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Macron e o adiamento do Mercosul‑UE: o que isso significa para o nosso prato e para o futuro do comércio

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Macron e o adiamento do Mercosul‑UE: o que isso significa para o nosso prato e para o futuro do comércio

Na última sexta‑feira eu estava lendo as notícias do dia e me deparei com a declaração do presidente francês Emmanuel Macron sobre o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Ele disse que ainda é cedo para saber se o adiamento de um mês será suficiente para atender às exigências da França, mas que espera que sim. Parece papo de diplomata, mas tem tudo a ver com o que a gente coloca na mesa, com o preço dos alimentos e até com a forma como as empresas agrícolas funcionam nos dois continentes.

Um acordo que está em jogo há 25 anos

O tratado Mercosul‑UE começou a ser negociado há mais de duas décadas. O objetivo? Criar a maior zona de livre comércio do mundo, reduzindo ou eliminando tarifas de importação e exportação entre os blocos. Se tudo correr bem, a assinatura final seria no sábado, 20 de dezembro, em Foz do Iguaçu (Paraná), durante a cúpula dos chefes de Estado do Mercosul.

Mas a história não é tão simples. A França, que tem um dos setores agrícolas mais protegidos da Europa, tem sido o principal obstáculo dentro da UE. O governo francês teme que a entrada de produtos sul‑americanos – carne, soja, frutas – a preços mais baixos e com normas ambientais diferentes, possa prejudicar os agricultores franceses.

Por que a França está tão preocupada?

Para entender o ponto de vista de Macron, vale lembrar que a agricultura francesa não é só um negócio; é parte da identidade cultural. Pequenas propriedades familiares, o famoso “terroir” e as políticas de apoio ao campo são pilares da vida rural. Quando se fala em abrir o mercado para concorrentes que produzem a custos menores, o medo é que esses produtores franceses percam competitividade.

  • Preço: Produtos como carne bovina argentina ou soja brasileira chegam ao mercado europeu a preços que muitas vezes ficam abaixo dos custos de produção franceses.
  • Normas ambientais: O Brasil e outros países do Mercosul têm legislações diferentes sobre desmatamento, uso de agrotóxicos e bem‑estar animal. Isso gera críticas de que o acordo poderia incentivar práticas menos sustentáveis.
  • Subsídios: A UE tem políticas de apoio ao agricultor que, segundo os críticos, criam uma vantagem artificial que o Mercosul não possui.

Essas preocupações são reais para quem vive do campo, mas também têm um lado político. O presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, precisou adiar a assinatura para janeiro, após a Itália se alinhar à França e exigir salvaguardas adicionais.

O que muda para nós, consumidores brasileiros?

Se o acordo for finalmente ratificado, os efeitos podem ser sentidos de várias formas:

  1. Produtos mais baratos: A redução de tarifas pode significar preços menores para frutas, carnes e grãos importados da UE. Quem compra vinho francês ou queijos pode ver uma queda nos preços.
  2. Concorrência para produtores locais: Agricultores brasileiros podem enfrentar mais concorrência de produtores europeus, especialmente em setores onde a UE tem tecnologia avançada, como laticínios ou vinhos.
  3. Investimentos: O acordo inclui cláusulas de investimento e propriedade intelectual que podem atrair empresas europeias a investir em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento no Brasil.
  4. Questões ambientais: Há pressão internacional para que o Mercosul adote práticas mais sustentáveis. O acordo pode servir de alavanca para melhorar a imagem verde do agronegócio latino‑americano.

Como a política francesa pode influenciar o futuro do acordo

Macron tem um papel de destaque porque a França representa cerca de 15% do PIB da UE e tem poder de veto nas negociações. Se o presidente francês conseguir que o Conselho Europeu inclua “salvaguardas” – medidas que protejam os agricultores – o acordo pode ganhar uma nova forma:

  • Limites temporários de tarifas para certos produtos agrícolas.
  • Cláusulas de “nível de proteção ambiental” que exijam certificações específicas para produtos sul‑americanos.
  • Compensações financeiras para agricultores que perderem mercado.

Essas medidas podem tornar o tratado mais equilibrado, mas também podem atrasar ainda mais a sua implementação. O que eu vejo é que o adiamento de um mês pode ser apenas a primeira de várias extensões, caso as negociações não avancem como esperado.

O que podemos fazer enquanto isso?

Como consumidores, temos algumas opções para nos posicionar:

  • Informar‑se: Saber de onde vem o alimento que consumimos ajuda a entender o impacto das políticas comerciais.
  • Valorizar a produção local: Comprar de pequenos produtores brasileiros pode ser uma forma de apoiar o agro nacional, especialmente se houver risco de concorrência mais agressiva.
  • Exigir sustentabilidade: Pressionar marcas e governos por certificações ambientais pode incentivar práticas mais verdes, tanto no Brasil quanto na Europa.

Além disso, se você tem algum envolvimento direto com o setor agropecuário – seja como produtor, fornecedor ou mesmo como consumidor consciente – vale a pena acompanhar de perto as próximas reuniões do Conselho Europeu. As decisões que surgirem nos próximos meses vão definir não só o futuro do comércio internacional, mas também a dinâmica dos preços na sua feira ou supermercado.

Olhar para o futuro

O que eu mais me intriga é como esse impasse pode mudar a forma como os blocos comerciais se negociam. Se a França conseguir impor salvaguardas fortes, outros países podem seguir o mesmo caminho, tornando acordos futuros mais complexos, mas talvez mais justos.

Por outro lado, se o acordo for ratificado sem grandes concessões, poderemos estar diante de um modelo de comércio mais liberal, que favorece a competitividade e a integração de cadeias produtivas globais. Isso pode abrir portas para novos investimentos, mas também exigir adaptação rápida dos agricultores que hoje dependem de proteções tarifárias.

Em resumo, o adiamento anunciado por Macron pode ser um sinal de que a negociação ainda tem muito a evoluir. Para nós, que vivemos no meio do agronegócio ou simplesmente gostamos de comer bem, o importante é ficar atento, questionar e, quando possível, apoiar práticas que equilibrem crescimento econômico e preservação ambiental.

E você, o que acha? Será que a França está defendendo um direito legítimo dos seus agricultores ou está bloqueando um acordo que poderia trazer benefícios para toda a cadeia produtiva? Deixe seu comentário, vamos conversar!