Se você já abriu a geladeira e encontrou um pote de ketchup Heinz, um bloco de cream cheese Philadelphia ou aquele macarrão com queijo que a gente adora, provavelmente nem imaginou que por trás desses itens há uma mudança de comando e uma reestruturação gigantesca. Na última terça‑feira (16), a Kraft Heinz anunciou que Steve Cahillane, ex‑presidente da Kellogg, será o novo CEO da companhia. Ao mesmo tempo, a empresa está avançando com o plano de dividir suas operações em duas companhias independentes, algo que promete mexer não só nos números das ações, mas também na forma como os produtos chegam às prateleiras.
Quem é Steve Cahillane e por que ele foi escolhido?
Steve Cahillane tem 60 anos e uma carreira que parece feita sob medida para o momento que a Kraft Heinz vive. Ele comandou a Kellogg durante a sua própria cisão em 2023, quando a empresa se transformou na Kellanova e vendeu a divisão de snacks para a Mars, em um acordo de cerca de US$ 36 bilhões. Essa experiência de “desmembrar” uma gigante de alimentos e ainda gerar valor para os acionistas foi exatamente o que o conselho da Kraft Heinz buscava.
Além do histórico de fusões e cisões, Cahillane tem um perfil de liderança que combina foco em eficiência operacional com uma visão de longo prazo para inovação de produtos. Na Kellogg, ele foi responsável por simplificar a estrutura de custos e acelerar a reformulação de receitas, algo que a Kraft Heinz também precisa fazer depois de alguns anos de queda de demanda em categorias como maionese e sucos.
O plano de cisão: duas empresas, duas estratégias
O anúncio da divisão foi feito em setembro de 2023, exatamente dez anos depois da famosa megafusão entre a Kraft e a Heinz, orquestrada por Warren Buffett e pelos brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Herrmann Telles e Carlos Alberto Sicupira, através da 3G Capital. A ideia agora é simplificar a estrutura, reduzir a complexidade e dar mais foco às operações.
Até o segundo semestre de 2026, a Kraft Heinz deve se transformar em duas companhias distintas:
- Empresa Global de Molhos, Temperos e Pastas: responsável por marcas icônicas como ketchup Heinz, cream cheese Philadelphia e Kraft Mac & Cheese. Essa unidade vai atender mercados de todo o mundo, buscando crescimento em regiões emergentes e reforçando a presença em canais de varejo premium.
- Empresa Focada no Mercado Norte‑Americano de Itens Básicos: com marcas como Oscar Mayer, Kraft Singles, Lunchables e Capri Sun. O objetivo aqui é otimizar a cadeia de suprimentos, reduzir custos e melhorar a margem em produtos de consumo diário.
Separar essas duas linhas de negócio permite que cada uma siga sua própria estratégia de investimento, preço e inovação, sem precisar conciliar metas conflitantes.
Por que a divisão faz sentido agora?
Nos últimos anos, a Kraft Heinz enfrentou uma série de desafios que deixaram suas ações bem abaixo do pico de 2017, quando o preço das ações estava 75% mais alto. No segundo trimestre de 2023, a empresa registrou um prejuízo de US$ 9,3 bilhões, reflexo da queda de demanda por produtos como maionese, macarrão instantâneo e sucos. Além disso, a valorização das ações despencou cerca de 20% apenas neste ano.
Esses números sinalizam que a estratégia de “grande fusão” já não funciona como antes. O mercado está mais fragmentado, os consumidores buscam opções mais saudáveis e de preço acessível, e a concorrência de marcas próprias de varejo está cada vez mais forte. Ao separar as duas áreas, a Kraft Heinz pode:
- Concentrar recursos de inovação nos segmentos que têm maior potencial de crescimento (como molhos e condimentos globais).
- Reduzir a burocracia interna, permitindo decisões mais rápidas no mercado norte‑americano.
- Atrair investidores que tenham interesse específico em um dos dois modelos de negócio, o que pode melhorar a avaliação de mercado de ambas as empresas.
Impactos para o consumidor: preço, qualidade e variedade
Para quem compra ketchup ou mac & cheese, a grande pergunta é: “vou pagar mais?” A resposta não é simples, mas alguns pontos podem ser antecipados:
- Produtos mais acessíveis: a Kraft Heinz já está lançando versões maiores de mac & cheese por menos de US$ 2, tentando captar consumidores que buscam preço baixo sem abrir mão do sabor.
- Reformulação de receitas: a companhia está ajustando ingredientes para melhorar o custo‑benefício, como melhorar os biscoitos usados nos Lunchables. Isso pode significar menos aditivos ou mais opções “saudáveis” no futuro.
- Inovação focada: com duas empresas, cada uma pode investir em desenvolvimento de novos produtos que atendam a demandas regionais – por exemplo, molhos picantes para o mercado asiático ou versões orgânicas de cream cheese para o público norte‑americano preocupado com saúde.
Em resumo, a separação pode gerar tanto oportunidades de preço mais baixo quanto a introdução de linhas premium, dependendo da estratégia adotada por cada nova companhia.
O que os investidores devem observar
Se você tem ações da Kraft Heinz ou acompanha o mercado de alimentos, alguns indicadores são essenciais nos próximos meses:
- Desempenho das ações até a cisão: a volatilidade pode aumentar à medida que o mercado tenta precificar as duas novas entidades.
- Margens operacionais: a divisão deve melhorar a margem da empresa focada no mercado norte‑americano, que tem custos de produção mais baixos.
- Fluxo de caixa: a capacidade de gerar caixa livre será crucial para financiar investimentos em inovação e marketing nas duas frentes.
- Reações dos concorrentes: veja como marcas como Nestlé, General Mills e a própria Kellogg (agora Kellanova) ajustam suas estratégias frente à nova configuração da Kraft Heinz.
Comparação com outras cisões do setor
Não é a primeira vez que gigantes de alimentos decidem se dividir. Em 2023, a Kellogg se desmembrou, criando a Kellanova, e a Keurig Dr Pepper iniciou o processo de desfazer a união com a Green Mountain. O padrão que se forma é o de “foco especializado” ao invés de “conglomerado”.
Essas mudanças refletem uma realidade onde os consumidores exigem transparência, qualidade e preço justo, e onde a agilidade para lançar novos produtos se tornou um diferencial competitivo. Empresas que permanecem muito grandes podem perder velocidade e, consequentemente, participação de mercado.
Como a nova liderança pode influenciar a cultura da empresa
Steve Cahillane traz consigo uma filosofia de “lean management”, que enfatiza a eliminação de desperdícios e a tomada de decisão baseada em dados. Ele também tem histórico de valorizar a cultura de meritocracia e de incentivar equipes a assumir responsabilidades claras.
Para os funcionários da Kraft Heinz, isso pode significar:
- Revisão de metas individuais alinhadas aos objetivos da nova estrutura.
- Maior ênfase em métricas de eficiência e inovação.
- Possibilidade de mobilidade interna entre as duas novas empresas, criando trajetórias de carreira mais dinâmicas.
Essas mudanças culturais, quando bem gerenciadas, podem transformar a empresa de dentro para fora, ajudando a recuperar a confiança dos investidores e a lealdade dos consumidores.
O futuro da alimentação e a posição da Kraft Heinz
O mercado global de alimentos está em constante evolução. Tendências como alimentos plant‑based, redução de sódio, embalagens sustentáveis e personalização de dietas estão moldando a demanda. A Kraft Heinz, com seu portfólio de marcas icônicas, tem a oportunidade de liderar essas inovações, mas só se conseguir se adaptar rapidamente.
Com duas empresas focadas, a expectativa é que:
- A empresa global de molhos e pastas invista em linhas plant‑based, como maioneses veganas ou ketchup com menos açúcar, e explore embalagens recicláveis.
- A empresa norte‑americana de itens básicos melhore a eficiência de produção, reduzindo custos para oferecer preços ainda mais competitivos em supermercados.
Se essas estratégias forem bem executadas, a Kraft Heinz pode não só recuperar o valor de mercado perdido, mas também se posicionar como referência em inovação alimentar.
Conclusão: o que você deve levar dessa notícia?
Para o consumidor, a principal mensagem é que mudanças de comando e estrutura podem se traduzir em produtos mais baratos, mais saudáveis e mais alinhados às suas preferências. Para quem investe, há uma janela de oportunidade – mas também risco – enquanto o mercado digere a cisão e avalia a performance das duas novas empresas.
Eu, pessoalmente, fico curioso para ver como a Kraft Heinz vai reinventar o clássico ketchup e o mac & cheese que fazem parte da minha infância. Se a empresa conseguir equilibrar tradição e inovação, talvez a próxima vez que eu abrir a geladeira eu encontre não só os mesmos rótulos, mas versões que atendam melhor ao meu paladar e ao meu bolso.
Fique de olho nos próximos comunicados da empresa, nas variações de preço nas prateleiras e nas análises de mercado. Afinal, o que acontece nos bastidores das grandes corporações acaba, de alguma forma, no prato de cada um de nós.



