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Novo chefe da economia na Venezuela: o que a mudança significa para a crise e para o Brasil

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Novo chefe da economia na Venezuela: o que a mudança significa para a crise e para o Brasil

Na última terça‑feira (6), a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou a nomeação de Calixto Ortega Sánchez como novo vice‑presidente da área econômica. Pode parecer apenas mais um ajuste de gabinete, mas, quando a gente olha o contexto – hiperinflação, desvalorização de quase 500% da moeda e pressão internacional – a troca tem implicações que vão muito além das fronteiras de Caracas.



Quem é Calixto Ortega Sánchez?

Ortega não é um desconhecido nos corredores do poder venezuelano. Entre 2018 e 2025, ele presidiu o Banco Central da Venezuela, período em que o país enfrentou algumas das maiores quedas do bolívar. Antes disso, trabalhou na indústria do petróleo, setor que ainda é a principal fonte de receita do país, apesar das sanções internacionais.

Essas duas experiências – controle monetário e gestão de petróleo – podem ser vistas como um combo que Delcy quer colocar em prática: estabilizar a moeda enquanto tenta extrair o máximo das reservas de petróleo para financiar a recuperação.



Por que a mudança agora?

Delcy Rodríguez assumiu o governo interinamente após a captura de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, pelos EUA. Ela herdou um cargo que ocupava até a queda de Maduro, incluindo a coordenação da política econômica. O momento é delicado: a economia está em frangalhos, mas a presidente interina ainda tem o apoio de setores militares e de parte da população que espera alguma melhora.

Em entrevista à TV estatal, Delcy citou a projeção da Cepal de 6,5% de crescimento para 2025 e afirmou que até o fim de 2026 pretendem consolidar os resultados de 2025 e avançar ainda mais. Essa meta pode soar otimista, mas reflete a tentativa de sinalizar estabilidade aos investidores e, principalmente, aos países vizinhos, como o Brasil.

  • Objetivo imediato: conter a desvalorização do bolívar e evitar nova hiperinflação.
  • Objetivo de médio prazo: atrair investimentos estrangeiros, principalmente no setor de energia.
  • Objetivo político: mostrar ao mundo que a Venezuela tem um plano de governo coerente, mesmo sob pressão dos EUA.



Impactos para o Brasil

Você pode estar se perguntando: “E eu, que moro no Brasil, como isso me afeta?” A resposta está nos laços econômicos e na geopolítica da região. O Brasil tem sido um dos poucos países que mantêm relações comerciais mais flexíveis com a Venezuela, especialmente na compra de petróleo e na importação de alimentos.

Se a nova equipe econômica conseguir estabilizar a moeda e abrir caminho para a flexibilização do embargo dos EUA (que está em vigor desde 2019), poderemos ver:

  1. Preços de energia mais competitivos: o petróleo venezuelano, ainda que de qualidade variável, pode ser negociado a preços mais baixos, reduzindo custos de produção para indústrias brasileiras.
  2. Oportunidades de exportação: produtos agrícolas brasileiros, como soja e carne, podem ganhar um novo mercado na Venezuela, que sofre escassez de alimentos.
  3. Fluxo de investimento: empresas brasileiras que já operam na região podem ampliar suas operações, criando empregos e gerando divisas.

Mas há riscos. Caso a hiperinflação volte, a instabilidade pode se espalhar para a fronteira, afetando o comércio informal que movimenta bilhões de reais por mês. Além disso, a pressão dos EUA pode intensificar sanções, complicando ainda mais as transações.

Desafios internos da Venezuela

Mesmo com um nome forte como Ortega, a tarefa não é fácil. A desvalorização de 500% da moeda local indica que o controle de preços e a oferta de moeda estrangeira ainda são problemas críticos. A liberalização do uso do dólar, iniciada por Delcy, ajudou a aliviar a escassez de moeda, mas também trouxe um “efeito de fuga” – as pessoas preferem guardar dólares ao invés de bolívares.

Outra questão é a dependência do petróleo. As reservas venezuelanas são enormes, mas a produção está abaixo da capacidade devido a falta de investimento e manutenção. Se o novo líder econômico conseguir atrair parcerias – talvez com empresas chinesas ou russas, que já têm presença no país – pode haver um salto na produção.

O que esperar nos próximos meses?

Eu diria que os próximos seis a doze meses serão decisivos. Se Ortega conseguir implementar políticas que:

  • Reestabilizem o bolívar;
  • Melhorem a transparência nas reservas de petróleo;
  • Facilitem a entrada de capital estrangeiro;

Então poderemos assistir a uma leve recuperação econômica, que, embora não resolva a crise humanitária, pode abrir espaço para negociações diplomáticas mais equilibradas entre Venezuela, EUA e países da América Latina.

Para nós, brasileiros, o melhor caminho é acompanhar de perto as decisões de política econômica venezuelana e, se houver sinais de abertura, avaliar oportunidades de negócio com cautela. Afinal, crises também criam nichos de mercado – e quem está preparado pode tirar proveito.

E você, o que acha dessa nova nomeação? Acha que Ortega tem o perfil para mudar o jogo ou será apenas mais um nome em um governo que já parece estar à deriva? Deixe seu comentário, vamos conversar!