Na última quinta‑feira, eu ouvi na TV que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ligou para a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni. Parece papo de diplomacia, mas o que está em jogo é muito mais próximo da nossa mesa de jantar: alimentos, empregos e até o preço da carne que compramos.
O que está acontecendo?
O acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul – bloco que inclui Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia – está quase pronto para ser assinado. Se tudo correr bem, a cerimônia será em Foz do Iguaçu, no próximo sábado, durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul.
Mas há um obstáculo: a Itália, que tem um setor agrícola forte e agricultores bem organizados, ainda não deu o aval final. Segundo Lula, Meloni pediu um prazo de “uma semana, dez dias, no máximo um mês” para convencer os produtores italianos a aceitarem o tratado.
Por que os agricultores italianos estão tão nervosos?
O medo não é infundado. Muitos agricultores europeus, sobretudo os franceses, temem que produtos sul‑americanos – carne bovina, aves, soja e açúcar – entrem no mercado europeu a preços mais baixos, já que as regras ambientais e de produção são diferentes.
Para eles, isso pode significar perda de mercado, queda de preços e, em última análise, menos renda nas áreas rurais. Por isso, a pressão sobre Meloni vem de sindicatos agrícolas, que organizam protestos e exigem “salvaguardas” mais rígidas.
Salvaguardas: o que são e como funcionam?
O Parlamento Europeu já aprovou um conjunto de medidas que permitem colocar tarifas de defesa caso o preço de um produto latino‑americano caia mais de 5% em relação ao preço europeu ou se as importações aumentarem mais de 5% sem tarifas.
- Monitoramento de preços: se a carne brasileira ficar muito mais barata, a UE pode reavaliar.
- Limites de volume: se o volume de importação crescer demais, tarifas temporárias podem ser aplicadas.
- Revisões periódicas: a cada dois anos, as partes revisam o impacto e ajustam as regras.
Essas salvaguardas são um “meio‑termo” para acalmar os agricultores, mas ainda não convenceram a França, que insiste em adiar a assinatura.
Os outros atores europeus
Enquanto a Itália parece hesitar, outros países têm posições diferentes:
- França: o presidente Emmanuel Macron exige novas salvaguardas antes de apoiar o acordo.
- Alemanha: o chanceler Friedrich Merz defende que a UE avance, apontando benefícios para a indústria e para a competitividade global.
- Espanha: o primeiro‑ministro Pedro Sánchez também está a favor, destacando oportunidades de exportação para o setor agroindustrial espanhol.
Essas divergências mostram que o acordo não é só um documento assinado em Brasília; ele depende de um consenso político complexo dentro da UE.
Por que isso importa para nós, brasileiros?
Se o acordo for aprovado, o Brasil pode ganhar:
- Tarifas menores ou zero para exportações de carne, soja, açúcar e café, tornando nossos produtos mais competitivos nos mercados europeus.
- Maior investimento estrangeiro em infraestrutura e tecnologia agroindustrial, já que empresas europeias buscarão parcerias no Mercosul.
- Diversificação de mercados, reduzindo a dependência de países como a China ou os Estados‑Unidos.
Mas há também riscos:
- Concorrência interna: produtores brasileiros menores podem enfrentar pressão de grandes conglomerados que se beneficiam das tarifas reduzidas.
- Exigências ambientais: a UE pode exigir que nossos produtos cumpram padrões mais rigorosos, o que implica custos de adequação.
Em resumo, o acordo pode ser um “cavalo de batalha” para a economia, mas exige preparo e políticas de apoio ao pequeno produtor.
Qual é a estratégia de Lula?
Lula, que tem experiência em negociações internacionais, parece estar jogando o cartão da paciência. Ele disse que vai levar a mensagem de Meloni à reunião do Mercosul e propor que os parceiros decidam o que fazer.
Essa postura tem duas vantagens:
- Mostra flexibilidade – ao conceder um prazo, o presidente brasileiro evita um impasse imediato.
- Preserva a unidade do bloco – se o Mercosul fechar o acordo sem a Itália, o bloco pode ficar dividido e enfraquecido nas próximas negociações.
Ao mesmo tempo, Lula tem que equilibrar as expectativas dos agricultores brasileiros, que temem que a abertura excessiva possa prejudicar preços internos.
O que pode acontecer nos próximos dias?
O Conselho Europeu vai se reunir ainda esta semana para decidir. As possibilidades são:
- Aprovação rápida: se a Itália ceder e a França aceitar as salvaguardas, o acordo pode ser assinado em Foz do Iguaçu.
- Adiamento: se a França mantiver a oposição, a assinatura pode ser postergada, gerando incerteza para o comércio.
- Revisão de termos: a UE pode propor novas salvaguardas, o que exigiria renegociação com o Mercosul.
Qualquer que seja o desfecho, a decisão vai repercutir nos mercados de alimentos, nas cadeias de suprimentos e, claro, no bolso do consumidor.
Conclusão: o que podemos fazer?
Para quem acompanha a política e o comércio internacional, a lição aqui é clara: acordos comerciais são decisões de longo prazo que afetam a vida cotidiana. Se você tem um negócio ligado ao agro, vale a pena ficar de olho nas notícias e nas possíveis exigências de certificação ambiental.
Se você é consumidor, pode esperar que, nos próximos anos, alguns produtos importados da América Latina cheguem mais baratos às prateleiras. Mas também pode observar que, se houver pressão dos agricultores europeus, alguns itens podem subir de preço temporariamente.
Em última análise, a conversa entre Lula e Meloni é um lembrete de que a diplomacia muitas vezes se resume a “dar um tempinho” para que os interesses se alinhem. E, como sempre, o futuro depende de como cada parte vai equilibrar benefícios e concessões.
Fique atento, porque a assinatura pode acontecer já no fim de semana, mas os efeitos – positivos ou negativos – vão se desenrolar ao longo dos próximos anos.



