Quando eu ouvi pela primeira vez o nome Mercedes‑AMG GT 63 S E Performance, a imagem que veio à cabeça foi a de um carro de corrida, daqueles que vemos nas pistas de Fórmula 1, mas com a capacidade de enfrentar o trânsito de São Paulo, Rio ou Brasília. Não é exagero: a Mercedes realmente colocou dentro de um sedã e de um cupê a tecnologia híbrida mais avançada que tem nas pistas. Neste texto, quero dividir com você tudo o que descobri ao ler o teste do G1, acrescentar alguns contextos e, principalmente, explicar por que esse modelo pode mudar a forma como entendemos “carro de luxo” no Brasil.
Um híbrido que não pensa em economia, mas em velocidade
Ao contrário da maioria dos híbridos de produção, cujo foco principal é reduzir consumo de combustível e emissões, o GT 63 S E Performance tem como missão principal entregar potência máxima. O motor V8 biturbo de 4,0 L gera 612 cv sozinhos; somado ao motor elétrico de 204 cv, o conjunto atinge impressionantes 816 cv e 144,7 kgfm de torque. A bateria de 6,1 kWh, resfriada por um líquido que circula entre 560 células, mantém a temperatura ideal de 45 °C, permitindo que a energia seja liberada de forma constante durante a aceleração.
Arquitetura elétrica de 400 volts: mais energia para as rodas
O fato de operar em 400 volts, ao invés dos 12‑48 volts comuns nos híbridos de passeio, significa que mais energia pode ser enviada diretamente às rodas. O resultado? Em um teste no Circuito Panamericano, o velocímetro ultrapassou os 250 km/h em uma reta de apenas 740 metros e chegou perto dos 300 km/h nas áreas de maior velocidade, tudo isso sem que o carro mostrasse sinais de instabilidade.
Design inspirado na Fórmula 1: asas, difusores e aerofólios ativos
Um dos detalhes que mais impressionam é a asa móvel em formato de aerofólio traseiro, que se ajusta automaticamente conforme a velocidade, tal como acontece nos carros de George Russell e Kimi Antonelli. Além disso, difusores ativos nas laterais e na parte inferior do carro ajudam a gerar downforce, garantindo aderência nas curvas de alta velocidade. Essa tecnologia não é apenas “bonita”; ela permite que o motorista mantenha o controle total, mesmo quando o carro está perto dos 300 km/h.
Freios de cerâmica e carbono: segurança em alta performance
Para conter a força de mais de 800 cv, a Mercedes equipa o GT 63 S E Performance com discos de cerâmica e carbono, capazes de suportar altas temperaturas sem perder eficiência. No teste, o carro reduziu de mais de 250 km/h para cerca de 80 km/h em poucos segundos, sem tremores ou perda de tração. O som da borracha queimando na pista, junto ao ronco inconfundível do V8, cria uma experiência que poucos podem vivenciar.
Conforto que surpreende: de pista ao shopping
Mesmo sendo um carro de desempenho extremo, o interior oferece um nível de luxo que rivaliza com os sedãs executivos. Bancos de couro com função de massagem, ajuste tipo concha que abraça o motorista, painel digital de 12,2 polegadas e central multimídia vertical de 11,9 polegadas são apenas alguns dos detalhes. Fora do modo esportivo, o motor híbrido pode operar com alguns cilindros desativados, reduzindo ruído e consumo – algo que faz diferença em viagens longas.
Modos de condução e limites urbanos
O AMG GT 63 S E Performance traz três modos esportivos, sendo que o teste foi feito no modo “Track”, que libera a maior parte dos limitadores de aceleração. A própria central avisa que esse modo não deve ser usado em vias públicas. Ainda assim, o carro oferece modos mais brandos, com suspensão mais macia e direção menos agressiva, permitindo que o proprietário use o veículo no dia a dia sem sacrificar o conforto.
Preço e concorrência: quem aguenta o bolso?
No Brasil, o preço varia entre R$ 1,6 milhão e R$ 2,3 milhão, dependendo da configuração (sedã de quatro portas ou cupê de duas). O principal concorrente direto é o Porsche Panamera Turbo S E‑Hybrid, que começa em torno de R$ 1,72 milhão, mas não oferece a mesma sensação de “circuito” que o AMG. No segmento de dois lugares, o Porsche 911 GT3, com 510 cv, fica bem atrás dos 816 cv da Mercedes.
O que isso significa para o mercado brasileiro?
Primeiro, demonstra que a Mercedes está disposta a investir em tecnologia de ponta, mesmo em um país onde a maioria dos consumidores ainda busca carros mais econômicos. Segundo, coloca o Brasil no mapa como um dos poucos mercados onde um superesportivo híbrido pode ser adquirido legalmente. Por fim, abre espaço para que outras montadoras considerem trazer versões ainda mais “radicais” para o nosso mercado, talvez até com foco em performance elétrica pura.
Vale a pena comprar?
Se você tem mais de R$ 2 milhões para gastar, ama velocidade, aprecia a engenharia da Fórmula 1 e não se importa em ter um porta‑malas de apenas 203 litros, o GT 63 S E Performance é uma escolha quase irresistível. Mas se a praticidade do dia a dia, o consumo de combustível ou a necessidade de espaço para bagagem são prioridades, talvez seja melhor olhar para um SUV de luxo híbrido, que oferece mais versatilidade sem sacrificar muito o desempenho.
Em resumo, a Mercedes‑AMG entregou um carro que consegue ser ao mesmo tempo um superesportivo de pista e um sedã de luxo para a cidade. É um convite para quem sonha em sentir a adrenalina de uma corrida sem precisar de licença de piloto. Seja qual for a sua decisão, vale a pena ficar de olho nas próximas evoluções dessa tecnologia, que promete chegar cada vez mais perto da nossa realidade cotidiana.



