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Lula pressiona França e Itália: o que o acordo UE‑Mercosul significa para o agro brasileiro

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Lula pressiona França e Itália: o que o acordo UE‑Mercosul significa para o agro brasileiro

Na última semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um convite direto a Emmanuel Macron e a Giorgia Meloni: assinem o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. A conversa aconteceu enquanto ele se preparava para a reunião da Unasul em Foz do Iguaçu, no Paraná. Para quem acompanha a pauta do agronegócio, esse pedido tem mais de uma camada de significado. Não se trata apenas de diplomacia; trata‑se do futuro da nossa pauta agrícola no cenário global.

Por que esse acordo está em jogo?

O Mercosul – bloco que reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – tem negociado com a UE há quase três décadas. O objetivo principal é abrir mercados: tarifas reduzidas ou zero para produtos industrializados e agrícolas, em troca de acesso ao mercado europeu para bens manufaturados sul‑americanos.

Para o Brasil, o ponto alto do pacto sempre foi o agro. Se o acordo for ratificado, exportadores de soja, carne bovina, milho e café podem ganhar um selo de “acesso preferencial” que reduz custos e aumenta a competitividade frente a concorrentes como os EUA e a Argentina.

O que está impedindo a assinatura?

Apesar do entusiasmo na Brasília, alguns países europeus ainda puxam o freio. A França, liderada por Macron, e a Itália, sob a primeira‑ministra Meloni, manifestaram receios de que o mercado europeu possa ser inundado por produtos agrícolas sul‑americanos, que costumam ser mais baratos devido a custos de produção mais baixos.

Esses temores são alimentados por grupos de lobby agrícola francês e italiano, que temem perder participação de mercado. Além disso, há um componente político: o “povo rebelde” na França, como Lula descreveu, está preocupado com a segurança alimentar e com a preservação de produtores locais.

Como funciona a salvaguarda agrícola?

Recentemente, o Parlamento Europeu aprovou um mecanismo de salvaguarda que permite suspender temporariamente os benefícios tarifários caso a UE entenda que o acordo está prejudicando setores agrícolas internos. Em termos práticos, isso significa que, se os agricultores franceses alegarem perdas significativas, a Comissão Europeia pode acionar uma cláusula que restaura tarifas mais altas por um período determinado.

  • Objetivo: proteger produtores locais sem descartar o acordo.
  • Critério: avaliação de impacto econômico e social nos países membros.
  • Duração: medidas temporárias, revisáveis a cada 2‑3 anos.

Essa ferramenta gera duas reações: por um lado, tranquiliza os críticos europeus; por outro, cria incerteza para os exportadores brasileiros, que não sabem se terão acesso estável ao mercado europeu.

O que isso muda no dia a dia do produtor?

Imagine que você seja um produtor de soja no Mato Grosso do Sul. Hoje, seu principal destino são a China e a Tailândia, que compram a maior parte da produção. Se o acordo UE‑Mercosul for ratificado, a Europa – especialmente a Holanda e a Espanha – pode abrir espaço para sua soja, oferecendo preços mais competitivos e menos barreiras sanitárias.

Mas, se a salvaguarda for acionada, essas tarifas podem voltar a subir, reduzindo a atratividade do mercado europeu. O risco é que o produtor tenha que escolher entre dois grandes compradores, cada um com suas próprias regras de qualidade e certificação.

Para mitigar esse risco, empresas brasileiras já começam a buscar certificações internacionais (como a GlobalG.A.P.) e a firmar contratos de longo prazo com compradores europeus, tentando garantir estabilidade mesmo diante de possíveis ajustes tarifários.

Qual o papel da França e da Itália?

Esses dois países são decisivos porque, para aprovar o acordo, o Conselho Europeu precisa do apoio de pelo menos 15 dos 27 Estados‑membros, representando 65 % da população da UE. França e Itália, juntas, representam mais de 30 % da população europeia. Se um deles se opuser, a maioria qualificada pode ser comprometida.

Além disso, a Polônia e a Hungria também mostraram resistência, mas a França tem um peso político maior nas negociações agrícolas. A Itália, por sua vez, tem um setor agro‑alimentar forte (que inclui vinhos, queijos e massas) e pode usar sua posição como barganha para conseguir concessões em outros setores.

O que Lula espera?

Em sua fala, Lula enfatizou que o Brasil não compete diretamente com a França em termos de qualidade agrícola, mas sim em escala e custo. Ele também apontou que o Brasil está “cedendo mais” ao aceitar mecanismos de salvaguarda, na esperança de avançar nas negociações.

Para o presidente, a assinatura do acordo é um passo estratégico para consolidar a inserção do Brasil nos mercados globais e para fortalecer a posição do Mercosul como bloco negociador. Ele vê o acordo como um caminho para diversificar destinos de exportação, reduzir a dependência da China e aumentar a competitividade dos produtos brasileiros.

Impactos futuros – o que esperar nos próximos meses?

Se o acordo for assinado em Foz do Iguaçu, nos próximos passos teremos:

  1. Implementação gradual das tarifas reduzidas, começando pelos produtos que já têm padrões reconhecidos.
  2. Monitoramento contínuo das salvaguardas, com relatórios trimestrais enviados à Comissão Europeia.
  3. Possível abertura de novos canais de exportação para frutas, café e carnes, que ainda enfrentam barreiras não tarifárias.
  4. Pressão sobre os produtores para melhorar a rastreabilidade e a sustentabilidade, atendendo às exigências europeias.

Para o consumidor brasileiro, a consequência pode ser menos visibilidade direta, mas o fortalecimento da balança comercial pode refletir em mais investimentos no campo, geração de empregos e, a longo prazo, preços mais estáveis dos alimentos.

Conclusão – vale a pena esperar?

Eu vejo esse momento como um teste de paciência e estratégia. Por um lado, a assinatura do acordo pode abrir portas enormes para o agro, mas, por outro, as salvaguardas introduzem um elemento de incerteza que pode desestimular alguns exportadores.

O que fica claro é que a decisão de França e Itália tem repercussões que vão muito além das fronteiras europeias. Ela afeta o preço da soja no mercado futuro, a capacidade de exportação de carne bovina e até a agenda política de Lula, que tem usado o acordo como bandeira de crescimento econômico.

Se você acompanha o mercado agro ou tem alguma ligação com a cadeia produtiva, vale a pena ficar de olho nas próximas reuniões do Conselho Europeu, nos relatórios de salvaguarda e nas negociações bilaterais que podem surgir entre Brasil e países europeus individuais. O futuro do nosso agronegócio pode estar sendo decidido em salas de reunião em Bruxelas, mas o impacto será sentido aqui, nos campos do Paraná, Mato Grosso e em cada mesa de jantar onde o alimento brasileiro chega.

Vamos acompanhar juntos e torcer para que, ao final, o acordo seja um ganha‑ganha para todos – produtores, consumidores e, claro, para a diplomacia brasileira.