Na manhã de 18 de dezembro, em meio ao frio de Bruxelas, o presidente francês Emmanuel Macron deu um recado que ecoou nos corredores da Comissão Europeia e nas feiras de produtores rurais da França: o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul não será assinado enquanto não houver novas salvaguardas para os agricultores franceses.
Por que o acordo UE‑Mercosul está em foco?
Depois de mais de duas décadas de negociações, o tratado visava abrir portas para o comércio de bens e serviços entre os 27 países da UE e os cinco membros do Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Em teoria, a ideia era simples: reduzir ou eliminar tarifas, facilitar investimentos e criar um bloco comercial que competisse com os acordos que os EUA têm com a América Latina.
Mas a prática sempre foi mais complicada. Enquanto a Europa vê a oportunidade de diversificar mercados e impulsionar setores de alta tecnologia, muitos agricultores franceses temem que produtos sul‑americanos – carne bovina, aves, açúcar, soja – cheguem a preços mais baixos, produzidos sob regras ambientais que consideram menos rigorosas.
O que Macron realmente disse?
Em entrevista à imprensa, antes de uma reunião de cúpula da UE, Macron foi direto: “Quero dizer aos nossos agricultores que as contas não fecham e que este acordo não pode ser assinado”. Ele reforçou que a França se oporá a qualquer tentativa de forçar a adoção do pacto, mesmo que a Comissão Europeia tenha prometido “salvaguardas” para proteger setores sensíveis.
Salvaguardas: bastidores de um acordo que ainda não existe
O Parlamento Europeu aprovou recentemente mecanismos de monitoramento que permitem aplicar tarifas caso o preço de um produto latino‑americano fique 5 % abaixo do preço europeu ou se as importações isentas de tarifas aumentarem mais de 5 %. Na prática, são gatilhos que podem ser acionados para proteger produtores locais.
Entretanto, os agricultores franceses consideram essas medidas insuficientes. Eles argumentam que, mesmo com tarifas de salvaguarda, a diferença de custos de produção (incluindo normas ambientais menos exigentes) pode tornar os produtos sul‑americanos ainda mais competitivos.
Quem mais está no jogo?
- Polônia: também se posiciona contra o acordo, temendo impactos negativos em seu setor agropecuário.
- Itália: ainda indecisa. Se alinhar à França e Polônia, pode bloquear o tratado, já que o Conselho Europeu exige apoio de 15 países que representem 65 % da população da UE.
- Alemanha, Espanha e Portugal: defendem a ratificação, apontando benefícios para indústrias de manufatura, serviços e alta tecnologia.
Essa divisão revela como o acordo não é apenas sobre agricultura, mas sobre a estratégia de longo prazo da UE para se posicionar no comércio global.
Impactos para o consumidor brasileiro
Se o acordo fosse ratificado, o Brasil poderia exportar mais carne, soja e açúcar para a Europa sem tarifas, o que poderia reduzir os preços desses produtos nos supermercados europeus. Para o consumidor brasileiro, o efeito seria indireto, mas significativo: um aumento nas exportações pode impulsionar a economia, gerar empregos e, potencialmente, melhorar a balança comercial do país.
No entanto, a oposição francesa pode atrasar ou até impedir esses benefícios. Isso significa que produtores brasileiros podem continuar enfrentando barreiras tarifárias que encarecem seus produtos no mercado europeu.
O que isso traz para o futuro do comércio internacional?
O caso UE‑Mercosul ilustra um fenômeno cada vez mais comum: acordos comerciais são testados não só pelos governos, mas também por grupos de interesse – agricultores, sindicatos, organizações ambientais. Quando esses grupos conseguem pressionar seus governos, o resultado pode ser renegociação, adiamento ou até abandono de tratados.
Além disso, a disputa destaca a crescente importância das salvaguardas ambientais. Consumidores e produtores na Europa estão cada vez mais atentos ao impacto ecológico da produção. Isso força países como o Brasil a repensar suas práticas agrícolas se quiserem acessar mercados premium.
Como o Brasil pode reagir?
Algumas estratégias são possíveis:
- Negociar padrões ambientais: alinhar parte da produção a certificações reconhecidas internacionalmente (por exemplo, certificação de desmatamento zero) pode tranquilizar parceiros europeus.
- Investir em tecnologia: melhorar a produtividade e a rastreabilidade dos produtos pode reduzir custos e atender às exigências de qualidade.
- Diversificar mercados: enquanto o acordo com a UE está em dúvida, o Brasil pode fortalecer laços comerciais com a Ásia, África e América do Norte.
Conclusão: um impasse que vale a pena observar
O posicionamento firme de Macron deixa claro que, para a França, a proteção dos agricultores supera o potencial ganho econômico do acordo. Essa postura pode influenciar outros países europeus e, se a Itália se juntar a Paris e Varsóvia, o tratado pode ser bloqueado.
Para o Brasil, o atraso significa manter o status quo – tarifas ainda em vigor, mas também a oportunidade de usar o tempo a seu favor, aprimorando práticas agrícolas e ambientais. Para a UE, a decisão será um teste de como equilibrar interesses internos com a ambição de ser um bloco comercial mais forte.
Ficaremos de olho nas próximas reuniões do Conselho Europeu e nos movimentos dos agricultores nas ruas de Paris, Bruxelas e outras capitais. Enquanto isso, a pergunta que fica no ar é: vale a pena sacrificar parte da competitividade agrícola em nome de padrões mais rígidos, ou a Europa deve abrir as portas para um comércio que pode trazer benefícios econômicos mais amplos? A resposta pode definir o rumo do comércio transatlântico nos próximos anos.



