Um telefonema que pode mudar o futuro do comércio entre Brasil e Europa
Na última quinta‑feira, eu li que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ligou para Giorgia Meloni, a primeira‑ministra da Itália, e saiu da conversa com um pedido de paciência: “dê‑nos uma semana, dez dias, no máximo um mês, que a Itália apoia o acordo”. Parece papo de bastidor, mas tem tudo a ver com o que pode acontecer nas próximas semanas no comércio internacional.
Por que esse acordo ainda gera tanta polêmica?
O tratado UE‑Mercosul está em andamento há mais de 25 anos. Depois de duas décadas de negociações, o texto final foi concluído há um ano. Ele promete reduzir ou eliminar tarifas de importação e exportação entre a União Europeia e os países do Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Em teoria, isso abre portas para que produtos agrícolas, industriais e de serviços circulem com menos barreiras.
Mas, como todo acordo de grande escala, ele tem seus críticos. Agricultores europeus, sobretudo na França, temem que produtos latino‑americanos, produzidos com normas ambientais menos rigorosas, entrem no mercado europeu a preços mais baixos, derrubando os preços locais. Essa preocupação não é só econômica; é também política, porque o agronegócio tem forte lobby nos parlamentos nacionais.
O papel da Itália e o “constrangimento político” de Meloni
Segundo Lula, Meloni não é contra o acordo, mas está sentindo a pressão dos agricultores italianos. Ela descreveu isso como um “constrangimento político”. Em outras palavras, o governo italiano tem que equilibrar a necessidade de avançar nas negociações internacionais com a obrigação de manter a base de apoio interno – que inclui um grande número de produtores rurais.
O pedido de tempo que Meloni fez ao presidente brasileiro tem um objetivo claro: ganhar alguns dias para conversar com os representantes do agro italiano, explicar os benefícios do tratado e, quem sabe, conseguir a aprovação necessária dentro do Conselho Europeu.
O que os outros países da UE estão fazendo?
- França: O presidente Emmanuel Macron deixou bem claro que a França não vai apoiar o acordo sem salvaguardas adicionais para seus agricultores. O país conseguiu garantias da Comissão Europeia, mas ainda assim quer mecanismos que permitam reintroduzir tarifas caso os preços dos produtos latino‑americanos caiam mais de 5 % em relação aos europeus.
- Alemanha: O chanceler Friedrich Merz tem uma postura mais favorável ao avanço do acordo, apontando para os ganhos comerciais e a necessidade de fortalecer a parceria transatlântica.
- Espanha: O primeiro‑ministro Pedro Sánchez também defende a assinatura, destacando que a UE precisa de novos mercados para seus exportadores.
Essas posições divergentes mostram como o bloco está dividido: alguns países veem o acordo como uma oportunidade de crescimento, enquanto outros temem impactos negativos nos seus setores agrícolas.
Como isso afeta o dia a dia do brasileiro?
Para nós, consumidores, o acordo pode significar mais opções de produtos importados a preços menores – pense em vinhos italianos, queijos franceses ou até frutas exóticas que chegam mais baratas. Para os produtores brasileiros, principalmente os de carne bovina, soja e açúcar, a redução de tarifas abre portas para exportar mais e com margens melhores.
Mas há um lado menos visível: o acordo pode pressionar setores internos que ainda não estão preparados para competir com os produtos europeus. Por exemplo, alguns produtores de laticínios no Sul do Brasil podem sentir a concorrência de queijos europeus, que ganharão acesso mais fácil ao mercado interno.
O que vem pela frente?
O Conselho Europeu está se reunindo agora para deliberar. Se tudo correr bem, a assinatura final acontecerá no sábado, 20 de dezembro, em Foz do Iguaçu, durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul. Depois, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve viajar ao Brasil para ratificar o tratado.
Entretanto, se a Itália decidir segurar o apoio, o bloco pode precisar renegociar prazos ou oferecer mais garantias. Isso pode atrasar a assinatura e criar um clima de incerteza tanto para exportadores quanto para importadores.
Qual a minha opinião?
Eu vejo o acordo como um grande passo rumo a uma maior integração entre o Sul e o Norte do planeta. A história mostra que acordos comerciais bem estruturados trazem crescimento econômico, inovação e, muitas vezes, melhores salários. Mas o sucesso depende de equilibrar interesses: proteger os agricultores que temem perder mercado, ao mesmo tempo que se abre espaço para que produtores latino‑americanos conquistem novos consumidores.
Se a UE conseguir implementar salvaguardas eficazes – como as que já foram aprovadas no Parlamento Europeu – e se a Itália conseguir acalmar seu lobby agrícola, o acordo tem tudo para ser benéfico. Por outro lado, se as pressões internas continuarem a impedir a aprovação, podemos ver um impasse que atrasará projetos de desenvolvimento tanto no Brasil quanto na Europa.
O que você pode fazer?
Mesmo que pareça distante, esse tratado tem impactos na sua conta de supermercado, nos preços dos produtos que você compra e nas oportunidades de emprego no setor exportador. Fique de olho nas notícias, converse com produtores locais e, se possível, participe de debates comunitários sobre o futuro do agronegócio brasileiro. Informação é a melhor ferramenta para entender como decisões internacionais chegam até a sua mesa.
Em resumo, o telefonema de Lula a Meloni pode parecer um detalhe, mas ele simboliza a delicada dança diplomática que acontece nos bastidores das grandes negociações. O tempo que a Itália pede pode ser a chave para desbloquear um acordo que, se bem conduzido, trará benefícios para ambos os continentes. Agora, resta acompanhar o desenrolar nos próximos dias e esperar que a política encontre um caminho que favoreça todos.



