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Macron e o adiamento do Mercosul‑UE: o que isso muda para o nosso prato e o futuro do comércio global

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Macron e o adiamento do Mercosul‑UE: o que isso muda para o nosso prato e o futuro do comércio global

Na última sexta‑feira (19), o presidente francês Emmanuel Macron deu um sinal que tem ecoado não só nos corredores de Bruxelas, mas também nas mesas de jantar de quem compra pão, queijo ou carne. Ele afirmou que o adiamento de um mês na assinatura do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul pode ser a chance que a França precisava para colocar “salvaguardas” a favor dos seus agricultores. Mas, afinal, o que isso tem a ver com a gente? E por que um atraso de 30 dias pode gerar tanto debate?

Um acordo que já dura 25 anos para ser concluído

O tratado Mercosul‑UE começou a ser negociado em 1999, quando a ideia era criar a maior zona de livre comércio do planeta. Se tudo correr bem, ele deve eliminar ou reduzir tarifas de importação e exportação entre os dois blocos, facilitando a circulação de produtos industriais, agrícolas, serviços e até mesmo de propriedade intelectual.

Mas, como toda negociação de longo prazo, o caminho tem sido cheio de reviravoltas. A última grande pedra no sapato veio da resistência de agricultores franceses que temem a concorrência de produtos latino‑americanos mais baratos e produzidos sob regras ambientais diferentes. A França, hoje, lidera a oposição dentro da UE.

Por que a França está tão firme?

Para entender o ponto de vista de Macron, é preciso colocar-se no lugar de um produtor de leite ou de trigo nas planícies da Normandia. Eles recebem subsídios europeus, mas ainda assim sentem que a concorrência de carne bovina da Argentina ou soja do Brasil pode derrubar os preços internos. O medo não é só econômico; há também uma preocupação com padrões de produção, uso de agrotóxicos e preservação de pequenos produtores.

Macron deixou bem claro que, enquanto as “contas não fecharem”, o acordo não será assinado. Ele quer “salvaguardas” – medidas que garantam que os agricultores franceses não sejam prejudicados de forma irreversível. Essas salvaguardas podem ser cotas de importação, regras de origem mais rígidas ou compromissos ambientais mais fortes.

O que mudou nos últimos dias?

  • Adiamento oficial: A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que a assinatura será postergada para janeiro, ao invés de sábado (20) em Foz do Iguaçu, Paraná.
  • Alinhamento da Itália: O país sul‑europeu juntou‑se à França, reforçando a demanda por mais proteções ao setor agropecuário.
  • Revisão das expectativas: Agentes diplomáticos e investidores já começaram a recalibrar suas projeções sobre o impacto do acordo nos mercados globais.

E o que isso significa para o consumidor brasileiro?

Se o acordo fosse ratificado agora, poderíamos esperar, nos próximos anos, uma queda nas tarifas sobre produtos como carne bovina, frango, soja, café e vinho. Para nós, isso poderia significar preços mais baixos nas prateleiras, mas também uma concorrência maior para os produtores locais.

Por outro lado, a demora pode dar tempo para que o Brasil e os demais países do Mercosul ajustem suas políticas agrícolas, adotando práticas mais sustentáveis que atendam às exigências europeias. Isso poderia abrir portas para exportações de produtos premium, com rótulos de “sustentabilidade certificada”, que têm preço mais alto e maior aceitação nos mercados europeus.

Próximos passos e possíveis cenários

O Conselho Europeu, que reúne representantes de todos os Estados‑membros, ainda precisa aprovar o acordo. A regra aqui é de maioria qualificada: ao menos 15 países, representando 65% da população da UE. Se a França e a Itália mantiverem a postura de exigir salvaguardas, o bloco pode precisar renegociar trechos do texto antes de chegar a esse quórum.

Do lado do Mercosul, os países – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – têm forte interesse em fechar o pacto, pois ele representa um salto de bilhões de dólares em exportações. Eles podem oferecer concessões em áreas como padrões de rotulagem ou compromissos com a redução de desmatamento, que são temas sensíveis para a UE.

Em resumo, temos três cenários plausíveis:

  1. Assinatura em janeiro com salvaguardas: O acordo avançaria, mas com regras mais rígidas para produtos agrícolas. Isso poderia proteger os agricultores franceses e, ao mesmo tempo, garantir acesso ao mercado europeu para produtos brasileiros que cumpram os novos critérios.
  2. Nova rodada de negociações: Se as diferenças forem muito grandes, o tratado pode ser adiado novamente, talvez para o segundo semestre de 2025, gerando mais incerteza nos mercados.
  3. Bloqueio total: Caso a UE não consiga chegar a um consenso interno, o acordo pode ser arquivado, o que seria um revés para o Mercosul, que perderia a oportunidade de diversificar seus destinos de exportação.

Como ficar de olho no desenrolar?

Para quem acompanha a economia ou tem negócios ligados ao comércio internacional, vale observar alguns indicadores:

  • Declarações oficiais de Macron e da Comissão Europeia nas próximas semanas.
  • Reações dos sindicatos agrícolas franceses e das associações de exportadores latino‑americanos.
  • Movimentação nos mercados de commodities – especialmente soja, carne bovina e café.
  • Atualizações sobre políticas ambientais da UE, como o “Fit for 55” e o plano de ação contra o desmatamento.

Conclusão: o que eu levo disso?

O adiamento do acordo Mercosul‑UE pode parecer só mais um detalhe da diplomacia internacional, mas tem reflexos diretos no nosso dia a dia. Se o pacto for concluído com salvaguardas, podemos ter produtos mais baratos, mas também uma pressão maior para que produtores brasileiros adotem práticas mais verdes. Se o acordo ficar preso em discussões, o Brasil pode precisar buscar outros mercados ou reforçar a competitividade interna.

Eu, como consumidor e alguém que acompanha a pauta econômica, vejo esse momento como uma oportunidade para cobrar mais transparência e sustentabilidade nos produtos que chegam às nossas mesas. Seja qual for o desfecho, o importante é que a discussão continue – não só nos corredores de Bruxelas, mas também nas fazendas do interior brasileiro e nas prateleiras dos supermercados.

E você, o que acha? Acha que a França tem razão ao proteger seus agricultores, ou deveria abrir mais as portas para a concorrência latino‑americana? Deixe seu comentário e vamos conversar!