Na última terça‑feira, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou a nomeação de Calixto Ortega Sánchez como vice‑presidente da área econômica. Pode parecer mais um detalhe de bastidores políticos, mas, se a gente parar para pensar, essa mudança tem reflexos que vão além das fronteiras de Caracas.
Para quem não acompanha de perto a crise venezuelana, vale lembrar que o país vive uma das maiores turbulências econômicas da história recente: hiperinflação, desvalorização da moeda em quase 500 % e um mercado de petróleo que oscila entre a esperança e o medo. Nesse cenário, o papel de quem dirige a política econômica ganha ainda mais peso.
Quem é Calixto Ortega Sánchez?
Ortega não é um desconhecido. Ele comandou o Banco Central da Venezuela de 2018 a 2025, período em que o país viu a moeda oficial perder quase metade do seu valor. Antes disso, atuou na indústria petrolífera, um setor que ainda representa a espinha dorsal da economia venezuelana.
Essas duas experiências – bancária e petrolífera – podem ser vistas como duas faces da mesma moeda: a necessidade de equilibrar a escassez de divisas com a produção de petróleo, que é a principal fonte de receita externa.
O que muda na prática?
- Política de câmbio: Delcy já havia flexibilizado os controles e liberado o uso do dólar. Ortega pode aprofundar essa liberalização, tentando estabilizar o bolívar e reduzir a corrida ao dólar.
- Investimento estrangeiro: Com a pressão dos EUA sobre as reservas de petróleo, qualquer sinal de abertura pode atrair olhares de investidores que ainda veem potencial no campo petrolífero.
- Inflação: A meta de crescimento de 6,5 % para 2025, citada pela CEPAL, parece otimista, mas depende de controle inflacionário. Uma gestão mais técnica pode trazer medidas menos populistas e mais focadas em estabilidade.
Por que isso importa para nós, brasileiros?
Mesmo que a Venezuela esteja a milhares de quilômetros, a nossa economia sente os efeitos de perto. O Brasil é um dos maiores parceiros comerciais do país vizinho, especialmente na compra de petróleo e na exportação de alimentos.
Se a nova equipe econômica conseguir estabilizar a moeda e melhorar a produção de petróleo, podemos ver:
- Preços mais estáveis dos combustíveis importados.
- Menor risco de fluxos migratórios forçados, que costumam sobrecarregar cidades fronteiriças.
- Possibilidade de renegociação de dívidas e acordos comerciais que beneficiem ambos os lados.
Desafios que ainda persistem
Não é pouca coisa. A desvalorização de 500 % da moeda ainda é um fantasma que assombra a confiança dos investidores. Além disso, o embargo dos EUA, vigente desde 2019, continua limitando o acesso da Venezuela a mercados financeiros internacionais.
Especialistas acreditam que, com Delcy no comando e Ortega na economia, pode haver uma flexibilização do embargo – mas isso depende muito da política externa americana, que tem mantido sanções como ferramenta de pressão.
O que esperar até 2026?
Delcy afirmou que a meta é consolidar os resultados de 2025 e avançar ainda mais até o fim de 2026. Isso implica que a nova equipe tem um horizonte de médio prazo para provar que suas políticas funcionam.
Se eles conseguirem melhorar a confiança interna, reduzir a inflação e atrair algum investimento estrangeiro, poderemos testemunar um lento, mas significativo, retorno da Venezuela ao comércio regional. Para nós, isso pode significar menos volatilidade nos preços de energia e mais oportunidades de negócios transfronteiriços.
Mas, como toda mudança política em um país em crise, há riscos. A população ainda enfrenta escassez de produtos básicos, e qualquer passo em falso pode gerar protestos e ainda mais instabilidade.
Conclusão
Em resumo, a nomeação de Calixto Ortega Sánchez não é apenas um detalhe de gabinete; é um sinal de que a Venezuela está tentando reorganizar sua política econômica em meio a uma das maiores crises da região. Para nós, brasileiros, isso pode traduzir‑se em preços mais estáveis, menos pressão migratória e, quem sabe, novas oportunidades de comércio.
Fique de olho nas próximas notícias, porque o que acontece em Caracas pode, em poucos meses, aparecer na sua conta de luz ou no supermercado da esquina.


