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O Dilema de Milei: Entre a China e a Trump – Como a Argentina pode equilibrar dois gigantes

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O Dilema de Milei: Entre a China e a Trump – Como a Argentina pode equilibrar dois gigantes

Quando eu li a manchete ‘O dilema de Milei: como manter suas negociações com a China sem desagradar a Trump?’, confesso que a primeira reação foi de curiosidade. Não é todo dia que vemos um presidente latino‑americano tentando conciliar duas potências tão opostas. O que acontece nos corredores do Palácio da Casa Rosada tem reflexos que vão muito além da fronteira argentina, e eu acho que vale a pena destrinchar isso em detalhes.



Um pano de fundo rápido: quem é Javier Milei?

Javier Milei chegou ao poder em 2023 como um autoproclamado anarcocapitalista, prometendo cortar o Estado ao máximo e acabar com o que chamava de “comunismo econômico”. Na campanha, ele chegou a dizer que não faria negócios com a China ou com nenhum comunista. Mas, como costuma acontecer na política, a prática acabou sendo bem diferente da retórica.

Por que a China é tão importante para a Argentina?

Olha só os números: a China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, representando 23,7 % das importações e 11,3 % das exportações no último ano, segundo o INDEC. Os setores que mais recebem investimento chinês são energia, lítio e infraestrutura. Sem falar no swap cambial de US$ 5 bi, renovado para 2024‑2025, que ajuda a reforçar as reservas internacionais do país.

  • Exportações para a China: soja, carne bovina e lítio.
  • Importações em alta: produtos de consumo de empresas como Temu e Shein (+274,2 %).
  • Carros elétricos BYD chegam em janeiro – cerca de 5 mil unidades.

Esses números mostram que romper os laços com Pequim seria, na prática, inviável. A China oferece capital, tecnologia e um mercado de consumo enorme para produtos argentinos.



O outro lado da moeda: a pressão dos EUA sob a liderança de Trump

Donald Trump, desde que voltou ao poder, tem reforçado a chamada “Doutrina Donroe”, uma releitura da Doutrina Monroe. A ideia é clara: os EUA podem intervir na América Latina se perceberem que seus interesses estão ameaçados. Para Trump, a presença chinesa na região é um risco estratégico.

Em outubro, Washington concedeu à Argentina uma linha de crédito de US$ 20 bi – um apoio significativo em meio à crise cambial. Além disso, militares dos EUA visitaram bases em Ushuaia e o campo de xisto de Vaca Muerta, sinalizando interesse em recursos estratégicos.

Como Milei tenta conciliar os dois mundos?

O presidente argentino tem adotado uma postura pragmática. Em Davos, ele declarou que a China é “uma grande parceira comercial” e que isso “não entra em conflito” com o alinhamento geopolítico com os EUA. A lógica dele parece ser separar a esfera econômica (China) da esfera de segurança (EUA).

Mas será que essa separação vai durar? Analistas como Patricio Giusto, do Observatório Sino‑Argentino, apontam que a dependência econômica da China pode limitar a autonomia política de Buenos Aires, especialmente se Trump decidir impor condições ao comércio.



O que isso significa para o cidadão comum?

Para quem mora nas ruas de Buenos Aires, o dilema de Milei tem impactos bem concretos:

  • Preços dos alimentos: A soja e a carne exportadas para a China ajudam a equilibrar a balança comercial, mas também podem influenciar os preços internos.
  • Empregos no setor energético: Investimentos chineses em lítio e energia renovável criam vagas, mas também trazem concorrência.
  • Estabilidade cambial: O swap cambial com a China protege a moeda, mas depende de acordos que podem ser revistos se a pressão dos EUA aumentar.

Em resumo, a política externa de Milei tem um efeito dominó na vida cotidiana, desde o custo do pão até a disponibilidade de energia limpa.

Possíveis cenários para os próximos anos

Vamos imaginar três caminhos que podem se desenrolar nos próximos 12‑24 meses:

  1. Alinhamento total com os EUA: Milei cede à pressão de Trump, reduzindo acordos com a China. Isso poderia trazer mais apoio militar e econômico dos EUA, mas arriscaria uma queda nas exportações argentinas e um aumento da vulnerabilidade cambial.
  2. Equilíbrio pragmático: O presidente mantém o swap cambial e os investimentos chineses, enquanto continua a apoiar as iniciativas de segurança dos EUA. Essa estratégia exige diplomacia fina e pode ser a mais sustentável, embora dependa de um relacionamento estável com ambos os lados.
  3. Virada rumo à China: Caso a pressão de Trump diminua ou a Argentina enfrente uma crise econômica aguda, Milei pode optar por aprofundar os laços com Pequim, potencialmente afastando os EUA. Isso traria capital imediato, mas poderia gerar isolamento político no hemisfério ocidental.

Qual desses caminhos parece mais provável? Eu acredito que o segundo cenário – o equilíbrio pragmático – tem mais chance de se concretizar. Milei tem demonstrado que, apesar da retórica anti‑comunista, ele entende que a economia argentina não pode se fechar para o maior parceiro comercial da região.

Conclusão: o futuro da Argentina entre dois gigantes

O dilema de Milei ilustra bem o que muitos países latino‑americanos enfrentam hoje: a necessidade de atrair investimento e comércio de uma potência global (China) ao mesmo tempo em que mantêm laços estratégicos com outra (EUA). A diferença aqui é que o presidente argentino tem uma postura ideológica muito mais alinhada aos EUA, o que cria um atrito interno.

Para nós, leitores que acompanham a política internacional, a história de Milei serve de alerta: promessas de campanha podem mudar rapidamente quando a realidade econômica bate à porta. E, no fim das contas, são os argentinos – e não os líderes – que sentirão na prática as consequências dessas decisões.

E você, o que acha? Vale a pena sacrificar parte da soberania econômica para garantir apoio militar? Ou seria melhor aceitar a presença chinesa como parte inevitável da nova ordem mundial? Deixe sua opinião nos comentários – adoro ler diferentes pontos de vista!