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Macron e o adiamento do Mercosul‑UE: o que isso significa para agricultores, consumidores e o futuro do comércio global

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Macron e o adiamento do Mercosul‑UE: o que isso significa para agricultores, consumidores e o futuro do comércio global

Na última sexta‑feira, 19 de dezembro, o presidente da França, Emmanuel Macron, deu um sinal que tem deixado muita gente em dúvida: o adiamento de um mês na assinatura do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul pode ser o tempo que a França precisa para garantir novas salvaguardas ao seu setor agrícola. Mas será que esse prazo extra realmente vai mudar o jogo?

Um acordo que já dura 25 anos em negociação

Para quem não acompanha de perto, vale lembrar que o tratado Mercosul‑UE começou a ser negociado em 1999. São quase duas décadas e meia de conversas, mesas redondas, protestos de agricultores e, claro, muita política de bastidores. O objetivo final? Criar a maior zona de livre comércio do planeta, reduzindo ou eliminando tarifas de importação e exportação entre os dois blocos.

Se tudo correr como planejado, a assinatura oficial aconteceria em Foz do Iguaçu (Paraná) na cúpula de chefes de Estado do Mercosul, no dia 20 de dezembro. Mas, como a própria Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, anunciou, o acordo foi adiado para janeiro. E a razão principal? A pressão de países como a França e a Itália, que temem que a liberalização das tarifas prejudique seus agricultores.

Por que a França está tão resistente?

Macron não tem medo de ser direto: “As contas não fecham e este acordo não pode ser assinado”. Essa frase resume a preocupação dos produtores franceses, que veem nos produtos latino‑americanos – carnes, soja, frutas – uma concorrência potencialmente desleal. Não é só preço; é também a diferença nos padrões ambientais e de uso de agrotóxicos, que muitas vezes são menos rígidos nos países do Mercosul.

  • Preço baixo:** Produtos como carne bovina da Argentina ou soja do Brasil chegam ao mercado europeu com custos de produção menores.
  • Padrões diferentes:** O uso de defensivos agrícolas e a legislação ambiental variam bastante, o que pode gerar desvantagens competitivas para os agricultores europeus.
  • Pressão política:** O lobby agropecuário francês tem forte presença em Bruxelas e consegue mobilizar apoio dentro do Conselho Europeu.

Esses pontos explicam por que a França se tornou o principal obstáculo dentro da UE. Enquanto a maioria dos países europeus já sinalizou apoio ao acordo, a França tem usado seu peso para exigir “salvaguardas” – medidas que protejam o setor agrícola local.

O que muda com o adiamento?

O atraso de um mês pode parecer pouco, mas tem implicações práticas:

  1. Tempo para negociação interna: A França pode usar esse período para definir quais salvaguardas são aceitáveis e pressionar outros membros da UE a apoiar suas exigências.
  2. Revisão de cláusulas: O texto final pode ser ajustado para incluir mecanismos de monitoramento de práticas agrícolas, limites de importação temporários ou compensações financeiras.
  3. Impacto nas expectativas de mercado: Exportadores latino‑americanos, que já se preparavam para a assinatura, terão que adiar seus planos de expansão, o que pode gerar incertezas nos preços de commodities.

Para o consumidor europeu, a mudança pode ser quase imperceptível a curto prazo. Mas, a longo prazo, o acordo pode influenciar a variedade e o preço dos alimentos nas prateleiras. Por outro lado, agricultores brasileiros e argentinos podem sentir um freio nas oportunidades de exportação.

Como funciona a aprovação dentro da UE?

Ao contrário do Parlamento Europeu, onde basta maioria simples, o Conselho Europeu exige maioria qualificada: apoio de pelo menos 15 dos 27 países, que representem 65 % da população da UE. Essa regra torna o processo mais complexo, pois um pequeno grupo de países pode bloquear o tratado.

Atualmente, a França e a Itália são os principais blocos de resistência. Se conseguirem alinhar outros membros – como a Polônia ou a Hungria – a aprovação pode ficar ainda mais distante. Por outro lado, países que veem benefícios econômicos claros, como a Alemanha ou os Países Baixos, podem pressionar por um consenso.

Perspectivas para o futuro

Mesmo com o adiamento, a maioria dos analistas acredita que o acordo ainda tem boas chances de ser ratificado, mas talvez com algumas concessões. Algumas possibilidades que vêm sendo discutidas:

  • Cláusulas de revisão: Um mecanismo que permita reavaliar o impacto nas indústrias agrícolas a cada cinco anos.
  • Compensações financeiras: Um fundo europeu que ajude agricultores franceses a modernizar suas práticas e se tornar mais competitivos.
  • Regulamentações ambientais mais alinhadas: Um esforço conjunto para harmonizar padrões de uso de defensivos e de preservação de áreas naturais.

Essas medidas poderiam acalmar os temores franceses e abrir caminho para que o acordo siga adiante, beneficiando tanto a UE quanto o Mercosul em termos de investimento, tecnologia e acesso a novos mercados.

E para nós, brasileiros?

Se você é consumidor, produtor ou simplesmente alguém que acompanha a política internacional, o que isso significa na prática?

  • Produtores rurais: Fiquem atentos às possíveis mudanças nas tarifas. Um acordo final pode abrir portas para exportar mais soja, carne ou café, mas também pode trazer concorrência de outros países latino‑americanos.
  • Empreendedores de alimentos: O acordo pode facilitar a importação de insumos agrícolas e equipamentos, reduzindo custos de produção.
  • Consumidores: A longo prazo, pode haver mais variedade de produtos importados a preços mais competitivos, mas também um debate maior sobre a origem e a sustentabilidade desses alimentos.

O ponto chave é que, embora a assinatura ainda não tenha acontecido, o processo está longe de ser estático. Cada adiamento, cada negociação de salvaguarda, pode mudar o panorama econômico de forma significativa.

Conclusão: paciência e atenção

O adiamento do acordo Mercosul‑UE, liderado por Macron e apoiado pela Itália, é um lembrete de que o comércio internacional não é só números, mas também política, cultura e interesses locais. Enquanto a França busca proteger seus agricultores, o resto da UE e os países do Mercosul ponderam os ganhos de um mercado mais aberto.

Para quem acompanha de perto, vale ficar de olho nas próximas reuniões do Conselho Europeu, nas declarações de Ursula von der Leyen e, claro, nas reações dos produtores agrícolas de ambos os lados. O futuro do acordo ainda tem capítulos por escrever, e cada detalhe pode influenciar o nosso dia a dia – seja no preço do pão, na disponibilidade de frutas exóticas ou nas oportunidades de negócios para exportadores brasileiros.

Se você tem alguma opinião ou experiência com comércio internacional, compartilhe nos comentários. Afinal, entender esses movimentos globais ajuda a gente a se posicionar melhor, seja como consumidor, produtor ou cidadão atento ao que acontece no cenário mundial.