Na última quarta‑feira, a imprensa americana trouxe à tona um caso que, à primeira vista, parece contraditório: a Nike, gigante global do esporte, está sendo investigada pela U.S. Equal Employment Opportunity Commission (EEOC) por suposta discriminação racial contra funcionários brancos. A notícia pegou de surpresa quem acompanha as discussões sobre diversidade e inclusão (DEI) nas grandes empresas.
Para quem não está familiarizado com a EEOC, vale explicar rapidamente: trata‑se da agência federal responsável por fazer cumprir as leis que proíbem qualquer tipo de discriminação no ambiente de trabalho nos Estados Unidos. Quando a comissão acredita que uma empresa pode estar violando essas normas, ela tem poder de abrir processos judiciais e exigir documentos, como aconteceu agora com a Nike.
O que está em jogo? Segundo o documento judicial, a investigação abrange decisões de contratação, promoção, rebaixamento e até demissões. A acusação é de que a Nike teria adotado um “padrão ou prática de tratamento desigual” contra candidatos e funcionários brancos, especialmente em programas de estágio, mentoria e desenvolvimento de liderança. Em termos práticos, isso poderia significar que, em algum momento entre 2018 e 2023, a empresa teria favorecido candidatos de outras etnias em detrimento dos brancos.
Mas por que isso importa para quem está fora dos EUA? Primeiro, a Nike não é só uma marca de tênis; é um símbolo cultural que influencia milhares de empresas ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Quando uma corporação tão visível enfrenta questionamentos sobre suas políticas de DEI, o debate se espalha rapidamente, gerando reflexões sobre como tratamos a diversidade nos nossos próprios ambientes de trabalho.
Segundo, o caso revela uma tensão crescente entre duas correntes: por um lado, a pressão para aumentar a representatividade de grupos historicamente marginalizados; por outro, a necessidade de garantir que as medidas de inclusão não se transformem em exclusão de outros grupos. Essa balança delicada tem sido alvo de críticas tanto de conservadores quanto de ativistas que temem que a justiça social seja usada como pretexto para discriminação inversa.
Como a investigação funciona na prática?
A EEOC enviou uma intimação à Nike pedindo uma série de documentos: critérios de seleção para demissões, registros de como a raça e etnia são monitoradas nas avaliações de desempenho, e detalhes de 16 programas que supostamente teriam restrições raciais. Quando a empresa não entregou tudo dentro do prazo, a comissão recorreu ao tribunal federal do Distrito Leste do Missouri para obrigar o cumprimento.
Vale notar que a EEOC costuma tentar resolver essas questões de forma consensual antes de entrar na justiça. A agência primeiro busca o chamado “cumprimento voluntário”, ou seja, que a empresa forneça as informações sem precisar de ordem judicial. Quando isso falha, a ação judicial é o próximo passo.
O que isso pode mudar nas políticas de DEI?
Se a Nike for considerada culpada, o precedente pode ser significativo. As empresas americanas (e, por extensão, as multinacionais) teriam que rever cuidadosamente como estruturam seus programas de diversidade. Não basta dizer que há metas de inclusão; é preciso provar que essas metas não violam a lei de igualdade de oportunidades.
No Brasil, já vemos um movimento semelhante, embora ainda em estágio incipiente. Algumas companhias adotam programas de “cotas internas” para negros, mulheres e pessoas LGBTQIA+, mas ainda há pouca clareza sobre como equilibrar esses esforços com a garantia de tratamento justo a todos os candidatos. Um caso como o da Nike pode servir de alerta: políticas bem-intencionadas, se mal desenhadas, podem gerar litígios custosos e danos à reputação.
Impacto direto no consumidor
Para nós, consumidores, a notícia pode parecer distante, mas tem reflexos reais. Quando uma marca enfrenta processos judiciais, há risco de instabilidade nos resultados financeiros, o que pode afetar preços, lançamentos de produtos e até a disponibilidade de determinados itens nas lojas. Além disso, a percepção pública pode mudar: consumidores cada vez mais valorizam empresas que demonstram responsabilidade social, mas também esperam transparência e justiça nas práticas internas.
Se a Nike for condenada, poderemos ver campanhas de comunicação focadas em “reparar” a imagem, talvez com novos treinamentos ou ajustes nas políticas de contratação. Isso pode abrir espaço para concorrentes que já tenham práticas mais claras de inclusão, ganhando participação de mercado.
O que podemos fazer enquanto cidadãos e profissionais?
- Informar‑se: acompanhe o desenrolar do caso e veja como ele influencia outras empresas do setor.
- Exigir transparência: se você trabalha em uma empresa que tem programas de DEI, peça relatórios claros sobre como são aplicados e se há métricas de igualdade.
- Participar do debate: converse com colegas, amigos e familiares sobre a diferença entre inclusão positiva e discriminação inversa. O diálogo ajuda a refinar políticas que beneficiem a todos.
- Consumir conscientemente: escolha marcas que demonstram compromisso real com a justiça social, não apenas com o marketing.
Olhar para o futuro
Independentemente do desfecho, o caso da Nike provavelmente vai inspirar outras empresas a revisarem suas práticas internas. A tendência global é que a legislação sobre igualdade de oportunidades se torne mais rigorosa, e as corporações precisarão adaptar seus processos de recrutamento, avaliação e promoção.
No Brasil, podemos esperar que o debate sobre cotas e programas de diversidade ganhe ainda mais força, especialmente à medida que mais casos internacionais chegam ao nosso radar. O desafio será encontrar um ponto de equilíbrio que reconheça as desigualdades históricas sem criar novas formas de exclusão.
Eu, pessoalmente, fico atento a essas mudanças porque elas afetam tanto o ambiente de trabalho quanto a forma como consumimos. Quando as empresas conseguem ser justas e inclusivas ao mesmo tempo, todos ganham: mais talentos, ambientes mais saudáveis e consumidores mais confiantes.
E você, já percebeu alguma prática de DEI na sua empresa que poderia ser melhor explicada ou ajustada? Compartilhe nos comentários – a troca de experiências é a melhor forma de avançarmos juntos.



