na prática, porém, o que aconteceu foi um verdadeiro paradoxo – o governo continuou pagando salários de quem estava de licença, sem que esses servidores estivessem efetivamente trabalhando.
O levantamento da Peer mostra que, ao longo de 2025, mais de 154 mil funcionários federais – cerca de 7% do funcionalismo civil dos EUA – foram colocados em licença remunerada. Isso inclui profissionais de agências críticas como o Serviço Nacional de Parques e a Agência de Proteção Ambiental (EPA). O impacto? Uma folha de pagamento inflada que drenou recursos públicos, ao mesmo tempo em que áreas essenciais enfrentavam falta de pessoal.
Mas por que isso aconteceu? A resposta está nos detalhes da legislação de licenças. A Lei de Licença Administrativa dos EUA permite até dez dias úteis de licença remunerada por ano, com exceções bem restritas. O DOGE, segundo a Peer, criou novas categorias de licença para contornar esse limite, o que, na visão dos críticos, viola a lei e abre precedentes perigosos para futuras gestões.
Além da questão legal, há um ponto que vale a pena refletir: a eficiência não se mede apenas pelo número de pessoas afastadas, mas pelo resultado do trabalho que elas entregam. Quando você coloca milhares de servidores em licença, ainda paga salários, mas perde a capacidade de executar políticas públicas. É como fechar lojas de um supermercado para economizar energia, mas ainda pagar o aluguel.
Especialistas como Madeline Materna, da Universidade Stanford, apontam que o “buraco negro de prestação de contas” criado por essa estratégia dificulta a responsabilização. As regras são complexas, a regulamentação tem lacunas e as mudanças administrativas são frequentes. Isso gera um ambiente onde o controle efetivo dos gastos públicos se torna quase impossível.
Para nós, cidadãos comuns, o que isso significa na prática? Primeiro, que o dinheiro dos contribuintes não está sendo usado da forma mais transparente possível. Segundo, que promessas de grandes cortes de gastos podem esconder mecanismos que, na realidade, aumentam o gasto de forma velada. Quando vemos manchetes sobre “corte de US$ 2 trilhões”, precisamos olhar além do número e entender como esses cortes são implementados.
É fácil se deixar levar pelo brilho de nomes como Elon Musk, que trazem à tona a ideia de inovação e eficiência. No entanto, a experiência do DOGE mostra que a simples presença de um “guru da tecnologia” não garante resultados positivos no setor público. A gestão governamental tem particularidades – burocracia, processos legais, responsabilidade social – que não podem ser simplificados como um algoritmo de otimização.
O que podemos aprender com esse caso?
- Transparência é fundamental: Sem dados claros e auditáveis, qualquer programa de corte pode se transformar em desperdício.
- Legalidade acima de tudo: Ignorar leis existentes para acelerar metas cria riscos de processos e prejuízos.
- Eficiência não é sinônimo de menos gente: Reduzir o número de funcionários não garante melhor performance; é preciso analisar produtividade e resultados.
- Vigilância da sociedade civil: Organizações como a Peer são essenciais para apontar irregularidades e pressionar por mudanças.
Se olharmos para o futuro, o caso DOGE pode servir de alerta para outras nações que buscam “reformas milagrosas”. A tendência de usar a imagem de figuras de tecnologia para legitimar políticas públicas pode continuar, mas o público deve exigir provas concretas, auditorias independentes e, sobretudo, respeito às normas legais.
Em última análise, a lição aqui não é que a inovação seja ruim, mas que ela precisa ser aplicada dentro de um marco institucional sólido. Caso contrário, o que parecia ser uma solução de “corte de custos” pode se transformar em um enorme buraco nas contas públicas – como aconteceu nos EUA, onde US$ 10 bilhões foram gastos em licenças que, na prática, não produziram nenhum serviço.
E você, o que pensa sobre esse tipo de iniciativa? Já viu propostas semelhantes em seu país? Compartilhe sua opinião nos comentários – a discussão é a primeira ferramenta que temos para evitar que promessas vazias se tornem prejuízos reais.



