Quando li pela primeira vez a notícia de que a Nike está sendo investigada pela EEOC (Equal Employment Opportunity Commission) por suposta discriminação contra trabalhadores brancos, confesso que fiquei meio perplexo. Não é todo dia que vemos uma gigante do esporte, que sempre se posicionou como defensora da diversidade, ser acusada de tratar um grupo racial de forma desfavorável. Mas, como qualquer assunto que mexe com direitos humanos e práticas corporativas, o tema merece ser desmembrado, analisado e, principalmente, entendido de forma prática para quem acompanha o mercado de trabalho ou simplesmente quer saber como essas discussões podem impactar o nosso dia a dia.
O que realmente está acontecendo?
A investigação foi iniciada depois que a EEOC recebeu denúncias de que a Nike teria adotado um “padrão ou prática de tratamento desigual” contra funcionários, candidatos a vagas e participantes de programas de treinamento que se identificam como brancos. Em termos simples, a acusação aponta que decisões de contratação, promoção, rebaixamento, demissão, bem como a seleção para estágios e programas de mentoria, poderiam ter sido influenciadas por critérios raciais que favorecessem pessoas não‑brancas.
Para dar um panorama mais claro, a agência federal pediu à Nike documentos que cobrem um período que vai de 2018 até hoje, incluindo:
- Critérios usados para escolher quem seria demitido;
- Como a empresa monitora e usa dados de raça e etnia nas decisões de remuneração, inclusive de executivos;
- Detalhes de 16 programas de mentoria, liderança e desenvolvimento de carreira que, supostamente, teriam restrição racial.
A Nike, segundo o relato, não entregou todas as informações solicitadas, o que levou a EEOC a entrar com uma ação judicial para obrigar o cumprimento da intimação.
Por que isso importa para nós?
Você pode estar pensando: “Mas eu não trabalho na Nike, nem pretendo trabalhar lá. Por que devo me preocupar?” A resposta está na forma como as políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) são cada vez mais adotadas por empresas de todos os setores. Quando uma empresa tão visível como a Nike enfrenta esse tipo de acusação, o caso serve como um termômetro para todo o mercado.
Alguns pontos que vale a pena refletir:
- Precedente legal: Se a EEOC conseguir provar que a Nike violou leis federais, outras companhias podem ser chamadas a prestar contas de forma ainda mais rigorosa. Isso pode resultar em multas, mudanças forçadas em políticas internas e, em casos extremos, restrições à participação em contratos governamentais.
- Reação dos investidores: Grandes fundos de investimento monitoram de perto questões ESG (Ambiental, Social e Governança). Uma investigação de discriminação pode afetar a avaliação de risco da empresa e, consequentemente, seu preço de ação.
- Impacto nos candidatos: Se as empresas perceberem que programas de DEI podem ser questionados judicialmente, elas podem revisar ou até simplificar esses programas, o que pode mudar a forma como oportunidades de estágio e mentoria são distribuídas.
- Conversa cultural: O debate sobre “discriminação reversa” tem ganhado força nos EUA. Esse caso pode alimentar discussões sobre como equilibrar a promoção de grupos historicamente marginalizados sem criar novas formas de exclusão.
Em resumo, a situação da Nike tem o potencial de redefinir a maneira como as corporações pensam sobre inclusão, não só nos EUA, mas em todo o mundo.
Um breve histórico das políticas DEI na Nike
Para entender o que está em jogo, vale lembrar que a Nike tem investido pesado em iniciativas de diversidade nos últimos anos. Em 2020, após as protestos do movimento Black Lives Matter, a empresa anunciou um plano de $ 100 milhões para apoiar comunidades negras nos EUA. Também lançou programas internos como o “Nike Women’s Leadership Development” e o “Nike Global Inclusion Council”.
Essas ações foram recebidas com aplausos por muitos, mas também geraram críticas de setores que alegavam que a empresa estava “segregando” seus funcionários. A EEOC, ao investigar a Nike, está basicamente testando se as boas intenções da empresa foram traduzidas em práticas que violam a lei.
Como a EEOC funciona e por que sua atuação é relevante
A EEOC é a única agência federal nos EUA com autoridade para investigar e processar empresas privadas por violações das leis de discriminação no emprego. Ela pode entrar com processos judiciais, como está fazendo agora, e tem o poder de impor sanções financeiras e ordens de correção.
Quando a agência identifica indícios de que um programa de DEI pode estar infringindo a lei, ela primeiro tenta obter a cooperação da empresa. Se a empresa não cumprir voluntariamente, a EEOC recorre ao tribunal, como aconteceu no caso da Nike.
O que pode acontecer a seguir?
Existem basicamente três cenários possíveis:
- Acerto amigável: A Nike pode decidir entregar todos os documentos solicitados, negociar um acordo com a EEOC e, possivelmente, pagar uma multa sem admitir culpa. Essa é a solução mais rápida e costuma envolver mudanças internas nos programas de DEI.
- Processo judicial prolongado: Caso a empresa continue a resistir, o caso pode se arrastar por anos, gerando custos legais elevados e exposição midiática constante.
- Absolvição: Se a Nike conseguir provar que suas políticas são neutras e baseadas em mérito, a EEOC pode encerrar a investigação sem penalidades.
Independentemente do desfecho, o caso certamente vai gerar um efeito cascata nas práticas de recursos humanos de outras corporações.
O que as empresas podem aprender com esse caso
Se você é gestor de RH, líder de equipe ou simplesmente alguém interessado em promover ambientes de trabalho justos, vale a pena observar alguns aprendizados práticos:
- Transparência nos critérios: Documente de forma detalhada como as decisões de contratação, promoção e demissão são tomadas. Isso ajuda a demonstrar que não há viés oculto.
- Auditorias internas regulares: Contrate consultores externos para revisar seus programas DEI e garantir que eles estejam em conformidade com a legislação local.
- Treinamento de vieses inconscientes: Invista em capacitação para que gestores reconheçam e mitiguem preconceitos que podem influenciar decisões.
- Comunicação clara: Explique aos funcionários como os programas de mentoria e desenvolvimento são estruturados e quais são os critérios de elegibilidade.
Essas práticas não só reduzem o risco de processos judiciais, como também aumentam a confiança dos colaboradores na empresa.
Como isso pode chegar ao Brasil?
Embora a EEOC seja uma agência americana, o debate sobre políticas de diversidade está se espalhando globalmente. No Brasil, empresas têm adotado cada vez mais programas de inclusão, seja para mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ ou pessoas com deficiência. Se o movimento nos EUA ganhar força e resultar em decisões judiciais que restrinjam certas práticas, é provável que o impacto reverbere aqui.
Alguns pontos a observar:
- Possível aumento da fiscalização por parte do Ministério Público do Trabalho (MPT) em casos de suposta discriminação reversa;
- Necessidade de adequar políticas DEI a normas brasileiras, como a Lei nº 13.467/2017 (Reforma Trabalhista) e a Lei nº 9.029/1995, que proíbe discriminação no trabalho;
- Pressão de investidores internacionais que exigem compliance com padrões ESG globais.
Portanto, o caso da Nike pode servir como um alerta precoce para que as empresas brasileiras revisem seus programas antes que haja um choque regulatório.
Conclusão: um momento de reflexão para todos nós
Não importa se você é consumidor, funcionário ou empresário, a notícia de que a Nike está sob investigação por discriminação contra trabalhadores brancos traz à tona questões fundamentais sobre justiça, meritocracia e a forma como as empresas tentam equilibrar inclusão e igualdade de oportunidades.
Para mim, a história reforça a importância de olhar além dos manchetes e analisar os detalhes: quem está sendo beneficiado? Quem está sendo prejudicado? E, sobretudo, quais são os mecanismos de controle que garantem que boas intenções não se transformem em práticas discriminatórias.
Se a Nike conseguir ajustar seus programas e demonstrar que a política de DEI pode ser justa para todos, talvez tenhamos um exemplo positivo de como grandes corporações podem evoluir. Se, ao contrário, a investigação revelar falhas graves, será um sinal de que ainda temos muito trabalho a fazer para construir ambientes de trabalho realmente inclusivos.
Fique de olho nos próximos desdobramentos – e, se você está envolvido em projetos de diversidade na sua empresa, aproveite esse momento para revisar, questionar e, quem sabe, melhorar ainda mais suas práticas.



