Na última semana, os líderes da União Europeia e do Mercosul assinaram um acordo que promete mudar a forma como produtos brasileiros chegam às mesas europeias. Eu, que acompanho de perto as notícias de comércio exterior, achei o momento perfeito para conversar com vocês sobre o que isso realmente traz para o nosso dia a dia.
Um salto de mais de 25 anos
Depois de duas décadas e meia de negociações, o tratado foi firmado em Assunção, Paraguai. Apesar da ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o representante brasileiro, Mauro Vieira, esteve na ponta de lança. A assinatura simboliza, para mim, o fim de um longo período de “sofrimento” que o próprio Lula descreveu como 25 anos de tentativas frustradas. O acordo engloba cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB conjunto que ultrapassa US$ 22 trilhões – números que dão uma ideia do tamanho da oportunidade.
Por que isso importa para quem produz no Brasil?
Se você tem uma pequena fazenda de soja, uma fábrica de calçados ou até um ateliê de moda, a redução de tarifas pode ser um divisor de águas. Atualmente, mais de 82% das importações europeias originadas no Mercosul vêm do Brasil. Com a eliminação gradual de tarifas que hoje chegam a mais de 90% do comércio total entre os blocos, produtos como café, carne, frutas e têxteis podem ficar mais competitivos nos supermercados de Paris, Berlim ou Madrid.
Imagine um produtor de café em Minas Gerais que, hoje, paga tarifas que encarecem o preço final. Com o acordo, ele poderia vender a mesma quantidade por um preço mais próximo do custo de produção, aumentando sua margem ou oferecendo um preço mais atrativo ao consumidor europeu. Essa dinâmica pode abrir portas para novos parceiros, linhas de crédito e até investimentos estrangeiros direto nas cadeias produtivas.
História de negociações que quase não avançavam
O caminho até aqui foi cheio de percalços. Desde a proposta original em 1999, divergências sobre agricultura, proteção de indústrias e padrões ambientais fizeram o acordo tropeçar várias vezes. A Europa, por exemplo, sempre exigiu regras mais rígidas para a preservação da Amazônia, enquanto o Mercosul defendia a soberania dos seus produtores. Só nos últimos anos, com a pressão de cadeias globais de suprimento e a necessidade de diversificar mercados, ambas as partes encontraram um terreno comum.
Brasil não para de buscar novos parceiros
O acordo com a UE não é a única jogada do governo. Desde 2023, o Brasil já assinou acordos com Singapura e com a EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça). Além disso, as negociações avançam com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Vietnã e, em paralelo, há um esforço para ampliar o acordo de preferências tarifárias com a Índia. Recentemente, o Brasil também firmou um marco de parceria estratégica com o Japão. Tudo isso indica uma estratégia clara: não colocar todos os ovos em uma única cesta, mas abrir múltiplas portas ao comércio exterior.
Desafios ainda à frente
Apesar da celebração, o tratado ainda tem um obstáculo importante: a ratificação pelos parlamentos europeus e pelos países membros do Mercosul. Na UE, alguns países ainda têm receios sobre a concorrência agrícola e a proteção ambiental. No Mercosul, questões internas, como a política de tarifas internas e a pressão de setores industriais, podem atrasar a aprovação. Essa fase pode levar anos, mas a assinatura já cria um marco de referência para futuras discussões.
O que muda no seu bolso?
Para o consumidor brasileiro, o impacto pode ser mais indireto, mas não menos relevante. Uma maior presença de produtos europeus no Brasil, como vinhos, queijos e máquinas industriais, pode significar mais opções e, possivelmente, preços mais competitivos, já que o fluxo de comércio tende a equilibrar custos. Por outro lado, produtores locais que ganharem acesso ao mercado europeu podem se beneficiar de um aumento nas exportações, gerando mais empregos e renda nas regiões produtoras.
Em resumo, a parceria Mercosul‑UE abre um leque de oportunidades que vai muito além de números e tarifas. Ela sinaliza uma nova fase de integração econômica, baseada em valores compartilhados como democracia, Estado de Direito e direitos humanos – conforme destacou o presidente Lula. Para quem acompanha de perto o comércio internacional, é um momento de observar como as empresas vão se adaptar, quais setores vão acelerar investimentos e como a política comercial brasileira se posiciona no cenário global.
Fique de olho nas próximas notícias sobre a ratificação e nas análises de especialistas de mercado. Essa é uma daquelas mudanças que, embora pareçam distantes, acabam influenciando a economia do país e, em última análise, o nosso cotidiano.



