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Mercosul e União Europeia: O que muda para o Brasil e por que isso importa para você

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Mercosul e União Europeia: O que muda para o Brasil e por que isso importa para você

Quando ouvi falar que o Mercosul assinou um acordo de parceria com a União Europeia, confesso que minha primeira reação foi “mais um acordo complicado que nunca chega a valer a pena”. Mas, ao mergulhar nos detalhes, percebi que essa assinatura pode transformar a forma como nossos produtos chegam ao exterior e, de quebra, abrir novas oportunidades para quem tem um negócio, trabalha com exportação ou até mesmo para quem só quer entender melhor o cenário econômico do país.



Um pouco de história: por que esse acordo demorou tanto?

São 25 anos de negociações. Desde os primeiros passos nos anos 2000, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – os membros do Mercosul – tentaram alinhar suas regras sanitárias, tarifárias e regulatórias com a UE. Cada bloco tem suas particularidades: a Europa tem normas rígidas de segurança alimentar, enquanto o Mercosul tem um setor agrícola muito forte, mas ainda em desenvolvimento em termos de padronização.

Essa longa jornada gerou frustração, mas também aprendeu lições valiosas: a importância de harmonizar padrões, de criar mecanismos de solução de controvérsias e, principalmente, de entender que comércio não é só sobre números, mas sobre confiança entre parceiros.

O que está realmente no acordo?

O tratado prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas que hoje chegam a mais de 90% do comércio total entre os blocos. Imagine que um produtor de soja no Mato Grosso possa vender seu grão para a Alemanha com tarifas quase nulas. Ou que um fabricante de calçados de São Paulo tenha mais facilidade para importar tecidos europeus sem enfrentar altas taxas. Além das tarifas, o acordo estabelece regras comuns para bens industriais, agrícolas, investimentos e padrões regulatórios – o que significa menos burocracia e mais previsibilidade.

Mas não é só redução de impostos. O texto também inclui capítulos sobre direitos trabalhistas, meio ambiente e direitos humanos, reforçando valores compartilhados entre as duas regiões. Essa parte política pode parecer distante da nossa vida cotidiana, porém ela cria um ambiente de negócios mais estável e atrai investidores que buscam segurança jurídica.



Por que isso importa para o brasileiro comum?

Se você tem um pequeno negócio que produz alimentos artesanais, por exemplo, pode se beneficiar de novos canais de exportação. A UE tem consumidores dispostos a pagar mais por produtos com qualidade certificada. Com tarifas menores, seu preço final no mercado europeu fica mais competitivo, o que pode abrir portas para feiras, distribuidores e até vendas online.

Para quem trabalha no setor de serviços, como tecnologia ou consultoria, o acordo traz uma maior integração de normas de proteção de dados e propriedade intelectual. Isso facilita a prestação de serviços a empresas europeias sem precisar renegociar contratos a cada mudança regulatória.

E tem mais: ao ampliar as exportações, o Brasil pode melhorar sua balança comercial, o que, em teoria, reduz a necessidade de endividamento externo e cria um ambiente macroeconômico mais saudável. Isso pode se refletir em juros mais baixos, menos pressão inflacionária e, consequentemente, no seu bolso.

Além da UE: o Brasil está de olho em outros parceiros

O governo não está colocando todos os ovos numa só cesta. Desde 2023, já concluímos acordos com Singapura e com a EFTA (Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça). Em paralelo, estamos negociando com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Vietnã e buscando ampliar o acordo de preferências tarifárias com a Índia. Cada um desses parceiros traz oportunidades diferentes – tecnologia da Ásia, energia do Oriente Médio, agroexportação para a América do Norte.

Um exemplo recente é a parceria estratégica com o Japão, que pode abrir caminho para investimentos em tecnologia verde e automação industrial. Isso mostra que o Brasil está construindo uma rede de acordos diversificada, reduzindo a dependência de um único mercado.



Desafios que ainda precisamos superar

Apesar do otimismo, o caminho ainda tem obstáculos. Primeiro, a ratificação. O tratado ainda precisa ser aprovado pelos parlamentos de todos os países envolvidos, e dentro da UE isso pode ser um processo longo e politicamente delicado. Questões como a proteção de setores agrícolas sensíveis e a preservação ambiental podem gerar resistência.

Segundo, a adaptação dos produtores brasileiros. Reduzir tarifas é ótimo, mas para competir no mercado europeu é preciso atender a padrões de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade cada vez mais exigentes. Investimentos em tecnologia, certificações e treinamento serão essenciais.

Terceiro, a concorrência. Não somos os únicos a querer vender para a UE. Países como Chile, Argentina e até alguns da África do Sul também buscam espaço. Portanto, o Brasil precisa se diferenciar, seja pela qualidade, seja por nichos de mercado ainda pouco explorados.

O que podemos esperar nos próximos anos?

Se tudo correr bem, nos próximos cinco a dez anos poderemos ver um aumento significativo nas exportações brasileiras para a Europa – especialmente nos setores de carnes, soja, café, calçados e produtos de tecnologia. Isso pode gerar mais empregos nas cadeias produtivas, estimular a modernização de fábricas e incentivar a adoção de práticas sustentáveis para atender às exigências europeias.

Além disso, a presença de investidores europeus pode crescer, trazendo capital para projetos de energia renovável, infraestrutura logística e pesquisa & desenvolvimento. Essa injeção de recursos pode acelerar a transição do Brasil para uma economia mais verde e digital.

Por fim, a própria relação política pode se fortalecer. Quando comércio e valores como democracia e direitos humanos caminham juntos, criamos uma base mais sólida para cooperação em outras áreas, como segurança, educação e ciência.

Como você pode se preparar?

Se você está pensando em exportar, comece agora a analisar os requisitos da UE para o seu produto. Procure certificações reconhecidas, como o selo orgânico europeu ou a certificação GlobalG.A.P. Para quem já atua no mercado interno, vale a pena estudar como adaptar processos para atender a padrões internacionais – isso pode ser um diferencial competitivo.

Se ainda não tem um negócio, mas quer investir, acompanhe de perto as notícias sobre a ratificação do acordo e sobre os setores que receberão mais incentivos. Cursos de comércio exterior, feiras internacionais e networking com associações setoriais são ótimas maneiras de se posicionar.

E, claro, continue acompanhando as discussões políticas. A participação da sociedade civil na cobrança de transparência e de políticas que garantam benefícios reais para trabalhadores e meio ambiente é fundamental para que esse acordo não se torne apenas mais um documento assinado, mas uma ferramenta de desenvolvimento sustentável para todos nós.