Um café da manhã que virou manchete
Na manhã de terça‑feira, enquanto eu tomava meu café, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparecia na TV defendendo os Correios. Ele foi direto ao ponto: “Enquanto eu for presidente não vai ter privatização”. A frase, simples, já deu o tom de tudo que vem acontecendo nos últimos meses – uma empresa pública que luta para não afundar, mas que também não será vendida a investidores privados.
O que está acontecendo com os Correios?
Os números são duros. Em 2023 a estatal registrou prejuízo de R$ 633 milhões. Em 2024, esse valor já saltou para R$ 2,6 bilhões. E, se olharmos o acumulado de janeiro a setembro de 2025, o déficit chega a R$ 6 bilhões, com projeções de fechar o ano com um resultado negativo de até R$ 10 bilhões.
Esses números não surgem do nada. Vários analistas apontam que a gestão dos últimos anos foi equivocada: investimentos mal direcionados, custos operacionais altos e a concorrência do comércio eletrônico que, sem dúvida, mudou a forma como enviamos e recebemos produtos.
Por que o governo ainda não aceita a privatização?
Para entender a resistência de Lula, vale lembrar o papel histórico dos Correios no Brasil. Eles são mais que um serviço de entrega; são um elo de comunicação que chega a regiões remotas, onde a internet ainda é precária. São responsáveis por documentos oficiais, como carteiras de identidade, passaportes e boletos de pagamento.
Privatizar uma empresa com esse peso social pode gerar um debate intenso sobre acesso universal. Lula, ao prometer que não haverá privatização, tenta garantir que o Estado continue a garantir esse serviço essencial, ainda que com mudanças de gestão e parcerias estratégicas.
Quais são as alternativas que o governo está considerando?
- Aporte direto de recursos: O Tesouro poderia transferir dinheiro para cobrir o déficit imediato.
- Empréstimo bancário com garantia do Tesouro: Bancos emprestariam dinheiro à estatal, mas o governo ficaria como fiador caso os Correios não pagassem.
- Parcerias e economia mista: Possibilidade de abrir capital parcial, permitindo que investidores privados participem, mas sem perder o controle estatal.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já informou que um pacote de empréstimo de até R$ 12 bilhões está em análise. O objetivo é garantir o pagamento de salários e fornecedores, ao mesmo tempo que se respeitam limites fiscais – a taxa de juros, por exemplo, está limitada a 120% do CDI.
O que muda na prática para quem usa os Correios?
Se tudo correr como o governo espera, o cidadão pode não notar grandes alterações no dia a dia. O que pode acontecer, porém, são ajustes internos:
- Revisão de contratos e renegociação de tarifas.
- Possível redução de postos de trabalho – a empresa já sinalizou demissões voluntárias de até 15 mil funcionários.
- Venda de imóveis e ativos que não são estratégicos para o negócio.
Essas medidas são dolorosas, mas podem ser necessárias para colocar a empresa em um caminho mais sustentável.
Um olhar histórico: já houve tentativas de privatizar?
Sim. No início dos anos 2000, durante o governo Lula (primeiro mandato), surgiram discussões sobre a criação de uma economia mista nos Correios. Na época, a ideia foi abandonada por falta de consenso político e por pressões de sindicatos.
Desde então, a empresa passou por várias reestruturações, mas nunca chegou a ser vendida. Isso cria um precedente: o Estado tem a capacidade de intervir, mudar a diretoria e buscar parcerias, sem precisar abrir o capital.
Próximos passos e o que esperar nos próximos meses
Até sexta‑feira (19), o Ministério da Fazenda deve concluir a avaliação do plano de reestruturação. Se o empréstimo for aprovado, a expectativa é que o dinheiro chegue rapidamente para cobrir salários atrasados e manter o fluxo de entregas.
Mas a solução de curto prazo não resolve o problema estrutural. A longo prazo, será preciso:
- Modernizar a frota de veículos e os centros de distribuição.
- Investir em tecnologia digital para competir com o e‑commerce.
- Reavaliar o modelo de negócios, talvez focando mais em serviços de logística para empresas.
Essas mudanças exigem planejamento, tempo e, claro, dinheiro. Se o governo conseguir alinhar política pública com eficiência empresarial, os Correios podem se tornar novamente um exemplo de empresa pública bem-sucedida.
Conclusão: o que isso significa para nós?
Para quem depende dos Correios – seja para receber um presente, pagar uma conta ou enviar documentos oficiais – a mensagem principal é: a empresa ainda está aqui, e o governo está comprometido em mantê‑la funcionando. Isso traz um certo alívio, mas também nos lembra que serviços públicos não são garantidos eternamente; eles precisam ser bem geridos.
Se você tem alguma experiência recente com atrasos ou mudanças nos serviços dos Correios, compartilhe nos comentários. Essas histórias ajudam a entender como as decisões de cima chegam até a nossa porta.
Fique de olho nas próximas notícias, porque o desenrolar desse plano de socorro pode servir de exemplo para outras estatais que enfrentam crises semelhantes.



