Radar Fiscal

Mercosul‑UE: Por que o acordo comercial pode mudar a vida dos exportadores brasileiros

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Mercosul‑UE: Por que o acordo comercial pode mudar a vida dos exportadores brasileiros

Na última sexta‑feira, o vice‑presidente Geraldo Alckmin anunciou que a União Europeia deu o aval ao tão aguardado acordo entre o Mercosul e a UE. Depois de 25 anos de conversas, promessas e tropeços, parece que a assinatura está a poucos dias de acontecer, no Paraguai, e a entrada em vigor está prevista para 2026. Mas, mais do que uma notícia de diplomacia, esse tratado tem implicações muito reais para quem produz, vende ou consome produtos no Brasil.



O que realmente está em jogo?

Quando Alckmin disse que 30 % dos exportadores brasileiros – cerca de 9 mil empresas – já vendem para a UE, ele não estava apenas citando números. Ele estava mostrando que quase um terço da nossa indústria já tem laços estreitos com a Europa. Imagine o impacto de reduzir ou eliminar tarifas sobre esses produtos: mais competitividade, preços menores para o consumidor e, potencialmente, mais empregos nas cadeias de produção.



Por que a UE é um parceiro tão importante?

A União Europeia representa 451 milhões de consumidores e um PIB que ultrapassa US$ 22 trilhões. Esse bloco não é só grande em número de habitantes; ele também tem padrões de qualidade, segurança e sustentabilidade que são referência mundial. Para o Brasil, isso significa duas coisas:

  • Portas abertas para exportar produtos com valor agregado: carne, soja, café, mas também bens de tecnologia, moda e até serviços.
  • Pressão para melhorar práticas internas: o acordo inclui compromissos climáticos e de sustentabilidade que podem incentivar investimentos em energia limpa e agricultura de baixo impacto.

Em outras palavras, o tratado não é só sobre tarifas; ele traz um conjunto de regras que podem elevar a qualidade dos nossos produtos e a reputação internacional do Brasil.



Como o acordo pode afetar o seu bolso?

Se você é consumidor, pode notar que alguns produtos importados da Europa cheguem mais baratos. Mas, ao mesmo tempo, as empresas brasileiras que exportam para a UE podem ganhar mais competitividade, o que pode gerar investimentos, mais empregos e, a longo prazo, salários melhores.

Para quem tem um pequeno negócio, a oportunidade de entrar em um mercado de quase meio bilhão de consumidores pode parecer um sonho distante. No entanto, o acordo traz facilidades como:

  • Procedimentos aduaneiros simplificados.
  • Reconhecimento mútuo de normas técnicas, diminuindo a necessidade de certificações duplicadas.
  • Possibilidade de participar de feiras e missões comerciais patrocinadas por agências governamentais.

Esses benefícios podem transformar um produtor local em um exportador de sucesso, desde que ele esteja disposto a adaptar seu produto às exigências europeias.

Os desafios que ainda precisamos enfrentar

Nem tudo são flores. O acordo tem enfrentado forte resistência de agricultores europeus, sobretudo na França, que tem medo de que produtos brasileiros mais baratos prejudiquem suas lavouras. No Brasil, há também setores que temem concorrência aumentada, como a indústria têxtil.

Além disso, a aprovação no Congresso brasileiro ainda é necessária. Cada país do Mercosul terá que adaptar sua legislação interna, e isso pode gerar atrasos. O próprio Alckmin reconheceu que “é difícil ter unanimidade”.

Outro ponto delicado é a relação com os Estados Unidos. Embora o tratado não esteja diretamente ligado ao “tarifaço” norte‑americano, ele pode influenciar negociações de tarifas com os EUA, seja para abrir espaço para produtos brasileiros ou para pressionar por ajustes nas tarifas americanas.

O que isso significa para o agronegócio?

O agronegócio sempre foi o carro-chefe das exportações brasileiras. Com o acordo, produtos como soja, milho, carne bovina e suína podem ganhar ainda mais espaço nas prateleiras europeias, especialmente se os padrões de sustentabilidade forem cumpridos. A UE tem exigências cada vez mais rigorosas em relação ao desmatamento e às emissões de gases de efeito estufa. O Brasil, ao assumir compromissos climáticos dentro do acordo, pode melhorar sua imagem e, consequentemente, negociar melhores preços.

Mas atenção: o cumprimento desses compromissos exige investimentos em tecnologias de monitoramento, certificação e práticas agrícolas mais verdes. Para pequenos produtores, isso pode representar um custo inicial, mas também uma oportunidade de agregar valor ao produto, por exemplo, com selos de “sustentável”.

Impactos na indústria e no setor de serviços

Embora o agronegócio seja o destaque, o acordo também abre portas para a indústria manufatureira e para o setor de serviços. Pense em:

  • Automóveis e peças automotivas, que podem ganhar acesso a normas europeias de segurança e emissões.
  • Produtos farmacêuticos e de cosméticos, que se beneficiam de padrões de qualidade reconhecidos mundialmente.
  • Serviços de tecnologia da informação, onde a UE tem grande demanda por soluções de fintech, saúde digital e educação online.

Esses setores podem se beneficiar de um ambiente regulatório mais harmonizado, reduzindo barreiras técnicas e custos de adaptação.

Como se preparar para aproveitar o acordo?

Se você está pensando em entrar nesse novo cenário, aqui vão algumas dicas práticas:

  1. Faça um diagnóstico de mercado: entenda quais produtos brasileiros têm demanda na UE e quais requisitos de certificação são necessários.
  2. Invista em qualidade e rastreabilidade: os consumidores europeus valorizam transparência. Sistemas de rastreamento podem ser um diferencial.
  3. Busque apoio institucional: o governo brasileiro, por meio de agências como a Apex-Brasil, oferece programas de apoio à exportação.
  4. Adapte-se às normas ambientais: cumpra os compromissos climáticos do acordo para evitar barreiras não‑tarifárias.
  5. Planeje a logística: aproveite os acordos de facilitação aduaneira para otimizar o transporte e reduzir custos.

Essas etapas ajudam a transformar a oportunidade em resultados concretos.

O futuro do comércio global e o papel do Brasil

O Mercosul‑UE pode se tornar o maior bloco de livre comércio do mundo, superando até mesmo o acordo entre a UE e o Reino Unido. Isso coloca o Brasil em uma posição estratégica, como ponte entre a América Latina e a Europa.

Em um cenário onde o protecionismo volta a ganhar força em alguns cantos do globo, acordos como esse reforçam o multilateralismo e mostram que a cooperação ainda pode gerar ganhos mútuos. Para o Brasil, isso significa mais voz nas negociações internacionais e a chance de atrair investimentos europeus em setores como energia renovável, infraestrutura e tecnologia.

Conclusão: um ganha‑ganha que depende de ação

O acordo Mercosul‑UE traz promessas de produtos mais baratos, maior qualidade e investimentos, mas também exige que empresas, agricultores e o próprio governo se adaptem a novas regras. Não é um “bala de prata” que resolverá todos os problemas de uma vez, mas pode ser um catalisador importante para modernizar a economia brasileira.

Se você está no mundo dos negócios, vale a pena começar a se informar agora, antes que as oportunidades se esgotem. Se você é consumidor, prepare‑se para ver novidades nas prateleiras e, quem sabe, encontrar aquele vinho francês com um toque brasileiro de sustentabilidade.

Em última análise, o sucesso desse acordo dependerá da nossa capacidade de transformar promessas em prática. E isso, como sempre, começa com informação, planejamento e disposição para mudar.