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Lula e a UE: por que ainda não fechamos o maior acordo comercial do mundo?

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Lula e a UE: por que ainda não fechamos o maior acordo comercial do mundo?

Na última quarta‑feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou bem claro que está cansado da indecisão da União Europeia (UE) sobre o acordo de livre comércio entre o bloco europeu e o Mercosul. A frase que mais chamou atenção foi: “Nós cedemos tudo que era possível ceder”. Mas, para quem não acompanha de perto as negociações, o que isso significa na prática? Por que esse tratado é tão importante e quais são os obstáculos que ainda precisamos superar?

Um pouco de contexto: o que é o acordo Mercosul‑UE?

O acordo em questão está em negociação há 26 anos. Se aprovado, ele criará a maior zona de livre comércio do planeta, reunindo os 27 países da UE e os cinco membros do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela – embora este último esteja suspenso). Em termos simples, seria como abrir uma avenida de duas mãos onde produtos, serviços e investimentos circulam sem tarifas ou barreiras burocráticas.

Por que isso importa para o brasileiro?

  • Exportações agrícolas: carne, soja, café e açúcar ganhariam acesso direto a mercados europeus, que hoje são protegidos por tarifas elevadas.
  • Indústria: setores como automotivo, aeroespacial e de tecnologia poderiam exportar mais facilmente, gerando empregos e renda.
  • Investimentos: empresas europeias teriam mais segurança para investir no Brasil, trazendo capital, inovação e boas práticas de governança.

Mas, como tudo na vida, há dois lados da moeda.

Os entraves da UE: França, Itália e o medo dos agricultores

O que parece ser um acordo vantajoso para o Mercosul tem encontrado resistência em alguns países europeus, sobretudo na França e na Itália. O ponto central da objeção é a agricultura.

Os agricultores franceses temem que a entrada de carne bovina e soja sul‑americanas “inunde” o mercado interno, reduzindo preços e ameaçando suas fazendas familiares. O mesmo receio ecoa na Itália, onde a produção de queijos e vinhos de alta qualidade poderia enfrentar concorrência mais barata.

Além disso, a UE tem que aprovar o acordo através do Conselho Europeu, que requer o apoio de pelo menos 15 dos 27 Estados‑membros representando 65 % da população. Isso significa que países como Polônia, Hungria e Áustria podem ser decisivos para bloquear ou aprovar o tratado.

O que Lula realmente quer dizer com “cedemos tudo que era possível ceder”?

Durante a reunião ministerial na Granja do Torto, Lula explicou que o Brasil já fez concessões importantes para chegar a um ponto de equilíbrio. Entre elas:

  • Redução de tarifas sobre produtos manufaturados europeus.
  • Compromisso com normas ambientais e de direitos trabalhistas mais rigorosas.
  • Flexibilidade em questões sanitárias que afetam a exportação de produtos agrícolas.

Em outras palavras, o governo brasileiro já abriu mão de parte dos benefícios que poderia ter exigido, na esperança de que a UE respondesse com a mesma boa‑fé. O que Lula tem reclamado, então, é que a UE ainda está “parada no tempo”, sem dar um sinal claro de aprovação.

O papel da cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu (PR)

A expectativa era que o acordo fosse assinado na cúpula que ocorre neste sábado, em Foz do Iguaçu, Paraná. A escolha da cidade não foi aleatória: estar no Brasil, perto da fronteira com a Argentina, simboliza a união do bloco sul‑americano. Se a UE confirmar o apoio, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve viajar ao Brasil para assinar o pacto.

Mas, como o presidente destacou, a UE pediu para mudar a data da reunião de 20 de novembro para 20 de dezembro, alegando necessidade de tempo para aprovar o acordo internamente. Agora, parece que até essa nova data não será suficiente.

O que podemos esperar nos próximos dias?

O Conselho Europeu tem duas sessões marcadas (18 e 19 de dezembro) para discutir o texto final. Se houver consenso, a votação pode acontecer ainda nesta semana. Caso contrário, o acordo será adiado novamente, o que pode gerar frustração tanto no Brasil quanto nos países do Mercosul.

É importante lembrar que, mesmo que a UE dê o aval, ainda haverá um processo de implementação: ajustes nas legislações nacionais, criação de mecanismos de salvaguarda (para proteger setores sensíveis) e, claro, a adaptação dos produtores brasileiros às exigências europeias.

Próximos passos e o que isso muda no nosso dia a dia

Para o cidadão comum, a assinatura do acordo pode parecer algo distante, mas seus efeitos podem chegar ao prato da mesa e ao bolso de várias maneiras:

  1. Preços de alimentos: a maior concorrência pode reduzir preços de carnes e grãos importados, mas também pode pressionar os produtores locais a melhorar a qualidade.
  2. Oportunidades de emprego: setores que se beneficiem do acesso ao mercado europeu podem contratar mais, sobretudo em áreas de logística, exportação e tecnologia.
  3. Investimento em infraestrutura: com o aumento das exportações, o governo pode acelerar projetos de portos, ferrovias e estradas, o que gera empregos e melhora a conectividade.

Claro, tudo isso depende de como o acordo será implementado e de como os países da UE lidam com as preocupações internas. Mas, de modo geral, a assinatura seria um passo importante para posicionar o Brasil como um player global ainda mais relevante.

Conclusão: paciência, estratégia e diplomacia

O que fica claro é que a negociação não é só sobre números e tarifas. Ela envolve política interna de vários países, interesses de agricultores, indústrias e até questões ambientais. Lula tem jogado duro, mas também tem reconhecido que a UE ainda tem dúvidas.

Se a mensagem do presidente foi de frustração, também foi de determinação: o Brasil não vai desistir. E, para nós, leitores, vale acompanhar de perto, porque o desfecho desse acordo pode mudar a forma como o Brasil se insere no comércio mundial nos próximos anos.

Fique de olho nas próximas notícias e, quem sabe, na próxima visita de Ursula von der Leyen ao Brasil – talvez seja o sinal de que finalmente chegou a hora de fechar a maior zona de livre comércio da história.