Na última sexta‑feira (19), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deu um sinal de esperança: a maioria dos Estados‑membros da UE deve apoiar o acordo comercial com o Mercosul, o que permitiria a aprovação final. Mas, ao mesmo tempo, o próprio ato de assinatura foi empurrado para janeiro, com a cerimônia prevista para acontecer em Assunção, no Paraguai.
O que realmente está em jogo?
Para quem não acompanha a política comercial de perto, pode parecer só mais um detalhe burocrático. Na prática, esse acordo representa a maior zona de livre‑comércio do planeta, conectando 27 países europeus a quatro nações sul‑americanas (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). A ideia central é reduzir ou eliminar tarifas – tanto de exportação quanto de importação – e alinhar regras sobre bens industriais, agrícolas, investimentos, propriedade intelectual e padrões regulatórios.
Por que o acordo foi adiado?
O adiamento não foi um capricho aleatório. Ele reflete a pressão de alguns países europeus, sobretudo da França, que tem um setor agrícola muito sensível à concorrência de produtos sul‑americanos, que costumam ser mais baratos e produzidos sob normas ambientais diferentes. O presidente francês, Emmanuel Macron, deixou claro que não apoiará o tratado sem salvaguardas adicionais para os agricultores.
Além da França, a Itália também manifestou dúvidas, exigindo que as preocupações dos seus agricultores fossem atendidas. A primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, chegou a dizer que o país poderia assinar o acordo assim que receber respostas concretas, mas que isso depende de decisões da Comissão Europeia.
Quem está a favor?
Do outro lado da bancada, Alemanha e Espanha defendem o pacto. O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, argumentam que o acordo pode compensar as tarifas impostas pelos EUA a produtos europeus e reduzir a dependência da China, ao abrir acesso a minerais e novos mercados. Países nórdicos compartilham desse ponto de vista, vendo no Mercosul uma oportunidade de diversificar fornecedores.
Como funciona a aprovação na UE?
O Conselho Europeu, que reúne representantes dos governos dos 27 Estados‑membros, tem a palavra final. Diferente de uma votação simples, ele exige maioria qualificada: apoio de pelo menos 15 países que representem 65 % da população da UE. Essa regra torna a aprovação mais complexa, porque basta que um pequeno grupo de países – como França, Itália ou mesmo alguns estados menores – bloqueie o avanço.
Impactos para o Brasil e para o consumidor
Para o Brasil, o acordo significa acesso facilitado a um mercado que representa cerca de 450 milhões de consumidores. Produtos como carne bovina, soja, café e frutas poderiam entrar na Europa com tarifas muito menores, aumentando a competitividade dos exportadores brasileiros.
Para o consumidor europeu, a expectativa é de preços mais baixos em itens alimentícios e industriais. Por outro lado, agricultores europeus temem uma concorrência desleal, o que explica as manifestações nas ruas de Bruxelas, onde tratores, batatas e até janelas quebradas marcaram a protestação.
O que eu, como cidadão, devo ficar de olho?
- Preços nas prateleiras: Se o acordo for ratificado, produtos como carne e soja podem ficar mais baratos na Europa, mas também podem chegar ao Brasil com custos menores, beneficiando indústrias que dependem desses insumos.
- Meio ambiente: Uma das críticas mais fortes diz respeito aos padrões ambientais. A UE tem regras rígidas sobre desmatamento e uso de agrotóxicos; o acordo precisará garantir que as exportações do Mercosul cumpram esses requisitos.
- Política agrícola: O futuro dos agricultores europeus está em jogo. A UE pode precisar criar mecanismos de apoio ou compensação para que eles não sejam prejudicados.
- Geopolítica: O pacto pode ser visto como um contrapeso à influência dos EUA e da China. Uma UE mais integrada comercialmente com a América do Sul ganha mais autonomia nas negociações globais.
Qual o cenário para 2025?
Se tudo correr como o esperado, a assinatura oficial acontecerá em janeiro de 2025, seguida de um processo de ratificação nos parlamentos dos países envolvidos. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula tem mantido um tom otimista, destacando que conversou com a primeira‑ministra italiana e acredita que a Itália vai se juntar ao acordo em pouco tempo.
Entretanto, o caminho ainda tem obstáculos. A União Europeia precisa equilibrar os interesses dos agricultores com a necessidade de diversificar suas cadeias de suprimentos. A França e a Itália podem, ainda, usar seu poder de veto para renegociar detalhes, o que pode atrasar ainda mais o processo.
Minha visão pessoal
Confesso que, como alguém que acompanha tanto a política quanto a economia, fico dividido. Por um lado, vejo um enorme potencial de crescimento para o Brasil – mais exportações, mais empregos nas áreas de produção e logística. Por outro, entendo o receio dos agricultores europeus, que temem perder mercado para produtos mais baratos e, em alguns casos, produzidos com menos restrições ambientais.
O que me parece mais importante é que o acordo não seja apenas um documento assinado em um palácio, mas que venha acompanhado de mecanismos de monitoramento e de apoio a setores vulneráveis. Se a UE conseguir criar salvaguardas reais – como fundos de transição para agricultores, auditorias ambientais rigorosas e cláusulas de revisão periódica – o pacto pode ser um modelo de comércio sustentável.
Conclusão
O adiamento da assinatura do acordo Mercosul‑UE é, ao mesmo tempo, um sinal de que ainda há muito a ser negociado e uma oportunidade para que todas as partes ajustem suas expectativas. Para nós, brasileiros, o futuro parece promissor: mais acesso a um mercado poderoso, potencial de crescimento econômico e maior influência nas cadeias globais.
Para os europeus, o desafio será equilibrar a competitividade com a proteção dos seus agricultores e a preservação ambiental. Se isso for alcançado, poderemos ter diante de nós a maior zona de livre‑comércio da história, algo que pode mudar a dinâmica do comércio global nos próximos anos.
Fique de olho nas próximas notícias – o Conselho Europeu ainda tem sessões marcadas, e cada declaração dos líderes pode mudar o rumo desse acordo tão aguardado.



