Na última quinta‑feira (18), a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, enviou um recado que acabou repercutindo nos corredores de Brasília, de Bruxelas e dos campos de soja do Rio Grande do Sul. Ela disse que a Itália está disposta a apoiar o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, mas só depois de ouvir – e atender – as preocupações dos agricultores italianos.
Por que esse acordo ainda gera tanto barulho?
O tratado Mercosul‑UE está em negociação há mais de 25 anos. Quando finalmente foi concluído, em 2020, parecia ser um marco para o comércio global: tarifas reduzidas ou eliminadas para centenas de produtos, maior acesso a mercados e, teoricamente, mais oportunidades para exportadores de ambos os lados.
Mas a realidade é mais complexa. Muitos agricultores europeus – sobretudo franceses, mas também italianos, espanhóis e alemães – temem que a entrada de carne bovina, soja, açúcar e outros produtos sul‑americanos, produzidos sob normas ambientais menos rígidas, possa derrubar os preços internos e desestabilizar o mercado.
Para o Brasil, o acordo representa a chance de vender mais soja, carne e café a preços competitivos, impulsionando a balança comercial e gerando empregos nas regiões produtoras. Para a UE, a proposta traz a oportunidade de diversificar fornecedores e reduzir a dependência de mercados como os EUA e a China.
O papel da Itália: entre a tradição agrícola e a política externa
Meloni, que lidera um governo de direita conservadora, tem que equilibrar duas forças opostas:
- Pressão dos agricultores italianos: os sindicatos rurais organizaram protestos, queimaram pneus nas ruas de Roma e exigem garantias de que o acordo não vai “arruinar” a produção nacional.
- Interesses diplomáticos: a Itália faz parte da UE e, como tal, tem compromisso de buscar consenso para fechar o tratado antes da cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, no Brasil.
Em entrevista com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Meloni teria pedido “uma semana, dez dias, no máximo um mês” para que o governo italiano possa alinhar as respostas às demandas do setor agrícola. Lula, por sua vez, garantiu que levará a mensagem ao Conselho Europeu e aos colegas de bloco.
O que a França e a Alemanha estão fazendo?
Enquanto a Itália parece estar à beira de um “sim” condicionado, a França, liderada por Emmanuel Macron, mantém uma postura mais cautelosa. O presidente francês afirmou que o país não apoiará o acordo sem novas salvaguardas para seus agricultores, especialmente no que diz respeito a carne bovina e aves.
Já o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, defendem que o bloco avance, alegando que o acordo já inclui mecanismos de monitoramento: se o preço de um produto latino‑americano cair 5 % abaixo do preço europeu ou se as importações isentas de tarifas aumentarem mais de 5 %, tarifas de salvaguarda podem ser aplicadas.
Como isso afeta o brasileiro comum?
Para quem mora no interior do Brasil, a discussão pode parecer distante, mas os impactos são bem reais:
- Exportadores de soja e carne podem ganhar acesso facilitado a mercados como a Itália, França e Alemanha, aumentando receitas e possibilitando investimentos em tecnologia.
- Consumidores podem ver preços mais baixos nos supermercados, já que a redução de tarifas costuma ser repassada ao consumidor final.
- Pequenos produtores podem enfrentar concorrência mais forte, sobretudo se as normas ambientais do Mercosul permanecerem menos exigentes que as europeias.
É aqui que entram as salvaguardas. Elas funcionam como um “freio” automático: se o mercado europeu começar a sentir pressão excessiva, o acordo permite a reintrodução de tarifas temporárias. Essa flexibilidade foi negociada exatamente para acalmar os agricultores europeus, mas ainda gera desconfiança.
Um olhar para o futuro: o que esperar da assinatura em Foz do Iguaçu?
Se tudo correr como o esperado, a assinatura final acontecerá no sábado (20) durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul, em Foz do Iguaçu, Paraná. A presença de Lula, da presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen e de líderes europeus reforça a importância política do momento.
Mas a assinatura não garante que o acordo já esteja em vigor. Ainda será necessário que cada país da UE ratifique o tratado em seus parlamentos nacionais – processo que pode levar meses, ou até anos, dependendo da resistência interna.
Para o Brasil, isso significa que o caminho está aberto, mas ainda há trabalho a fazer: adaptar normas ambientais, melhorar a rastreabilidade dos produtos e garantir que os pequenos produtores também se beneficiem da abertura de mercado.
O que eu, como cidadão, posso fazer?
Mesmo que você não seja agricultor, a negociação tem reflexos no seu dia a dia. Aqui vão algumas dicas para acompanhar e, se quiser, participar:
- Fique atento às notícias: portais como G1, Folha e Reuters costumam atualizar os desdobramentos do acordo.
- Converse com produtores locais: se você conhece alguém que trabalha com agricultura, pergunte como ele vê o acordo e quais são as expectativas.
- Participe de debates públicos: muitas universidades e organizações da sociedade civil promovem fóruns sobre comércio internacional. Sua opinião pode ajudar a moldar políticas de apoio ao pequeno produtor.
- Consuma de forma consciente: ao escolher produtos com selo de sustentabilidade, você incentiva práticas agrícolas mais responsáveis, que podem ser um ponto de negociação nas futuras salvaguardas.
Conclusão
O que vemos aqui não é apenas um acordo comercial; é um verdadeiro teste de como blocos econômicos equilibram interesses divergentes. A Itália, que até pouco tempo mostrava sinais contraditórios, pode se tornar um aliado importante para o Mercosul, desde que os agricultores italianos recebam as garantias que pedem.
Para o Brasil, o acordo pode abrir portas, mas também traz a responsabilidade de melhorar padrões ambientais e de produção. O futuro do comércio transatlântico está em jogo, e cada decisão tomada nas mesas de negociação tem um eco direto nas mesas de jantar de milhões de pessoas.
Então, da próxima vez que ouvir alguém falar sobre “tarifas” ou “salvaguardas”, lembre‑se: por trás desses termos há agricultores, exportadores, consumidores e, claro, políticos como Meloni e Lula, tentando encontrar um meio‑termo que beneficie a todos.



