Na última semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso que acabou virando assunto de café nas mesas de agricultores, diplomatas e até dos amigos que só acompanham a política de passagem. Ele foi direto ao ponto: “Macron, Meloni, assumam a responsabilidade e assinem o acordo entre a UE e o Mercosul”. Parece simples, mas por trás dessa frase há um cenário cheio de interesses, medos e, claro, muito dinheiro envolvendo o nosso agro.
Por que esse acordo importa tanto?
O Mercosul – bloco que reúne Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – vem negociando com a União Europeia há quase três décadas. O objetivo? Reduzir tarifas, abrir mercados e criar uma ponte comercial que beneficie produtores e consumidores dos dois lados. Para o agronegócio brasileiro, a promessa é clara: acesso facilitado a mais de 500 milhões de consumidores europeus para soja, carne bovina, café, frutas e outros produtos que já são grandes exportadores.
Mas nem tudo são flores. Na Europa, especialmente na França, há um receio forte de que os produtos sul‑americanos, mais baratos por conta de custos de produção menores, inundem o mercado interno e deixem os agricultores locais em apuros. Essa preocupação acabou se transformando em resistência política, e foi exatamente isso que fez o presidente francês Emmanuel Macron hesitar.
O que Lula realmente quer?
Quando eu assisti à entrevista de Lula, percebi que ele não está apenas pedindo um “sim” genérico. Ele quer que os líderes europeus entendam que o Brasil não está competindo com a produção francesa de trigo ou de queijo, mas sim oferecendo algo diferente – como a soja de alta qualidade ou a carne bovina de corte premium. Ele também reforça que o Brasil tem cedido mais em outras áreas do acordo, como questões de direitos trabalhistas e ambientais.
Em termos práticos, o que Lula espera da assinatura?
- Que a UE libere as tarifas reduzidas para produtos agrícolas brasileiros.
- Que os mecanismos de salvaguarda – que permitem suspender benefícios tarifários se houver prejuízo a setores europeus – sejam aplicados de forma equilibrada.
- Que a assinatura aconteça em Foz do Iguaçu, no sábado, como símbolo de parceria sul‑sul.
Entendendo as salvaguardas
Recentemente, o Parlamento Europeu aprovou um texto de salvaguarda mais rígido que o proposto originalmente pela Comissão Europeia. O que isso significa? Basicamente, a UE quer garantir que, se algum setor agrícola europeu sentir que está sendo prejudicado pelos produtos importados do Mercosul, pode pedir a suspensão temporária das tarifas reduzidas.
Essa medida é vista como uma faca de dois gumes:
- Pró: protege os agricultores locais de choques súbitos de oferta.
- Con: cria uma barreira que pode ser acionada com frequência, dificultando a previsibilidade para os exportadores brasileiros.
Para o produtor brasileiro, a questão central é: como garantir que essas salvaguardas não sejam usadas como pretexto para bloquear o comércio? A resposta passa por negociação constante, transparência nos dados de exportação e, claro, pressão política – como a que Lula está exercendo.
Quem tem a palavra final?
O acordo ainda precisa da aprovação do Conselho Europeu, que representa os governos dos 27 Estados‑membros. Para que a decisão seja tomada, é preciso maioria qualificada: ao menos 15 países que representem 65% da população da UE. Nesse cenário, a França tem peso decisivo, mas não está sozinha.
Outros países que podem influenciar:
- Itália: liderada pela primeira‑ministra Giorgia Meloni, tem posição semelhante à da França, mas pode ser persuadida por acordos de contrapartida.
- Polônia e Hungria: tradicionalmente céticos, podem bloquear se sentirem que seus agricultores ficam em desvantagem.
- Áustria e Irlanda: ainda indecisos, podem ser decisores de voto.
- Bélgica: já anunciou que se absterá, o que pode reduzir a margem de manobra.
Em resumo, a assinatura depende de um delicado jogo de alianças dentro da própria UE. E é aqui que a pressão de Lula pode fazer diferença, ao mostrar que o Brasil está pronto para cumprir o que prometeu e ao lembrar que o acordo traz benefícios mútuos.
O que isso muda na prática para o produtor brasileiro?
Se o acordo for assinado, o impacto no campo pode ser sentido em três frentes principais:
- Expansão de mercados: exportadores de soja, milho, carne bovina e frango poderão negociar tarifas menores, aumentando a competitividade nos portos europeus.
- Investimento em tecnologia: com acesso a um mercado mais exigente, produtores terão incentivo a melhorar padrões de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade – requisitos que a UE costuma cobrar.
- Risco de volatilidade: as salvaguardas podem gerar incerteza. Se um país europeu acionar a suspensão das tarifas, exportadores podem enfrentar quedas repentinas nos preços.
Para quem tem uma pequena propriedade, isso pode significar a diferença entre vender para um comprador local ou conseguir contratos com grandes distribuidores europeus. Para as grandes companhias, o acordo abre portas para parcerias estratégicas, joint ventures e até investimentos diretos de empresas europeias no Brasil.
Como o consumidor brasileiro se beneficia?
Embora o acordo pareça focado na exportação, ele também tem reflexos no mercado interno. Quando o Brasil vende mais produtos agrícolas a preços competitivos, há menos pressão sobre os preços internos, ajudando a manter a inflação sob controle. Além disso, a abertura de mercados pode estimular a diversificação da produção, gerando mais empregos no campo e nas cadeias logísticas.
Qual o futuro?
Se tudo correr como esperado, a assinatura acontecerá em Foz do Iguaçu no próximo sábado, com a presença de Lula, representantes da UE e, possivelmente, a primeira‑ministra italiana. Mas, como a política costuma ser, o caminho ainda tem curvas.
O que eu levo dessa história é a importância de acompanhar não só o discurso dos líderes, mas também os detalhes das negociações. Cada cláusula, cada salvaguarda, pode transformar a vida de quem trabalha no campo, de quem compra alimentos e de quem investe em agronegócio.
Se você tem alguma dúvida sobre como o acordo pode afetar sua produção ou quer saber mais sobre as oportunidades de exportação, deixe um comentário ou entre em contato. O debate está aberto, e a decisão que será tomada nos próximos dias pode mudar o rumo do nosso agronegócio nos próximos anos.



